TRINTA ANOS EM UM DIA

Um perfil de profissão O afiador e chaveiro que esboça sorrisos como resposta a carrancas é um homem de cinqüenta e poucos anos que poderia estar rico não fosse a opção de investir na família. Ele tem quatro filhos – dois casais –, cinco netos e uma esposa que também recebe a alcunha de “secretária […]

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Um perfil de profissão

O afiador e chaveiro que esboça sorrisos como resposta a carrancas é um homem de cinqüenta e poucos anos que poderia estar rico não fosse a opção de investir na família. Ele tem quatro filhos – dois casais –, cinco netos e uma esposa que também recebe a alcunha de “secretária de trabalho”. A pele é levemente mulata, os cabelos são grisalhos, penteados para trás e se estendem até encontrarem a nuca – onde dão uma última onduladinha na extremidade. No pescoço, além dos cabelos virados, há uma camada de gordura que o contorna e termina onde começa o “papo”. A barriga, redonda e inflada, faz força contra a camisa “pólo” amarela.

O sujeito humilde e simpático traça a caricatura do bom brasileiro. É um dos muitos que se doa ao trabalho em troca do sustento. Homem que, no saldo do mês, ganha o suficiente para viver com um conforto desvinculado de luxos, João Batista Barros, como se chama, só se queixa de não ter férias, já que é profissional liberal. Após a queixa, no entanto, o tipo se cala e baixa os olhos, reprimindo-se pela ingratidão de reclamar da vida.

Naquele sábado quente do dia 23 de maio, João chegou atrasado ao trabalho. Eram 9 horas e 51 minutos quando entrou no corredor que dá para a sua sala de trabalho. Viera de ônibus do bairro Areal até o centro, já que o carro estava no conserto.

“Aquele… aquela peça tinha furado.”

“Ah, o carburador?”

“Isso! O carburador furou e o carro tá na oficina.”

Por tal intempérie, tem gastado meia hora da casa ao serviço e mais meia no trajeto inverso. Trinta minutos a menos, seriam 9:21 e ele estaria atrasado igual. O expediente inicia às 9 horas, mas o sono de cansaço e o suor de uma semana atipicamente quente pesaram naquele dia.  Quem trabalha de segunda a sábado costuma sonhar com o domingo de descanso. Na segunda-feira sofrem de uma pequena depressão, amenizada pela distração que o desgaste da semana causa, e que vem a calhar novamente na exaustão da sexta-feira. Não adiantaria a Batista lançar tais argumentos para a senhora que lhe aguardava. Trabalho é trabalho, ele ama o que faz e o faz com dedicação – mesmo nos momentos em que, desencurvando-se do balcão, coloca as mãos nas costas doloridas e solta um suspiro.  A senhora, ao ver João avançar à porta 01, vai ao seu encontro. No banco, a marca contornada por poeira do quadril levemente largo que acabara de levantar.

Atrasos à parte, o afiador e chaveiro conquista a simpatia da maioria dos fregueses. Ele tem um carisma natural e costumes de educação já meio esquecidos pela sociedade moderna, a qual os translada para o hall do desperdício de saliva.

“Qual o seu nome?”

“Rosária.”

“Muito obrigado, dona Rosária! Um bom dia!” E a senhora sai, sem dizer nada, deixando os cinco reais no balcão e um sorriso ferido em Batista. Ele recompõe-se e o sorriso se abre natural à espera de novo freguês.

Trabalhar com o público requer paciência, bom-humor e uma boa dose de abstração. Como afiador e chaveiro há 30 anos, João sabe bem disso. Na parede da “recepção” da sua salinha, há um cartaz advertindo as pessoas de mau-humor, inveja e mau-olhado a não entrarem. Nem sempre funciona, mas Batista gosta de sinalizar que ali se trabalha “com amor e dedicação”.

O local de trabalho é o mesmo há muitos anos. No princípio, alugava outra sala em parceria com um alfaiate.

“Ele era um fanfarrão, gastava de noite o que ganhava de dia. Não deu certo, não pagava o aluguel direito…”

“Bom, então o senhor está aqui quase desde que começou, há 30 anos?”

“Isso. É uma vida, né?!”

O comentário do seu Batista soa como um estalo de quem recém sai da hipnose. Pergunta que cava no fundo do inconsciente, varre a memória do senhor para fazê-lo lembrar que o tempo passou e poucas foram as mudanças desde seu início num desses ofícios que ninguém percebe a utilidade. Não imaginando quem ganharia a vida com tal serviço, madames de unhas bem feitas, cozinheiros de final de semana, senhoras do lar e costureiras distraídas se vêem em desespero quando notam a necessidade do trabalho de um afiador.

“Não é uma dessas profissões comuns… ” Ele mesmo sabe.

