TRAVESSIAS

Travessias: “quando a gente limpa o vidro dos carro, as menina, sentada do lado da mãe delas, fica olhando”.

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Travessias, por Caren Rhoden

O Espaço Cultural Victório Faccin, sede dos grupos TUI e agora também do grupo Teatro por que não?, recebeu o público interessado na exposição artística visual e na peça Travessias. Desde as 19h pessoas circulavam pela exposição, conversavam aproveitando a noite quase fria de sábado; às 20h30 foi feita a chamada para a peça, interpretada por Aline Ribeiro e André Galarça, e dirigida por ele com base no texto Oração, de Fernando Arrabal.

O espanhol Arrabal trata de assuntos reverberantes ao longo de sua obra, relacionados com sua própria memória de vida – do exílio, ao qual foi levado pela censura do Regime Franco, até a raiva pela mãe e pela família, que preservavam os preceitos religiosos e franquistas a ponto de negar o pai, um comunista preso e desaparecido. Fernando Arrabal tematiza personagens dúplices, que vão da docilidade à fúria sem muito rigor de conduta. Em ‘”Oração” ele apresenta duas personagens, Fídio e Lilibé, em conflito com seus desvalores, e que tentam encontrar na moral cristã, pelos conceitos de culpa, um jeito de serem boas e assim felizes.

Travessias, por Caren Rhoden

O texto original “Oração” foi adaptado de uma maneira inusitada. Em outras montagens o caráter sombrio da peça foi mais explorado em detrimento de outros possíveis. Sendo mais obscuros, as personagens pareciam guardar uma maldade nata, vivendo em um ambiente apartado da culpa moralista, e mais próximo da loucura. No entanto, a leitura de André Galarça pareceu partir mais em direção ao texto, e não somente do texto, o que fez criar sobre este fio um corpo cênico estruturado com brincadeiras infantis, realidade de crianças de rua, observações de um documentário com depoimentos de crianças em situação desviante, e as suas próprias lembranças de infância.

cabra-cega, por Caren Rhoden

 As personagens vivem e trabalham na rua, o que fica claro quando ele começa: “quando a gente limpa o vidro dos carro, as menina sentada do lado da mãe delas fica olhando”, e quando fazem malabares no sinal, numa composição simples e completa de cores e sonoridade. Fídio é dominante, pois é ele quem busca a bíblia – na peça, um livro de histórias – e começa a relembrar e explicar como se dá a trajetória de Jesus; Lilibé é quem acaba sofrendo os “testes de aplicabilidade”, sendo que nos tribunais criados em cena, ela sempre é a julgada, mantendo também a lógica do machismo. Em alguns momentos as crianças fazem uma interação direta com a platéia, como quando saem para vender balas ou quando, como nessa apresentação, roubam a mochila de uma moça que sentada na primeira fila; em outros momentos parecem dois adultos brigando um com o outro e cada um com a realidade. Os conflitos se abrem dos pontos de conduta desviantes dessas duas personagens. Fídio diz que Lilibé rouba; eles matam; eles são pobres; eles mentem; eles, então, não podem encontrar a felicidade e o jeito de serem bondosos.

Amarelinha, por Caren Rhoden

Na discussão após a peça, os espectadores, independente de serem ligados profissionalmente ao teatro ou não, comentaram suas impressões, no geral positivas. Os atores falaram do trabalho conceptivo, que foi um motor de sugestões quanto a construção do nível de inocência das “crianças de rua”, já que suas infâncias amadurecem mais rápido, dada a sua convivência com a realidade concreta e bruta; e também quanto ao sentimento de invasão que as pessoas inseridas na “normalidade” têm quando essas crianças insistem em alguma venda ou mendicância. Também levantou-se o julgamento como uma prática insensível aos contextos pessoais dentro da sociedade, da dependência entre esse ato e a autoridade, e de como essa “moral cristã” se corrompe em seu próprio cerne, pois busca perfeição bondosa em um mundo que é também carne e conflito.

Lilibé, por Caren Rhoden

Com traços de todo o seu processo de montagem, a peça foi apresentada pela segunda vez, sendo a primeira no Teatro Caixa Preta, na Universidade Federal de Santa Maria, e agora está inserida no catálogo de peças do grupo Teatro por que não?. É uma peça curta e com um final mantido do texto, ou seja, um tanto abrupto e vago, mas que não perde em nada por isso, já que a leitura proposta é bastante interessante. Também fazem parte da produção Felipe Martinez, Deivid Machado Gomes e Cauã Kubaski.No domingo, as atividades do Mosaico seguiram durante o dia.

Nessa semana tem espetáculo de rua, no dia 26, próximo sábado, na Praça Saldanha Marinho, às 16h: A farsa do Panelada, do Teatro Candeia. Na sequência, no Espaço Victorio Faccin, às 20h30, O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá

 

 

TRAVESSIAS, pelo viés de Caren Rhoden.

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