ENTREVISTA COM EDGAR DO COUTO SEVERO

Bom, pra começarmos, preciso que o senhor me diga seu nome completo, sua data de nascimento e o lugar onde o senhor nasceu. Edgar do Couto Severo, 1930, 17 de novembro, Rosário do Sul. Por quanto tempo o senhor trabalhou na Swift? Uma média de… Mais ou menos assim… 8 ou 10 anos. Comecei a […]

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Bom, pra começarmos, preciso que o senhor me diga seu nome completo, sua data de nascimento e o lugar onde o senhor nasceu.

Edgar do Couto Severo, 1930, 17 de novembro, Rosário do Sul.

Por quanto tempo o senhor trabalhou na Swift?

Uma média de… Mais ou menos assim… 8 ou 10 anos. Comecei a trabalhar lá em 1948.

Em que setor o senhor trabalhava?

Trabalhei em diversos setores, no departamento de pontos, depois fui transferido pra o serviço de guarda, depois fui transferido para a conserva, onde se fabricava a conserva… Trabalhei nos setores onde se cozinhava “as conservas”. Enfim, foram várias.

O senhor tem alguma lembrança de quando o senhor trabalhou lá, desde a rotina, os amigos, alguma curiosidade…

Ah, são muitas… São tantas que a gente nem se dá conta na hora… Tem que refletir um pouco.

E a rotina?

A rotina era maravilhosa! Era aquela coisa certa, horários certos, muita disciplina em todos os setores… Tinha um entrosamento muito bom entre os funcionários. Acontecia muito dos funcionários roubarem carne só… É como ta o Brasil hoje, só que eles roubavam era pra matar a fome “né”… (risos)

E da cidade, o senhor acha que está melhor hoje, que era melhor no tempo da Swift, ou é a mesma coisa?

Ah, a cidade evoluiu um pouco daquele tempo pra cá, só que na área do trabalho era muito melhor aquela época, “né”. O dinheiro era bem fácil. Todo mundo vivia muito melhor. E muita gente trabalhava lá. Era em torno duns 3 mil que trabalhavam lá. Depois que fechou muita gente saiu, foi embora… Diminui “as pessoas” na cidade, “né”…

Em sua opinião, porque a Swift fechou?

A Swift fechou “por causa que”… Era uma firma muito poderosa, e tinha que cumprir com obrigações sociais na época, e eles não puderam mais cumprir com essas obrigações. Esse é um dos motivos né. Praticamente é esse o motivo porque fechou.

E tem alguma coisa na cidade que o senhor se lembre que surgiu no tempo em que tinha a Swift?

Ah, que tenha hoje… Tinha cinema aquela época, tinha teatro, hoje não tem mais nada disso. (silêncio) Os clubes funcionavam todos com toda a perfeição, com todos os quadros sociais, hoje “ta” praticamente extinto, quase, “né”…

E tu acreditas que essa memória ainda é viva na cidade? Por exemplo, as pessoas ainda falam sobre isso?

Ah, seguidamente a gente fala. Quando a gente encontra esses amigos mais velhos, daquela época, vem a recordação, vem a saudade, de como era Rosário…

E essas recordações são boas?

Exatamente, só recordações boas. Um tempo mais próspero. Mais gente nas ruas… As tropas chegando… O gado, as tropas… O trem também, chegava muita coisa de trem. Muito mais movimento na cidade, era um espetáculo “né”! Era dia e noite e tinha movimento!

O Rossignollo, que era prefeito na época que a Swift fechou, atualmente* é candidato a prefeito da cidade. O senhor acha que essa questão da Swift ainda pode interferir na campanha dele?

Era prefeito sim… É candidato. Mas acho que não tem condições não. Porque nada ele teve haver com isso. Até tem gente que usa isso contra ele. Mas pelo tamanho, pela imensidão que a Swift tinha, jamais um “prefeitinho” iria conseguir fechar uma firma daquelas.

Eu não sei se “tô” te ajudando “né”…

*Nota: a entrevista fora concedida no ano de 2008.

Claro que sim, tudo que o senhor lembrar me ajuda muito!

É, eu lembrei de mais umas coisinhas… Se for útil pra ti…

Tudo é útil! Podes me dizer.

