A TORTURADA FALA COM O MÉDICO DA TORTURA

Reportagem inicialmente divulgada na revista IstoÉ Identificado por Inês, o psicanalista Amílcar Lobo admitiu: foi convocado pelo Exécito para atender os presos políticos que sofriam torturas. Quase dez anos depois de sua passagem pela casa da rua Arthur Barbosa, em Petrópolis, Inês Etienne Romeu e o medico e psicanalista Amílcar Lobo – que lá atendia […]

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Reportagem inicialmente divulgada na revista IstoÉ

Identificado por Inês, o psicanalista Amílcar Lobo admitiu: foi convocado pelo Exécito para atender os presos políticos que sofriam torturas.

Quase dez anos depois de sua passagem pela casa da rua Arthur Barbosa, em Petrópolis, Inês Etienne Romeu e o medico e psicanalista Amílcar Lobo – que lá atendia pelo codinome de carneiro – voltaram a se encontrar, quinta-feira passada. Do tenso reencontro participara, também, o deputado Modesto da Silveira (PMDB-RJ) e a repórter Lúcia Romeu, da ISTOÉ, Abaixo, seu diálogo:

Inês. Dr. Lobo, eu acho que conheço o senhor. Meu nome é Inês Etienne Romeu e eu estive com um médico chamado Dr. Lobo na casa de Petrópolis. Outros presos políticos também o conheceram na PE da Barão de Mesquita.

Modesto. O senhor esteve naquela casa em Petrópolis, não é verdade?

Lobo. Eu fui convocado. Eu não fiz o serviço militar e, após terminar o curso de Medicina, fui convocado pelo Exército. O que se está levantando é um assunto muito sério: que eu teria participado da tortura. Minha função lá foi exclusivamente de atendimento médico.

Modesto. Isto Inês confirma.

Inês. O senhor tratou da minha perna (mostra a perna) que estava com uma parte de carne apodrecida. O senhor conseguiu cortar a carne.

Lobo. Não tenho lembrança, não. Eu me recordo de ter tratado de uma pessoa…

Inês. De uma moça machucada. Eu tive um desastre, um atropelamento, estava fisicamente arrasada. Eu tive uma tentativa de suicídio, então o Dr. Bruno, o Dr. Teixeira…

Lobo. Lembro-me de uma tela para uma plástica que arranjei para recuperação do tecido de sua perna.

Inês. O senhor disse que eu deveria ser transportada para um hospital. Esse é o meu depoimento real, eu sou uma pessoa com muita responsabilidade e não vou inventar nada sobre ninguém. Eu tive vários atendimentos pelo senhor.

Lobo. É muito importante dizer que uma coisa que não fiz foi ter torturado.

Inês. Eu não disse isso, em nenhum momento.

Lobo. Ajudei muita gente…

Modesto. Naquela casa, não?

Lobo. Naquela casa, não. Lá só estive com ela. Ajudei muita gente, posso chamar várias pessoas. Eu nem sei onde é esta casa, eu era levado lá encapuzado. A confiança que tinham em mim era tão pouca… Lembro-me de que a gente subia uma ladeira e era uma casa no final de uma rua.

Modesto. É isso mesmo.

Lobo. Se eu tiver que ir lá, eu não sei.

Modesto. Quais eram as pessoas que estavam lá, com as quais o senhor entrou em entendimento?

Lobo. Eu recebia ordens do Comando do I Exército, recebi ordens do comandante da época.

Modesto. Quem era o comandante na época?

Lobo. Coronel Homem de Carvalho ou Nei Antunes, não me lembro bem.

Modesto. O senhor chegou a ficar lá quanto tempo?

Lobo. 1970, 1971. Seis meses no Forte Copacabana, em 1970, e depois fui para o I Batalhão da Polícia do Exército, onde fiquei até o final de 1971.

Modesto. A ordem que o senhor recebia era escrita ou verbal?

Lobo. Verbal.

Modesto. Era diretamente do comando?

Lobo. Era.

Lúcia. O senhor sabia que estava em Petrópolis?

Lobo. Sabia. O capuz foi colocado lá.

