CAPITÃES DA AREIA: RAZÕES PARA LER E PARA VER

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“É aqui também que mora o chefe dos Capitães da Areia Pedro Bala. Desde cedo foi chamado assim, desde seus cinco anos. Hoje tem 15 anos. Há dez que vagabundeia nas ruas da Bahia. Nunca soube de sua mãe, seu pai morrera de um balaço. Ele ficou sozinho e empregou anos em conhecer a cidade. Hoje sabe de todas as suas ruas e de todos os seus becos” (p. 21).

A desilusão da vida que não se sabe quando finda. Pedro Bala e seu grupo de Capitães da Areia, perdidos, miseráveis, sórdidos, sem norte, esquecidos, foram jogados nas telas dos cinemas e de lá conseguiram, através de mais um suporte, honrar seu criador. Jorge Amado é considerado um dos maiores de nossa história literária e não é por acaso, evidente. De suas páginas surgiram personagens que navegam no imaginário brasileiro, assim como pessoas que realmente existiram e marcaram no tempo um quê de importância subjetiva. Mas além de não existirem na realidade, Dona Flor, Pedro Bala, Tieta do Agreste ou Gabriela não existem sem a força de uma escrita tão viva que nos faça sentir o sol quente da Bahia ou o navegar da embarcação até Ilhéus como se estivéssemos a receber uma história verídica de um conhecido. Jorge Amado fez de seu romance regionalista um artefato palpável e extraordinário. Em Capitães da Areia, o cunho realista se esbanja. Mesmo que sua sapiência literária construa narrações opulentas gramaticalmente, seus romances ficcionais são singulares, contudo, de leitura simples. E um leitor de Jorge Amado pode até deslembrar alguma mísera parte de uma narrativa lida na juventude, mas como Vadinho, Dora, e tantos outros exalam peculiaridades tão sensíveis, torna-se dificílimo esquecê-los.

O escritor baiano só foi menos lido do que o mago Paulo Coelho, mas dados como esse não merecem ser levados a sério. Jorge Amado escreveu literatura brasileira merecedora do prêmio Camões de 1994. Foi traduzido em 55 países através de 49 idiomas. É o autor mais adaptado na televisão brasileira e agora, na véspera das comemorações de 100 anos de seu nascimento, em 2012, Amado surgiu como o melhor presente ao cinema brasileiro do ano: Capitães da Areia é intenso com os pés afundados no mar da sensibilidade. São meninos, são homens, são ninguéns. Mas dos Capitães da Areia recebemos o timbre doce do sabor amargo que faz o livro crescer, crescer e tornar-se uma boa memória de tempos vividos entre dezenas de garotos de rua que criaram através do apego que os mantém unidos um verdadeiro reino de areia. Capitães, em palavras e imagens, duas belas manifestações da cultura brasileira de qualidade.

O autor de Capitães da Areia, o sexto livro escrito pelo baiano, repassou às suas obras seu viés abertamente comunista. Talvez os capitães sejam a expressão-mor desta qualidade em retratar a vida mostrando a partir de cada figura o todo, e construindo o todo a partir da demonstração de cada um dos personagens. Para a gramática, chamaríamos de metonímia, a figura de linguagem que consiste em tomar uma parte para representar a totalidade. Um menino de rua é o rosto de todo o trapiche abandonado, uma trapaça é a maneira usada e vivida por todos para abiscoitarem dinheiro e assim sucessivamente. Pelo viés político, Capitães da Areia não seria nada diferente ao sistema socialista de viver o mundo, tendo no aglomerado a sobrevivência análoga de todos. A luta de Pedro Bala é a mesma de “Gato”, que é a mesma de Dora e assim por diante. E quem não se ajusta ao preceito de vida em conjunto, dormindo na escuridão do trapiche sem medo de punhaladas, acaba tendo que largar a “boa vida” de existir enquanto único, tendo os braços dos outros continuamente para carregar o peso da existência. Quem rouba do grupo e, portanto, quem rouba de si mesmo, não é bem-vindo. E quem não percebe a autoridade de princípios coletivos e organização atrasa-se em tornar-se literalmente mais um capitão.

E Amado, como um grande que era, expõe de forma impercebível os conceitos que regem estes meninos. O personagem de Pedro Bala pode discorrer teses sobre as façanhas do autor em construir um moleque audacioso, bruto e amargurado com uma essência humana afetuosa submergida nas dores de viver a pobreza e as injustiças. Pedro é órfão de um pai assassinado enquanto fazia greve. Mãe sumida. Sem hierarquização definida, o grupo se compreende pelas façanhas íntimas de cada um. Pedro tem espírito de liderança, mas ninguém dos mais próximos pode se sentir menor ou comandado. Pedro é a decisão do todo, é o chamado do grande grupo. “Professor” é a técnica, o saber “científico” de maior relevância e assim comanda as trapaças e pequenos roubos a serem executados. De noite, “Professor” lê para os meninos aventuras literárias que consertam profundamente mais um dia de solidão em bando, por mais que a afirmativa soe estranho.

Professor lê uma história para os meninos/Divulgação

“Desde o dia em que furtara um livro de histórias numa estante de uma casa da Barra, se tomara perito nestes furtos. Nunca, porém, vendia os livros, que ia empilhando num canto do trapiche, sob tijolos, para que os ratos não os roessem. Lia-os todos numa ânsia que era quase febre”(p.25).

De modo óbvio, a experiência dos Capitães da Areia não era um mar de rosas. Um grupo de meninos que beirava o número de 100 integrantes não conseguiria ser assim tão discreto e preparado. Brigas e desentendimentos aparecem do início ao fim da obra literária. Já nas telas do cinema, a aura de centenas de moleques famintos, órfãos, marginalizados, é alterada para um formato menos trágico, mesmo que a história seja uma sucessão de dramas com cavidades lacônicas de malandragem espirituosa. No livro, a raiva de “Volta Seca” é mostrada através do ódio que sentia contra as autoridades e o desejo de se tornar cangaceiro. Por fim, em ambos os espaços, livro e película, integra-se ao grupo de Lampião, transformando-se em um frio e sanguinário assassino.

Jorge Amado alcança a máxima figura da dubiedade quando mostra a meninice dos marginais miseráveis ao depararem-se com um carrossel mambembe todo iluminado a girar com seus cavalos a subir e a descer. Figuram-se ali todas as sutilezas infantis e a ansiedade no sorriso rasgado dos meninos que são sujeitados a ser outra coisa que não crianças. Para tornar o filme “Capitães da Areia” ainda mais magistral, uma trilha sonora perfeita, assinada pelo músico Carlinhos Brown, vai se achegando a cada cena, marcando em som e imagens passagens bucólicas, esplêndidas e/ou melancólicas. Uma adaptação que com certeza fará muitos regressarem ao livro e tantos outros ansiarem encontrá-lo pela primeira vez. O Brasil agradece.

 

Direção: Cecília Amado, neta de Jorge Amado, e Guy Gonçalves Elenco: Jean Luis Souza de Amorim, Ana Graciela Conceição da Silva, Romário Santos de Assis, Israel Vinícius Gouvêa de Souza, Elielson Santos da Conceição e Paulo Raimundo Abade Silva Produção: Bernardo Garcia Stroppiana e Cecília Amado
Roteiro: Hilton Lacerda e Cecília Amado Fotografia: Guy Gonçalves, ABC
Trilha Sonora: Carlinhos Brown Ano: o mesmo de “O palhaço” e “Elvis e Madonna”. A última edição do livro é da Companhia das Letras

CAPITÃES DA AREIA: RAZÕES PARA LER E PARA VER, pelo viés de Bibiano Girard.

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