É sobre historinhas de como era a realidade lá né. Começando pelo seguinte, lá não era só fábrica de conservas, e sim charqueada. Trabalhava muito com o charque. Tinha uns varais enormes lá, a carne era salgada durante a noite, pilhas e pilhas de carne salgada, depois era distribuída pra secagem no sol, puxada por burros, burros, não é jumento, burros na época, era distribuída aquela carne no sol e recolhidas à noite.

E como que vendiam esse charque? Era enlatado também?

Faziam fardos e exportavam, era carregado de trem. O trem entreva lá e carregava. Caminhão era muito raro. Acho que nem existia naquela época. E naquela época não chamavam de Swift, chamavam de Saladeiro. Quando perguntavam pra alguma pessoa “Onde que tu trabalha?”, era “Ah, eu trabalho no saladeiro”, nós “era” do saladeiro! Aí no “recorrer” dos anos a gente começou a chamar de Swift. Mas a relação que iniciou era de saladeiro, por causa das charqueadas…

E “tinha” duas safras. Por exemplo, a safra verde, quando tinha o “apito grosso” na fábrica. Era um apito muito “retundente”, toda a cidade ouvia. Quando aquele apito era grosso, todo mundo sabia que ia iniciar a safra verde. Então na safra seca, por exemplo, terminou a safra verde, aí vem a safra seca. Dispensavam uma grande quantidade de pessoas e ficavam com um pouco de pessoas pra safra seca. Ficavam com os cargos que eram mais de confiança, assim… Aí o apito mudava, era um apito fino e estridente, aí toda a cidade sabia que começava a safra seca. Uns detalhezinhos, não sei se vai te ajudar.

Claro.  Tem mais?

Ah, tu também pode colocar, que se abatia na época sempre acima de 500 animais, era de 1.500 até 2.000 cabeças por dia! (exclamações) E esses animais eram transportados a pé, raramente chegava de trem, era nas tropas, inclusive eles atravessavam o rio, da nossa praia aqui, a nado, no Santa Maria*, e chegava quase todos os dias. Aí “tinha” as mangueiras lá, e ficavam nas mangueiras.

Ah, e dos roubos de carne… Realmente, tinha gente que roubava pedacinho de carne pra levar pra casa escondido dentro da roupa. Tem um fato curioso até, que ficou na história da Swift, sabe… Dum funcionário lá que infelizmente já é morto, e pra preservar o nome dele então nem vou dizer o nome dele “né”! Todo mundo queria bem ele… Ele pegou um pedacinho de carne, umas 700 gramas de carne, e foi denunciado que levava carne roubada. “Aí” prenderam ele num quarto fechado, pra juntar as testemunhas e pegar ele em flagrante, e ele ficou ali mais ou menos meia hora, metido dentro naquele quarto.  “Aí” pegaram as testemunhas e foram lá fazer a revisão, pra testemunhar “né”. E surpreendentemente ele não tinha nada. Revistaram ele e não tinha nada. Sabe o que que aconteceu? Depois ele nos contou. Pra mim principalmente ele contou. Ele comeu toda a carne!

*Nota: Alusão ao Rio Santa Maria que banha a cidade e a “Praia das Areias Brancas”, balneário ou praia-de-água-doce da cidade, banhada pelo Rio citado e pelo Rio Ibicuí.

Ah, no tempo que ele ficou preso “ali”?

Ele comeu toda a carne crua. (exclamações) Ficou na história isso aí! (risos). Isso ficou nas pessoas da época né, que lembravam disso aí né! (risos)

Mas acho que era isso né…

Dizer que o gado ia pro chuveiro, que tinha os bretes, que eles levavam choques elétricos pra entrar no brete. Ali eles eram “marreteados”, depois caia no terminal do cara ali e eram suspensos e sangrados. Ali era feito o trabalho né. Era o movimento muito grande né. De 3.500 a 4.000 pessoas lá. Tinha depósito de graxeiras né, de conservas também. A quadra seca que chamavam pra fazer a ervilha, Rosário era capital da Ervilha né. Tudo isso era feito lá na Swift.

Mas é isso aí né.. Não sei se eu ajudei…

Nossa, esta ótimo!

Ah, que bom então!

Muito obrigada pela entrevista. Ajudou-me bastante.

Que bom, que bom. Um abração.

Entrevista concedida à historiadora Tainá Valenzuela.

 

 

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