OPERAÇÃO RABISCO: ENTREVISTA COM ELIAS MAROSO

Artista, designer e mestrando em poéticas visuais discute as relações e intersecções entre o pixo e a arte contemporânea.

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Elias Maroso é artista, designer e mestrando em poéticas visuais (PPGART/UFSM), membro fundador do grupo Sala Dobradiça e integrante do Grupo Arte e Design (CNPq/UFSM). Na entrevista concedida por e-mail, Elias discute as intersecções e relações existentes com o pixo no mundo das artes visuais e no contexto da arte contemporânea, além de analisar as recentes operações de repressão realizadas em Santa Maria e algumas declarações dadas por figuras públicas com a intenção de definir o que é ou não é arte.

 – Como é possível considerar o pixo no contexto da arte contemporânea?

Elias: Pois bem, essa questão é um tanto cabeluda, há de se tomar alguns cuidados. ‘Afinal de contas: pixo é arte? E é arte contemporânea?’ – já instigaria: ‘de que arte está falando?’ ou ‘de qual arte contemporânea?’ Falar o que é ou deixa de ser em um campo partilhado por tantas visões como esse se inclina ao exercício de poder dos mais arrogantes. Quem pode, em termos universais, dizer o que não é arte? Muitos especialistas ao longo dos registros históricos tiveram seus modelos de análise generalizantes completamente depostos. Por isso, temos que considerar os diferentes contextos e códigos que convencionam uma prática simbólica ou técnica como arte.

Para começar, a potência e diversidade do pixo emergem antes de qualquer contextualização e está em movimento. Quer dizer que seu sentido/percepção não passa apenas pelo discurso posterior que o defende, analisa, discrimina ou fomenta, mas também por sua própria irrupção no espaço urbano. Ressalto isso para observar não apenas quais seriam suas origens e acrescentar como o pixo nos afeta implicados no tecido urbano. Falo de sentidos e sensações em jogo! Essa forma de ver tanto dilui a tendência de recognição de se buscar uma ‘mensagem por trás do acontecido’, um significado fixo, como também perceber como ele age sobre códigos sociais, dos mais naturalizados imbricados em nós. É fato incontestável que o pixo consona e pode até se mesclar com atividades sígnicas mutantes, contagiosas e vivas que se alastram por praticamente todas as cidades-negócio de médio a grande porte do planeta – do oriente ao ocidente.

Do ponto de vista de quem faz, noto certas inserções no contexto geral da arte por iniciativa autoral, do próprio feitor que defende seu trampo enquanto arte (muitas vezes, desde um viés anarco, contracultural). Mas varia pela forma como a arte é vista. Há os que consideram a arte como um recorte elitista, separado da vida. Isso não é uma novidade dentre as produções visuais que marcaram discussões estéticas e políticas no século XX, desde a anti-arte dadaísta até a supressão da categoria artística pelos situacionistas franceses, que, na ótica dos pacíficos ordeiros ‘sem vandalismo’, facilmente seriam rotulados de baderneiros, vagabundos, etc. Já encontrei galera indignada com vândalos e citando Guy Debord em trabalhos acadêmicos! Mal sabem que ‘seu bando’ dava bastante trabalho para a polícia da época. Inserir o pixo no campo da arte demanda alguma articulação e postura: um discurso de legitimação ou de negação.

Diante disso, na questão do pixo, aponto duas possibilidades de contextualização no campo e pensamento da arte: a primeira, a que entende ‘arte contemporânea’ como expressão de um recorte historicizado e estilístico no campo artístico, seja ele disseminado em meios acadêmicos, instituições, discursos e agentes (do montador de exposição aos artistas) que propagam seu modelo; e a segunda, outra referente a uma conceituação de arte mais abstrata, porém pertinente, que a situa como força dinamizadora dos códigos culturais vigentes. Falarei brevemente das duas.

