SEU VIDRACEIRO

posso ajudar eu acho que pode. vidro, moldura, espelho… o senhor gosta de conversar então eu posso. seu oswaldo trabalha há trinta e cinco anos como vidraceiro. em toda a sua vida, não lhe faltaram lugares novos em que pudesse se alojar e recomeçar com seu oficio. hoje, com sessenta e sete anos, já vê […]

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posso ajudar

eu acho que pode.

vidro, moldura, espelho…

o senhor gosta de conversar

então eu posso.

seu oswaldo trabalha há trinta e cinco anos como vidraceiro. em toda a sua vida, não lhe faltaram lugares novos em que pudesse se alojar e recomeçar com seu oficio. hoje, com sessenta e sete anos, já vê nas próprias mãos os calos gastos do esforço repetido. e nunca achou que isso fosse um problema.

nasceu no rio grande do sul. 1942.

os olhos são de um azul esbranquiçado. enxerga já um pouco com dificuldade, porém considera que para a sua idade até que o tempo custou a tirar-lhe a visão. usa óculos de vidro fundo, assim como os que algumas vezes já passaram por suas mãos. suas vestes são simplórias, e no frio que começou a pouco aqui em santa maria, este senhor até que usa poucas vestes pesadas. um blusão cinza escuro, calças de tecido aveludado. seus sapatos são gastos, assim como devem ser as solas. os cabelos já estão ralinhos e pintados de branco. tem uma voz rouca, um pouco cansada, mas não tem o menor problema em falar. até que gosta. enquanto fala, suas mãos vão passando pelas molduras de alguns espelhos gastos.


em sua loja, estabelecimento próprio e pelo visto atento apenas aos conhecidos e clientes mais antigos, seu oswaldo possui inúmeras molduras gastas para espelhos, e instrumentos para a confecção de vitrais, de janelas, talvez de mais espelhos. esforça-se em tentar me ensinar, com suas gordinhas e calejadas mãos. como é que consegue transformar aquele material cortante em pedaços rentáveis de vidro.

quero saber como é a vida dele aqui, em santa maria. nasceu em santiago, e de algumas coisas guarda lembranças. em sua carteira, algumas pequenas fotos manchadas, é o tempo, sorrisos distantes, pessoas que eu nunca vi em vida, duas crianças em uma praça e uma jovem moça de vestido branco. seu oswaldo é viúvo, já vai fazer algum tempo. nunca mais se casou, e diz que já nem espera. amor, quem sabe, só uma vez na vida. as filhas hoje estão crescidas, as vê muito pouco – ou pouco menos do que gostaria. sabe que tem netos já. mas a filha não volta.

de vez em quando se comunicam. quer que eu entenda que  basta só um telefonema. o telefone, na mesa de madeira, porém, continuava mudo.

olha pro lado, muda de assunto. pergunta dos espelhos. digo-lhe, com firmeza, que os acho lindos. falo até mesmo que penso em comprar um, e ele sorri antecipando “estes apartamentos de estudante devem de ser uma bagunça, né guria”.

confesso também que fujo de alguns espelhos, que algumas vezes me parecem espasmos demais, denunciadores demais. ele sorri novamente, e me pergunta como é ser jornalista então. eu digo que ainda não sei bem ao certo, pois não trabalho como uma, por enquanto. ele confessa que lê pouco jornal, mas que admira. acha uma profissão “tão culta”, para ele ainda escrevemos em máquinas barulhentas, ao som de passos em uma redação comprida. talvez ainda não lhe ocorra que estamos cada vez mais distantes desta imagem que possui de um jornalista. creio que ainda não me vê redigindo o seu perfil em uma máquina ainda mais compacta, sem graça, sem conversas e sem cheiro de papel com tinta. a tela azul dos computadores veio para tomar o lugar do marrom escuro das redações de outrora.

tem uma irmã, o seu oswaldo. mora em uma cidadezinha próxima à santa maria, creio que pelos lados da quarta colônia. diz que o visita com freqüência, e que um tempo até trabalhou com ele na loja. mas como no destino certo de outras moças, também casou-se (um pouco mais velha, aos trinta e seis) e foi-se embora. retorna sempre, de alguma forma.