Inês. Além do atendimento da perna, do ventre, da bacia, desses pontos aqui na minha mão e também um exame de pulmão, houve um dia em que o Dr. Pep…

Lobo. Lá, a única coisa que me disseram foi que esses seus ferimentos foram porque você foi atropelada por um ônibus.

Inês. Isto é verdade.

Lobo. Disseram-me que ela foi presa e se jogou debaixo de um ônibus.

Inês. Um dia o Dr. Pep e o dr. Teixeira – eu os conheci com esses codinomes – o levaram lá e o senhor me aplicou algumas injeções, que eles me disseram ser Pentotal. Eles iam fazer um interrogatório.

Lobo. Não é verdade.

Inês. É verdade. O senhor pode não se lembrar, mas é verdade. O dr. Lobo nunca conversou comigo. Ele só se dirigia ao Dr. Pep, ao dr. Teixeira ou ao dr. Bruno.

Lobo. Eu não sei quem eram.

Modesto. O senhor poderia descrever o tipo físico de cada um deles, por exemplo?

Lobo. Um deles era alto, magro, branco, cerca de quarenta anos.

Inês. Tinha um gordo que no dia em que o Dr. Lobo me fez uma transfusão de sangue…

Lobo. Eu não fiz essa transfusão.

Inês. Foi aplicado no dia em que eu cortei os pulsos, eu perdi muito sangue. Então de madrugada…

Lobo. Eu não fiz isso. Me lembro de ter tratado de sua sutura…

Inês. Eu fui tratada pelo mesmo médico. O senhor era chamado de dr. Carneiro. O seu nome de guerra lá era dr. Carneiro.

Lobo. Eu não sei disso.

Inês. Chamavam o senhor de dr. Carneiro na minha frente. Se o senhor não se lembra, eu me lembro.

Lobo. Minha posição é uma posição de esquerda, podiam até me chamar de dr. Satanás… Eu não me lembro de ter feito essa transfusão de sangue. Só atendi ao ferimento.

Lúcia. O senhor sabia que lá era uma casa onde se torturavam pessoas, onde sumiam presos?

(Lobo balança a cabeça, e diz que sim)

Modesto. O senhor chegou a registrar esse fato em algum dossiê, em alguma ficha, algum diagnóstico?

Lobo. Não.

Modesto. O senhor comunicou esses fatos às autoridades médicas ou ao exército?

Lobo. Eram autoridades do exército que me mandaram lá.

Modesto. Então o senhor não comunicou a ninguém?

Lobo. Não.

Modesto. O senhor já descreveu uma pessoa. E as outras?

Lobo. Um tinha estatura mediana, era forte, moreno claro. É difícil lembrar porque se passaram muitos anos.

Modesto. Tem dez anos, mas como era um fato muito inusitado, naturalmente o senhor marcou…

Lobo. Eu chegava lá em estado quase de transe, quase de automatismo.

Modesto. O senhor ficava muito tempo lá, só no dia das operações que o senhor fez em Inês… Foi uma coisa muito longa.

Lobo. Duas horas, no máximo. Fiquei o tempo todo dentro do quarto.

Inês. O tratamento desse ferimento foi uma única vez, O senhor fez a raspagem, mas o senhor foi lá outras vezes.

Lobo. O tratamento desse ferimento tenho registro na minha memória…

Inês. Mas eu estive com o senhor em três cômodos diferentes da casa. Uma vez foi na despensa, outra no corredor e uma terceira vez o senhor auscultou meu pulmão num quarto.

Lúcia. Gostaria que Inês rememorasse a cena em que o dr. Lobo lhe aplicou o Pentotal já que ele não se lembra.

Lobo. Não é que eu não me lembre, eu nego isso.

Lúcia. O senhor nega, mas eu quero que Inês reproduza na sua frente tudo o que aconteceu.

Lobo. Posso ter aplicado nela um soro. Glicose. Nunca Pentotal.

Inês. O dr. Lobo não participou do interrogatório. Quem fez perguntas foi o dr. Pep e o dr. Teixeira.

Lobo. Pode ter sido aproveitado esse instante para você se iludir que estava sendo aplicado em você o Pentotal. Nesse sentido, eu admito.

Lúcia. E a agulha na veia?

Lobo. Posso ter aplicado uma glicose, uma coisa assim.

Inês. Foram várias aplicações.

