A pomba e o elefante

Nunca pintei sonhos. Pinto a minha própria realidade. Um perfil de Frida Kahlo, na série LATINOS.

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As duas Fridas (1939)

 

Em uma das páginas de seu diário, Frida relata uma pequena história sobre o nascimento do fundador da cidade de Lokura. Ojo Único se casa com a bela Neferísis (a imensamente sábia). Do amor de dias calorentos, nasce Neferúnico, o filho de rosto curioso. Na imagem, a sobrancelha vultosa e quase unida sustentaria o artifício de pintar características próprias, recorrentes na obra de Frida.

Após uma rápida separação, Frida e Diego voltariam a viver juntos. Juntos, mas separados por uma ponte. Os dois se conheceram no ano de 1928, quando Frida entrava para o Partido Comunista Mexicano. Diego, um muralista – prática estética em que se tornara respeitado – pintava nos muros por considerar a arte convencional bastante burguesa: as telas, após pintadas, eram comumente enclausuradas em coleções particulares. Frida, por ideais parecidos, buscou afirmar a identidade nacional mexicana através de sua obra. Com muita frequência seus quadros adotam temas do folclore e da arte popular do México. Entre 1930 e 1933, passa a maior parte do tempo em Nova Iorque e Detroit, visitando exposições, conhecendo artistas. Numa de suas exposições, em 1938, a crítica afirmava a mexicana como uma pintora surrealista. Ela mesma discordara: Nunca pintei sonhos. Pinto a minha própria realidade.

Um de seus primeiros trabalhos fora “Retrato de minha irmã Cristina”, de 1928.

Aos 22 anos de idade, Frida se casava com Diego. Era 1929. O casamento de dois gênios enérgicos e complicados seria tumultuado do início aos fins. Ambos tinham casos extraconjugais, e entre as amantes de Diego estaria, no futuro, a própria cunhada, Cristina, irmã de Frida. O relacionamento dos amantes comoveu extremamente a artista. Kahlo, a quem os íntimos falavam de tudo, que escutava a todos; Frida, que infundia confiança e não discriminava ninguém, num acesso de fúria, após ver a irmã e o marido na cama, corta o próprio cabelo. Cristina nunca seria perdoada. Isolda, a menina que dançava para Frida, e a quem esta dedicou um autorretrato, era filha da irmã infiel.

Os casos extraconjugais de Diego são apontados como possíveis agentes, junto a outras amarguras, para os ensaios de morte sentidos pela esposa.

Fruto de conceitos libertários, de uma idolatria inocente, Frida e Diego voltariam a se unir, em 1940, mesmo que a ponte separasse as duas casas. Duas porque, com o reenlace, a pintora decidiu não embaralhar as cartas, construindo uma casa parecida ao lado da primeira. Para uni-las, a ponte. Viveriam como marido e mulher, mesmo que brigas violentas fizessem parte do relacionamento, e que para encontros ocorrerem, haviam de cruzar a ponte. Embora tenha engravidado diversas vezes, as sequelas do acidente sofrido ainda jovem impediam os fetos de crescerem, ocasionando infelizes abortos.

A artista considerada a maior do século XX, amava propagar alinhos de glamour frente às câmeras fotográficas e filmadoras. Adorava suas saias estampadas e suas joias pré-colombianas, falava sobre sua herança latina, que também estampava as particularidades do rosto. Em ocasiões públicas, nas cenas noturnas, na vida boêmia, entre conhecidos, em folias gracejadas, expressava sua seiva e grandeza, enquanto que em suas pinturas gritava dolorido um ser mordaz.

No dia 14 de julho de 1954, Diego perceberia que havia sido “demasiado tarde dar-se por conta que a parte mais maravilhosa de sua vida havia sido o amor que sentia por Frida”. No obituário, embolia pulmonar. Conhecidos afetuosamente como “a pomba e o elefante”, Diego Rivera chorava o adeus à sua maior amante.