oswaldo quer falar. suas impressões sobre a cidade, sobre a vida, sobre o resto todo. sabe que não está totalmente sozinho. tem uns amigos que vê seguido, se encontram em um bar para beber e jogar conversa fora, e aos domingos estão pelo calçadão algumas vezes. em outros tempos, até almoçavam juntos, mas oswaldo diz que isso já tem algum tempo…

parece-me religioso. ou ao menos, dotado de fé. o seu terço é simples, pendurado na parede. Mas está ali, como o resto do seu ganha pão. acredita que deus existe sim, e que age certo em sua vida. sabe tocar com o destino, acostumou-se a mudar pelo país e me confessa que já foi até mesmo para o uruguai: “acho a américa latina linda, eu tô velho, mas sempre foi meu sonho. tenho um primo que já viajou por quase toda ela”.

não pensa nada a respeito da solidão. ao menos, não me repassa acaso pense. demonstra que já não quer mais procurar um sentido pra tudo na vida, só faz questão é de viver. gosta de uma galinhada no sábado, e diz que tem parentada italiana. gosta de queijos, gosta de salames, gosta de graspa, esta espécie de cachaça com uva. e da uva, claro, o vinho. mas bem pouquinho, só pra degustar.

em toda a vida diz ter sido claro e transparente. enso que reflete mesmo como um espelho. É profundo, e nem ao menos sabe disso. as voltas com os papos das mudanças, fala pouco de como o mercado está para um vidraceiro. diz que as pessoas são dotadas de talento, que cada ser humano vem pro mundo pra fazer alguma coisa, para apresentar aos outros um pouco do que tem dentro de si. acho que, apesar de um pouco só, seu oswaldo deve ser daqueles amigos gostosos de se conversar, com quem a vida dotou de humildade e paciência.

conta sempre que morou em minas gerais, sessenta e poucos. para ele, a vida política do país sempre fora um caos. diz nunca ter se interessado muito por política, e se pergunto a respeito do período conturbado em que viveu a ditadura, apenas me completa com um “neste tempo quis morar em sítio”. fala que andou também pelo rio, pouquíssimas vezes, e como todo comerciante, quis são paulo. mas acabou em cidades aqui no peito do rio grande mesmo, passando por restinga. acredita que para seus sessenta e sete anos mudou-se pouco pela vida, e pode ser dado a criar raízes. fala pausadamente, como que consultando a memória. desdenha, talvez, dessa memória. pode ser uma peça do destino, até para os novos. a memória ressurge aos pouquinhos, ou esteve sempre alí, guiando os passos parcos na vida. oswaldo tem pinta de quieto, porém atento. conversamos de frente para aqueles poucos espelhos, algumas molduras. algumas vezes, perco a visão de frente para aqueles quadros de reflexo. pareço estar me consultando. oswaldo não liga, creio que se acostumou a se enxergar, a perder o olho no infinito do vidro. pergunto de onde vem o material, quantas pessoas hoje trabalham com ele… tem dois ajudantes de confiança, não trabalha sozinho.

poucas coisas do tempo de guri. sempre gostou das coisas simples, não gosta de perder tempo com sentidos. está ali, vive e ponto. sua estatura é um pouco baixa, mais baixa do que eu. gordinhos da idade. tem um sorriso divertido, com cara de vô. demonstra certa impaciência, não é que não gostasse de conversar com jornalistas mas é que o tempo né, precisa trabalhar entre outras coisas. não me ofendi, é claro. tomara mesmo quase a sua tarde inteira. acenei e prometi retorno.

vi seu oswaldo se perder na sala de espelhos.

lembrei daquele conto, de uma menina pequena que entra em uma sala de espelhos sem fim. fiquei imaginando seu oswaldo ali, naquela sala repleta de imagens de seu oswaldo. desde o início, me surpreendera a firmeza de seu olhar azul pardo, e sua simplicidade em continuar acreditando nas coisas. pode se olhar no espelho, não terá o que esconder.