Na primeira concepção, arte contemporânea é um termo difundido, bem controlado por forças de mercado que dá visibilidade a artistas, teóricos, curadores e museus específicos. E isso quer dizer que há uma centralização no discurso e nas possíveis alterações do modelo. Dificilmente o pixo entraria em sua totalidade em um aparelho de exposição artística, pois muitos argumentam que sua condição de existência está justamente na subversão e não na permissividade. Mesmo assim, as produções artísticas enumeradas como marcos da história da arte mainstream, principalmente desde os primórdios do século XX, podem nos oferecer ferramentas para soltar o pixo de paradigmas como o belo, o original e o reconhecível. Algumas pixações desenvolvem desconstruções formais de letras a ponto de perderem a referência do código, outras abusam da apropriação. Em sua maioria, as pixações realmente não apelam para o clichê do sublime ou belo. Isso, a certo modo, é bem explorado em diversas práticas consideradas arte pelo discurso institucionalizado. Mas, ressalto: por não apresentarem beleza digerível, não se reduzem ao inestético. Essas manifestações vêm construindo outra estética, a que encontra a política enquanto abertura de outro modo de ser. Um ser que usa o cotidiano de modo tático. Houve inserções de arte de rua na Pop-Art norte-americana encabeçada por Warhol, mas sua inserção mais se deu para estabelecer um conflito cínico de contextos, o Popular versus Erudito. Basquiat foi ‘capturado’ para dentro da galeria. O pixo é considerado feio, ilegível e subliminar; mas isso não seria critério para deslegitima-lo enquanto arte já que tem muita coisa feia, ilegível e subliminar em galerias, com cifras altíssimas.

Ocorrências do pixo em instituições artísticas são rodeadas de polêmicas, das mais conceituais a administrativas, o que faz ressaltar que o espaço especializado de exposição não está arquitetado para compreendê-lo, muito menos a pixação necessita dele para existir. Não será o selo de “arte” que resolverá a dissonância de muitos pixadores com a sociedade. Estão produzindo supertextos (além dos textos) e surfado sobre os subtextos naturalizados do dia-a-dia.

Minha segunda consideração sobre o pixo no contexto da arte se refere mais ao pensamento do que aos aparelhos de visibilidade. Esse segundo ponto é justamente o que argumenta que a arte não está condicionada existencialmente a um recorte disciplinar ou território especializado. Nessa perspectiva, não é o espaço expositivo que unicamente converte objetos como ‘dignos de serem artísticos’. Tais modelos de lugar são meros aparelhos de captura diante de um sem-fim de experiências. Arte não é necessariamente artigo de museu, galeria. Está na vida.

Por seus elementos instigantes, o pixo até pode ser foco de debate institucional, mas um museu, galeria ou universidade não estão suspensos das leis que privilegiam o patrimônio à voz dos silenciados. Nesse caso, arte e cultura não são a mesma coisa. Quem me mostrou isso foi o cineasta Jean Luc-Godard: ‘quando a cultura é regra, a arte é exceção’. O pixo é uma arte de viver que marca passagens. Está para ebulir códigos culturais. Não necessita de erudição ou “consciência politizada” para ser.

 – Além do reconhecimento institucional do pixo, tu falaste sobre as apropriações e interações que acontecem com ele. Como tem sido este movimento no mundo das artes visuais? Tua pesquisa é relacionada com isso?

Elias: Pixação com X já territoriza uma prática. Pichar com CH todo mundo faz ou já fez na vida, seja numa mesa de escola, numa porta, numa árvore. Mas o X indica um modo de operar sistemático e identificável. Dentre outras atividades de subversão na cultura, é brutal para as normas do cotidiano. E ainda por cima não tem mensagem clara ou explicitamente política. Há muitos esquerdistas (nem precisa mencionar os direitosos, né?) que a condenam pela dita ‘falta de politização’ ou ausência de mensagem clara ao domínio público. Quem sabe, para esses petulantes, a periferia, depois de letrada e doutrinada sob seus dogmas, seria digna de uma manifestação política e artística. Mas, notemos: estamos debatendo a cidade!

A estética da pixação nos afeta tanto que necessita da política. Tanto que muitos clamam pela repressão e extinção. Os grupos estão se organizando e algumas pessoas isolando determinados elementos para produzir imagens ou propostas. Daí emerge uma que outra apropriação no campo da arte, de sua imagem ao seu processo invasivo. Creio que há um fenômeno de ruas que estimula outras produções variantes de semelhança ao ponto disparador (o Pixo). Existem instituições culturais mais abertas à negociação e outras que criminalizam no automático.

O pixo entra em minha poética como um elemento de contágio. Sinto-me ‘infectado’ por ele, uma vez que me proponho a trabalhar com a imagem da cidade e intervir nas ruas. Não é a referência principal, mas é uma delas. E não é de agora que vampirizo essa prática (no sentido de sorver e contaminar).

No meio acadêmico, a produção artística também é vista como uma pesquisa. Assim, produzo propostas artísticas que não só funcionam dentro da academia, mas que são acompanhadas de textos técnicos referentes ao meu processo. O Tom do texto técnico depende bastante de quem orienta e da banca que avaliará. Por sorte, desfruto de liberdade, embora tenha que alimentar uma sagacidade nova ao usar espaço das ruas e lincá-la à academia. Em geral, o texto técnico está para a proposta e não o contrário, ou não com valores equiparados.