A rua do trabalho de Batista chama-se Tiradentes. Dista alguns metros do Mercado Central e fica em uma quadra na qual se dispõem estabelecimentos de serviços peculiares e um comércio também assim. Há lojas como a Caboclo – de artigos religiosos, o Bric Veste Bem – de roupas usadas, a Drews – loja de roupas tradicionalistas – “com tradição e qualidade”, um boteco sem nome – onde, na manhã do tal sábado quente de maio, dois senhores bebiam seus martelinhos – e uma porta aberta no número 2839, pela qual escorria água do chão para a calçada. Em cima dela, um luminoso apagado exibe inscrições “BATISTA – Chaveiro e Afiador – Chaves em geral – Afia-se tesouras, facas, alicates de cutículas”. Entrando ali, naquele dia, enxergava-se uma torneira recém fechada, a qual provavelmente tivesse sido ligada a fim de lavar a calçada onde, na madrugada, bêbados e apertados sem pudor aliviaram suas bexigas na falta de um banheiro. A porta dá para um corredor fino e longo. Sombrio, mais parece um beco vivendo em constante anoitecer. As paredes, antes brancas, agora se encontram manchadas em toda a extensão pela umidade pelotense.

Algumas placas encontram-se encostadas na parede e em uma delas lê-se: “Joga-se cartas ciganas – Bia de Ogum. Nº 2839B, Sala 06”. Mais tarde, um senhor muito magro – com pernas que, de arqueadas, formam quase um círculo achatado entre elas – entraria no beco, pegaria a placa, levaria até a calçada e a abriria. Ainda penduraria uma garrafa pet no vão formado por sua abertura para garantir que ficasse fixada no chão. Dentro da garrafa, fazendo peso, havia um líquido cinza leitoso, o qual alguns meses antes se supõe ter sido água. No caminho até a sala 06, a sala das cortinas de tiras coloridas que mais parecem canudos, o “negro de Ogum” abriria o zíper do casaco de couro gasto e inflaria o peito mirrado. De óculos escuros estilo anos de ouro americano, o senhor, àquela hora, nada tinha de estilo “preto velho”.

No lado esquerdo do corredor, há uma pilha de argamassa endurecida pelo tempo. Algum dia houve reformas nos planos de alguma cabeça sem trabalho. As mudanças, naquele prédio, não soam normais.  Na construção há marcas de um tempo qualquer que não o atual. As pessoas que ali trabalham parecem presas a um passado. Sem nostalgia, elas conservam aparências e modos de vida com tonalidade de acervo. Paredes novas, pisos brilhantes e janelas sem teia de aranha não representariam tão bem o aspecto estático de Pelotas. “Quem ficar parado mofa”, dizem os habitantes de lá. Pois o cheiro de mofo e pedra molhada – misturados ao cheiro de incenso do pai de Ogum -, é o que sentem os narizes que entram no número 2839 da Rua Tiradentes.

Às 9 horas e 20 minutos, na frente da porta 02, porta vizinha à sala de Batista e que acomoda o “salão da Lurdes”, estava dona Rosária sentada com as pernas cruzadas no banco de madeira escura coberto de poeira. Com tique nervoso no pé apoiado ao chão – batia ele contra o piso de concreto fazendo um pléft, pléf –, esperava Batista para pegar um alicate que a filha havia deixado ali.

Do salão de Lurdes, um aparelho de rádio dá para Rosária a sentença de antipatia ao afiador:

“Rádio Alegria informa: nove horas, quarenta e quatro minutos.” Instantaneamente, a mulher do pé que faz pléft pléft pega o celular da bolsa:

“Oi filha, desculpa se te acordei… É… tô aqui no afiador pra pegar o teu alicate, mas o homem não chega!”

A cabeleireira  e manicure desvia-se do trabalho – realizado com um alicate muito bem afiado – e olha por cima dos aros dourados para Rosária:

“Ele já, já deve estar chegando… já passou de 9 e meia, né?!”

Depois, torna a olhar para o pé da cliente e resmunga:

“Mas tu tem “azunha” colada nas carne!”

Detrás de um balcão está acomodada uma caixa registradora de madeira à manivela com a data 14/05/2005 trancada nos números – talvez a data do último dia em que funcionou. Sem registrar, João cobra cinco reais dos clientes pelo serviço de afiação. Dali se dirige à sua oficina, separada do ambiente de atendimento por uma parede fina de madeira.

O neto de Lurdes, que assistia televisão no salão da avó, entra na sala querendo fofocar.

“Um dia, eu e meu irmão entramo aqui e ele nos deu um chingão!”

Depois, o menino distrai-se enfiando o dedo em um dos buracos da parede divisória.

“Que horror essa parede dele, né?!  Cheia de buraco!”

Seu João sabe disso e não esconde o descontentamento em relação à parede. Depois, conversando e passando um chimarrão ao visitante, ele puxa uma lasca de madeira solta.

Cupim é uma praga mesmo. Quando a gente vê já tá tudo tomado deles” – volta os olhos para os dedos grossos e cascudos, resistentes às farpas afiadas.  “Agora tô programando uma reforma mesmo… – a voz sai decidida, mas fraca. Parece que o gerúndio, a contragosto, é uma das marcas do senhor.