quando retorno, me reconhece. bom dia guria jornalista. outro mate, sovado, puxando mais um banquinho, perto daqueles espelhos os seus dois ajudantes manuseando os materiais. bom dia seu oswaldo. falha minha, qual é mesmo seu sobrenome. alguma coisa e serra. oswaldo fontanari serra. acho que é isso. sim, é isso.

conta-me o ano que veio para santa maria. meados de fim de setenta, começo de oitenta. comprou uma casinha, com a mulher e as filhas, lá pros lados da rio branco. depois, mudaram-se para bairros mais afastados do centro. hoje mora perto do itaimbé. tem um vizinho, com quem toma um mate de vez em quando, que estava para dar uma passada no estabelecimento. diz “é bom ter amigos, conhecidos, gente que goste de nós né guria, a gente se sente melhor, não fica sozinho, é bom é bom”.

quando a mulher faleceu, há alguns anos, seu oswaldo perdeu o gosto e o sabor de tudo. decidiu trabalhar ainda mais pesado. até pensou em arrumar mais um emprego. não era formado em nada, estudou pouco e nem terminou o ensino médio. mas diz que sabe ler sim, que escuta bem e que tem boas mãos mesmo. e carteira de trabalho e todos os seus direitos. as filhas cresceram, ajudaram. tinham bons empregos também. mas os passarinhos logo deixam o ninho, né guria. o telefone continua mudo.

seu oswaldo era um pássaro só, cantando de galo em sua própria casa. lidou com isso, hoje trabalha com as vidraças mesmo. gosta do trabalho manual, gosta de construir coisas. confessa que também brinca de marceneiro, e que aquele suporte para cuia e térmica fora ele mesmo quem fizera. é bonito, eu constato. uns desenhos de campo e de flor. bem lixado, envernizado. seu oswaldo tem capricho, tem paciência, treino e habilidade. tem nas mãos o tempo e o talento, bons aliados. gosto do que vejo, me acostumei com os espelhos. conversamos mais um pouco e mais um pouco. ele quer falar do casamento, foi tão bom. acha estranho os jovens não desejarem mais casar, pois para ele é tão bonito, tão fácil ser feliz junto. diz que os filhos são mesmo a alegria da vida, e os amigos confirmam essa alegria. trabalho enobrece o homem, bem sabemos. comer bem, uma boa conversa. tão poucas e tão simples as coisas que complementam a gente da melhor forma.

se o tempo permitisse, continuaria falando. não fala com pressa, nem com ânsia. apenas relata, aos poucos, os seus pensamentos, tece devagar, com prosa, sem soluços. diz que para tudo na vida é preciso mesmo ter calma, procurar ter jeito. construir um objeto leva tempo, talhar uma moldura, desenhar flores em pedra, em madeira, em vidro, leva tempo. construir um ser humano leva a vida inteira.

quando me despeço novamente dele, vejo em sua face um sorriso de satisfação. conta-me que pensa que seria bom se cada velho dessa cidade tivesse a oportunidade de falar da própria vida. escuta sempre, guria. as pessoas precisam falar, precisam ver, refletir umas nas outras. reconhecerem-se. é claro, é límpido, é transparente.

fecho a caixa de espelhos, com seu oswaldo acenando de dentro. quando eu quiser, posso ir tomar um mate. ele quer ler a matéria, escrevo meu nome num cartão. puxa os óculos de vidro fundo, olhos esbranquiçados, sabe guria, acho que nunca falei tanto na vida.

admiro mesmo a transparência de seu oswaldo. dos tipos que dormem em paz com a consciência.

construir um ser humano leva a vida inteira…

.* as fotos que ilustram essa matéria são do fotógrafo henri cartier-bresson.

.SEU VIDRACEIRO, pelo viés de Nathália Costa

nathaliacosta@revistaovies.com

Para ler mais perfis acesse nosso Acervo.

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  • Deise Borba

    Amei o texto Nathália! Parabéns!