DESCASO DOS GOVERNOS COM A REFORMA AGRÁRIA MATA ASSENTADA EM SÃO GABRIEL

O texto abaixo foi apresentada pelas famílias do Assentamento Madre Terra em ato realizado em São Gabriel no dia 21 de agosto de 2013, data em que o assassinato do Sem-Terra Elton Brum completou quatro anos. Para saber mais,leia reportagem completa no Viés. Salete de Oliveira, agricultora, mãe de 7 filhos, 4 anos de acampamento, […]

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Ato dos assentados dos Projetos de Assentamento Madre Terra e do Cristo Rei no dia 21 de agosto de 2013, em memória aos quatro anos do assassinato do sem-terra Elton Brum. Foto: Tiago Galsoler

O texto abaixo foi apresentada pelas famílias do Assentamento Madre Terra em ato realizado em São Gabriel no dia 21 de agosto de 2013, data em que o assassinato do Sem-Terra Elton Brum completou quatro anos. Para saber mais,leia reportagem completa no Viés.

Salete de Oliveira, agricultora, mãe de 7 filhos, 4 anos de acampamento, e mais 4 anos assentada, faleceu após derrame cerebral no dia, sem ver cumpridas as longas e falaciosas promessas do governo de ter água, luz, estradas, escola, atendimento a saúde, demarcação e créditos no assentamento.

Dona Salete como era conhecida, tinha apenas 41 anos, apesar do sofrimento e das batalhas pela sobrevivência e pelo sonho de viver e criar seus filhos no campo fazerem com que parecesse mais velha. Assentada no PA Madre Terra, Catuçaba, São Gabriel, junto a outras 87 familias, ela encontrava novo desafio: viver, sobreviver e construir seu lar a 90 km da cidade, sem luz, água potável, transporte escolar, estradas, atendimento a saúde e recursos mínimos para organizar a produção. Se passaram 4 anos, e sucessivas promessas e mentiras dos governos e do INCRA sem que nada fosse resolvido, tudo continuava como no inicio e as autoridades responsáveis nos enchiam de desculpas burocráticas que logo se contradiziam.

Sem créditos para produzir e com o INCRA travando o direito ao “fomento” (créditos destinados aos assentados da Reforma Agrária), o companheiro de Salete, Davi foi obrigado a trabalhar fora, colhendo maçãs, para pelo menos melhorar a alimentação da família que recebia como auxilio apenas uma miserável cesta do INCRA. Sem o companheiro no lote a maior parte do tempo, Salete tinha que cuidar de tudo, das crianças, dos animais, do frágil barraco de madeira, da horta e da lavoura de subsistência.

Como o INCRA, mesmo com 4 anos de assentamento ainda não demarcou os lotes e as famílias ainda não sabem exatamente suas divisas, Salete descobriu que havia construído seu barraco fora do próprio lote e que teria que desmonta-lo e reconstruí lo novamente. Mais um trabalho penoso e pesado que ela vinha realizando desde maio. Inclusive retirava prego por prego das tabuas para reutilizá-los novamente. Também trabalhava reconstruindo sua horta em novo espaço.

Porém seu maior empenho era com as crianças, que mesmo com todas as adversidades cresciam com todo cuidado da mãe. Sofriam, no entanto, com a questão escolar, já que o assentamento não tinha escola e suas crianças tinham que caminhar 2 km (algumas crianças do assentamento caminhavam até 7 km) para pegar o transporte escolar e ir para uma escola distante. A justificativa do governo municipal (responsável pelo transporte escolar) é que não podia pegar as crianças porque não tem estradas. O INCRA, responsável por construir as estradas, diz que não tem dinheiro e passou a responsabilidade para o Governo do Estado e este último até hoje alega estar preso às burocracias públicas.

Devido a estas condições desumanas a que estavam submetidos Salete e seus filhos e ainda estão os assentados do Madre Terra, ela já andava deprimida e, ao consultar um médico na cidade, diagnosticou-se depressão. A partir de então, ela passou a tomar remédios controlados.

Dia 11 de julho de 2013, enquanto buscava água em uma cacimba a uns 500 metros de seu barraco, Salete caiu desacordada. Sem atendimento de ambulâncias, sua filha mais velha foi em busca de uma assentado vizinho que tivesse um carro para socorrê-la. Como ainda não há estradas e com um inverno frio e chuvoso, o carro atolou duas vezes, e o socorro teve que ser interrompido para que a pé se fosse procurar um trator para desatolar o carro e só então seguir os 90km até São Gabriel para leva-la ao hospital. Salete chegou ainda com vida na Santa Casa, onde foi diagnosticado AVC (Acidente Vascular Cerebral), mas acabou falecendo 3 dias depois.

Salete lutou 8 anos pelo seu sonho de assentamento e por uma vida digna no campo para seus filhos. Ela não viu e não vera esse sonho se concretizar. E hoje seus filhos e as demais 87 familias assentadas no Madre Terra continuam sem luz, água potável, estradas, saúde, créditos, demarcação e respeito por parte dos governos.

DESCASO DOS GOVERNOS COM A REFORMA AGRÁRIA MATA ASSENTADA EM SÃO GABRIEL, pelo viés dos assentados do Madre Terra, em São Gabriel, RS.

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