 No momento, estou na produção de um “texto prático” que se propõe como prática do pensamento da prática. Busco assim, alcançar um texto que não está subjugado ou posterior à prática artística, mas que também é ela. Nisso, dentre outras referências, o pixo vem me infectando por ser um texto praticado no cotidiano da cidade. Foi uma influência que percebi aos poucos e que agora assumo completamente e um texto será praticado na cidade. Trata-se de uso para a criação. Não estou produzindo para pertencer a uma cultura de rua já identificada, embora veja muita potência em várias delas.

 – Como tu avalias estas últimas ações da polícia em Santa Maria?

Elias: Desastrosas. Uma máquina de repressão policial. Investiga, captura, castiga e humilha pessoas. Invade ambientes privados em nome de uma autoridade estética sobre a paisagem da cidade. Ao não dialogarem com os pixadores, destacam que o patrimônio vale mais que gente. Digo que é máquina de repressão pois, após a Operação Cidade Limpa, realizada durante campanhas eleitorais, o pixo aumentou vertiginosamente. Nessa perspectiva, o aumento do pixo pode ser responsabilizado também pela ação policial e a população insatisfeita deveria observar isso melhor. Há uma deficiência até mesmo no modo de extinguir o pixo, ao menos que o objetivo seja realmente esse sadismo policial amparado pela lei.

Certamente haverá os que defendem uma integridade ‘conceitual’ do pixo, nunca se sujeitando aos ditames do Estado. Mas também haverá os abertos ao diálogo. Mas em uma cidade onde o Museu centraliza quase todos os espaços de exposição e estes possuem critérios de avaliação/seleção risíveis, imagina como será no trato de ‘delinquentes se achando artistas’! Não tenho como desconsiderar a coragem de muitos em desafiar os textos cotidianos que carregamos todos os dias. Há uma vitalidade nessas práticas. Bagunçam convenções sobre a propriedade.

Propriedade em função de quem? O que é propriedade para o Estado? Não estavam com um projeto para proibir mulheres de abortar fetos resultantes de estupro? Favelas não são demolidas em função da especulação imobiliária? Quem é dono do quê?

Sempre haverá os que desejam ser, ao menos por alguns instantes, donos da própria vida. Há várias formas de se fazer isso. Formas que, em geral, não são consideradas lá muito benditas. Não sejamos apáticos: o mundo não está pleno a ponto de se imaginar que uma revolta sígnica em tempos de bioexploração capitalista não aconteceria!

 – O que tu pensas das declarações de delegados, policiais e políticos em que fazem distinção entre “grafite, a arte” e “pixação, o vandalismo”?

Elias: Engraçado que, do dia pra noite, autoridades ditam o que é arte, não? Reintero: quem pode formular um modelo universal normativo que deslegitima uma prática como arte? Há de se observar o contexto, os territórios onde determinados critérios habitam. Essa distinção que você cita serve para criminalizar uma estética de periferia. Não é nada funcional para a lei. Se alguém fizer uma pintura de Jesus Cristo na fachada de uma imobiliária sem permissão, seria considerada violação da propriedade privada. Trata-se de um movimento para simplesmente desqualificar o pixo. A lei não passa por aí, muito menos deve ser aplicada no automático. Ela nos é um parâmetro para defender direitos civis. As medidas tomadas até então só propagam um impasse de dez anos. Como falei, uma máquina de repressão por si mesma.

Para saber mais sobre as operações de repressão à pixação em Santa Maria, leia as reportagens “A pixação e a ordem das aparências” e “Operação Rabisco: novo nome, a mesma repressão“. 

OPERAÇÃO RABISCO: ENTREVISTA COM ELIAS MAROSO, pelo viés de Tiago Miotto.

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  • luiz

    Enquanto as reflexões sobre a pixação ficarem no âmbito da arte, dificilmente encontraremos respostas para os problemas sócias que esta prática acarreta. Penso que a questão fundamental sobre o pixo, questão que nos auxiliaria a tratar da sua situação na sociedade, não diz respeito a formalização do pixo enquanto linguagem artística. Um breve panorama da arte contemporânea nos gritaria que o pixo é arte! A questão fundamental, que talvez possa fazer com que os pixadores não sejam tratados com tanto ódio, quem sabe seja outra; Nossa sociedade está preparada para uma linguagem artística que tenha em seus fundamentos a transgressão da propriedade privada? Longe de querer defender um muro em branco, mas acho que nem com o fim da propriedade privada o picho seria bem aceito, e se fosse bem aceito, acabaria imediatamente. O pixo é um deboche na cara da lei. há quem ache isso bonito, eu acho isso bonito.