Lobo. Posso ter aplicado medicamento.

Modesto. Esse ferimento da perna (aponta lugar da cicatriz) precisava de um inxerto porque ficou faltando bastante carne. Eles não permitiriam fazer um inxerto na época?

Lobo. E sugeri isso.

Lúcia. Dr. Lobo, o senhor se recusou alguma vez em fazer esse tipo de atendimento?

Lobo. Você está louca?

Lúcia. O senhor tinha medo, então?

Lobo. Três vezes tentei me desligar do exército, numa das vezes me responderam que o requerimento tinha ido para na 6ª seção e o exercito só tem cinco seções.

Lúcia. Isso quer dizer que o pedido não foi considerado.

Lobo. É.

Modesto. O senhor não se lembra do nome das pessoas da casa, nem mesmo do tipo; foi muito vaga a descrição que o senhor fez. Mas aqueles que levaram você de automóvel até Petrópolis, quem eram?

Lobo. Um era baixo, forte, tinha uma fala nordestina, era um tipo meio estranho, acho que por causa da coloração da pele, avermelhada. Tinha cerca de trinta anos, e ia dirigindo o carro.

Modesto. E o nome dele.

Lobo. Não sei.

Lúcia. E as conversas deles no carro durante o trajeto?

Lobo. Eram pessoas rudimentares, de nível primário, no máximo ginasial.

Lúcia. Quantos havia no carro.

Lobo. Dois. Eu fui recostado no banco fumando. Não participei da conversa.

Modesto. E o outro?

Lobo. Era amulatado e mais forte que o que ia no banco da frente. Este estava atrás comigo. Tinha também perto de trinta anos.

Modesto. Como é que os senhores se tratavam na viagem?

Lobo. A única coisa que me lembro é que, chegando em Petrópolis, eles me disseram que estavam cumprindo ordens e me encapuzaram. Quando chegamos em frente a casa eles tiraram o capuz.

Modesto. Então o senhor viu a casa pelo lado de fora também?

Lobo. Lembro de que tem uma varanda na frente, a sala tinha uma lareira.

Modesto. Por uma foto o senhor reconheceria.

Lobo. Sim. Lembro de que entrei no quarto menor que aquele em que você estava (dirigindo-se a Inês). Ficava a direita…Da outra vez que estive com você eu entrei no corredor a esquerda, no quarto a esquerda.

Inês. Exato. A direita tinha uma copa pequena, um banheiro e logo a seguir uma despensa. Onde havia uma cama de campanha.

Modesto. O senhor nos esclareceu que recebia ordens do comandante do I Exército, do comandante Nei Antunes ou do comandante Homem de Carvalho?

Lobo. Tenho a impressão de que foi o Homem de Carvalho.

Modesto. O senhor estava subordinado a quem na época?

Lobo. Diretoria de saúde.

Modesto. Mas subordinado a quem?

Lobo. Nunca tive contato com médico nenhum.

Modesto. Então o senhor ficava lá só servindo, cumprindo ordens do 1º Batalhão de Policia do Exército?

Lobo. É.

Modesto. Durante os dois anos que o senhor esteve lá atendeu quantas pessoas no exército? Centenas?

Lobo. Centenas, não. Eramos três médicos. Havia o médico do presídio…

Modesto. Presídio do 1º Batalhão?

Lobo. O presídio lá não era do batalhão, era do CODI-DOI. O Batalhão apenas emprestava as dependências. Eu era médico do Batalhão.

Modesto. E esse médico do presídio, quem era?

Lobo. Não sei, ele tinha codinome.

Modesto. Mas era um colega seu…Como é que o senhor sabia que era codinome?

Lobo. Eu supunha.

Modesto. Qual o nome que o senhor dava lá?

Lobo. Eu nunca escondi meu nome.

Modesto. E o terceiro médico?

Lobo. Dr. Ricardo Agnesi Fayad. Nós dois, na ausência do médico que usava codinome, atendíamos casos como o dela. Os responsáveis pela tortura que encontrei foram punidos.

Modesto. O senhor nos deu explicações…

Lobo. Esse é o tipo de ajuda que eu posso dar…Eu ainda sou oficial da reserva.

Modesto. O senhor é R-1?

Lobo. R-2.

 

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