Batista sente prazer na afiação e na cópia de chaves, mas está descontente com mais alguns aspectos no serviço. Já pediu para um dos filhos que procurasse conteúdos na internet sobre a profissão (se é que se pode chamar assim, pois ele mesmo diz que quando foi tirar o alvará, não constavam os ofícios de chaveiro nem, muito menos, o de afiador). O senhor quer se atualizar, mas tem convicção de que está parado no tempo.

Tenho raízes no passado”.

O filho não o ajudou e ele, sem tempo, não conseguiu acompanhar as evoluções. O tom de ferrugem da oficina tem matiz de constante passado, de presente oxidado pela rotina e de um futuro que não mudará de aparência. Não há nada de digitalizações, trabalhos mecânicos e aços brilhosos.

“Não posso parar de trabalhar para essas coisas. Hoje eu tô de barba feita, é até um dia especial. A semana foi de movimento fraco. É a segunda quinzena do mês. Antigamente as pessoas guardavam mais o dinheiro. Hoje, quando chega no dia 15, 20, elas já estão no sufoco. Tem dias que eu tô com a barba enorme, não dá tempo de nada. Fico aqui das nove até às oito da noite. – A justificativa segue de um passar de mãos no rosto e um risinho tímido: orgulho da pele lisa.”

Com a rotina puxada, as refeições são preparadas na oficina mesmo. Na sexta anterior, dia 22, ele e a mulher/ ajudante/ atendente  cozinharam arroz com galinha. A comida é típica entre os gaúchos. O atípico é que seja feita na boca de um pequeno botijão de gás que fica em baixo do balcão de trabalho. É também nessa chama que Batista ferve a água do chimarrão oferecido a quem o visita quando o movimento está fraco. Ele não se incomoda em mostrar que a oficina também é cozinha. As questões práticas vêm antes dos receios bobos. Apontando para alguns potes de temperos e para um saco de arroz pela metade, conta com entusiasmo que, no trabalho, é ele e não a mulher quem prepara os alimentos.

“Ah, eu me garanto. A minha comida é tão boa quanto o meu trabalho. – Depois, explica que, não, ele não é… – Como se diz?”

“Prepotente?”

“É, não sou prepotente nem arrogante, mas eu tenho muita dedicação mesmo. E às vezes tem gente que me traz as coisas pra afiar logo depois que sai de um concorrente.”

Abarrotados e misturados aos potes de temperos e a uma cafeteira, os instrumentos de trabalho estão dispostos no balcão embutido à parede. Dentre eles estão quatro máquinas: três esmeris elétricos com pedras rotativas nas pontas e uma máquina copiadora de chaves.  Ao longo da parede, logo acima do balcão, há uma lâmpada fluorescente longa, fixada na horizontal para que o afiador confira, colocando os objetos contra a luz, os fios dos instrumentos e o alinhamento dos alicates e tesouras. Logo abaixo da lâmpada, feito um varal, há um fio de arame grosso onde Batista pendura os alicates. Da característica sistemática do modo de produção industrial, só passa perto a etiquetação dos instrumentos com os nomes dos clientes e os dias em que devem estar prontos. Quando finalizados, os utensílios recebem um “P” em suas etiquetas e vão parar no outro varal, fixado na parede de madeira. Lá, descansam aliviados com seus fios novamente poderosos – o Gepeto das afiações os recolocou na ativa.

A música do ambiente de trabalho de Batista é a gospel da rádio Aleluia, veículo da Igreja Universal.

“Mas não sou da Universal, não. A música me passa coisa boa, só isso. Mas o problema é que hoje tem muita coisa abrindo e usando o nome de Deus pra ganhar dinheiro.”

João é evangélico praticante e não abre mão de umas poucas convicções. Não nega conversas nem assuntos. Com um senhor que entra cantarolando e assoviando um samba, e que vai embora depois de uma prosa a cerca de desencantos quanto à corrupção, o papo é sobre política. Outros companheiros de papo costumam surgir durante o dia. Quando há movimento, Batista pede à mulher para dizer que  está ocupado. Melhor não dar trela.

A televisão fica ligada boa parte do expediente. Com ela, o tempo passa distraído e a noite logo cai. Então o senhor e a senhora Barros voltam para a casa. No trajeto de ônibus, a Pelotas saudosa da antiga prosperidade os engole. A umidade cola no corpo e o torpor vai adentrando na pele. Chegam ao lar cansados, mas felizes pelo aconchego da família. A cama espera convidando para uma boa e longa noite de sono. Mas Batista que não se deixe seduzir. O trabalho é às 9h e atrasos farão outras donas Rosárias lhe ferirem o sorriso com um ar de reprovação.

TRINTA ANOS EM UM DIA, pelo viés de Liana Coll

lianacoll@revistaovies.com

Para ler mais perfis acesse nosso Acervo.

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  • Alexandre

    Riqueza de detalhes… leitor imerso no texto – imaginando detalhes de cada cena ou percepção!