REENCONTRO DE DESCONHECIDOS

Reencontro de desconhecidos Eu andava, Roberto, meio perdido. Um súbito nervoso, longe de um colapso ou qualquer tragédia, mas um medo urbano, daqueles bem próprios de nossa época. Eu não via você desde os tempos em que andávamos juntos lá pelos lados do Paraguai. Quanta muamba, hein?! Não tivesse eu dado azar, quem sabe estruturar-me-ia […]

A+ A-

Reencontro de desconhecidos



Eu andava, Roberto, meio perdido. Um súbito nervoso, longe de um colapso ou qualquer tragédia, mas um medo urbano, daqueles bem próprios de nossa época. Eu não via você desde os tempos em que andávamos juntos lá pelos lados do Paraguai. Quanta muamba, hein?! Não tivesse eu dado azar, quem sabe estruturar-me-ia como você.

(Roberto, quem está escrevendo a carta não sou eu, é Seu José).

Eu continuo do mesmo jeito e choro pouco, aliás, continuaria não fosse a vontade agitada que me fez escrever-lhe. Eu só queria mesmo é relembrar o tempo que falávamos de tudo. Eu ainda tenho os mesmos sonhos, eu vou com eles até o fim, de bengala na mão, se necessário. Deus é bom, isso me ensinaram. Não sei bem se foram eles ou se foi a vida, em todo caso, vale buscar ajuda nos tempos ruins, de desagrado.

Roberto, eu queria chorar contigo um pouco só e depois caminhar. Hoje eu arrumo papéis pra reciclar, moro sozinho e as pessoas me conhecem, de vista. Quanto tempo tem que planejávamos juntos trabalhar em televisão e em rádio e ficar falando dessas coisas que apenas nós víamos. A vida não foi injusta, eu acho, apenas ficou delineada como rabisco, mais ou menos. Outra coisa que eu lembro é d…

– Paulo, a campainha. Espera aqui! Já venho pra terminar esta carta.

Na porta, com a mão espalmada contra a parede em um frenesi pela longa data da última vista, Waldir lançava olhos impacientes ao trinco. Demorara para encontrar a casa do primo. Era um tempo já longe dos filhos, que, criados, vão pra longe deixando um gosto amargo de solidão pelo chão da casa. As divagações já não seriam tão sincronizadas e a idade, agora para ele, punha-o em desejo de viver uma vida maravilhosa, de senti-la sem intervenções do mundo ácido. Não que fossem assim tão próximos, mas era para quem planejava um pedido de desculpas pela bruta separação que causara. Hora de realizar o planejado em viradas compulsivas no travesseiro à noite. Afinal, Rosane apagara seu sempre sorriso e ficara ferida com a separação. Paulo quase se casava com ela e eu, primo ciumento que fui, cortei aquela relação, deixava para trás dois corações ansiosos por amor. Casou-se, separou-se e arrumou uma namorada, não queria Rosane de verdade, era vingança pelos tempos jovens. Que absurdo! Será que se martiriza ainda pela perda? Será que ela ainda pensa em ficar com ele? Esse tempo, tanto tempo. Deve ter acabado por solucionar por mim, mas não em mim. Planejar, planejar e não fazer nada.

– Ninguém. Algum engano ou coisa assim. Continuemos.

– Onde parei?

–  Em alguém que você lembrava, ou alguma coisa.

– Ah, certo.

Waldir chegou em casa embebedado no desânimo. Olhou para Kelen, sua mulher. Ela retrucou um olhar por cima dos devaneios que, até então, encantavam-na e disse que sabia já da resposta. Perguntava-se se valia ficar por ali, lançar mão das coisas que apegavam e se dedicar a ideia de ser modelo ou ainda massoterapeuta, mas fazer qualquer coisa. Cansava de sempre ir ver a amiga e ouvir os planos desta, seus ensejos de se mostrar ao mundo, de acabar de uma vez por todas a faculdade e trabalhar como farmacêutica. E ela, e eu, Kelen, tão mais nova que ele, sentindo seu desânimo. Bem sei que costuma ser tranquilo, mas eu não consigo, eu vou respirar outro ar, não quero poluir-me com lamentos – talvez devesse levantar agora, mas e se ele precisar de mim? Não, eu preciso olhar-me, cuidar-me.

– Waldir, eu vou…é, vou dar uma volta.

Nem uma movimentação contra nem a favor. Nem uma palavra, tudo bem.

Outra coisa que eu lembro é a nossa amizade com Iara. Nós três tínhamos propósitos bem diferentes, mas nos gostávamos, não é? Eu a vejo, ela ficou por aqui. Não me reconhece, deixou as águas passarem apressadamente e não percebeu, na verdade, nem sonha que eu esteja falando dela aqui. No fundo tenho um carinho ainda, não guardo rancores. A minha prisão pode tê-la assustado ou simplesmente a feito esquecer minha feição. Ela conseguiu. Trabalha firme, trabalha bastante, é empresária. Tem que ver só o amor, a serenidade que preenchem a conturbação da vida dela, parece que conseguiu tudo o que queria. Cíntia é a filha dela. Trabalha e ainda não estuda, vai estudar mais tarde ou algo assim, me disse que quer fazer Nutriçao, se acha velha, acredita? Tem 28 anos. Acho que a Iara encontrou um espaço com um pouco de paz pra ela: a família.

Roberto, desculpe-me a demora pra dar sinal de vida. Mas você sabe o que aconteceu quando eu fui pres…

– Já falou disso, Seu Paulo.

-Ah, sim. Muda então.

Roberto, eu não quero mais ficar lembrando das coisas que passaram, foi como Deus quis. Agora eu queria uma visita apenas, converso aqui e ali, divido umas histórias com esse meu vizinho (que te escreve a carta), o José . José é poeta, cheio de planos, estudou bastante, faz música também. Acho até que vai me ensinar a escrever, ele comentou outro dia. Vai…

– Vai, Seu José?

– Opa, quase que escrevo isso aqui. Vou sim, podemos marcar primeiras aulas é só você se animar e vir falar comigo definitivamente.

– Mas vamos deixar pra mais tarde. Eu venho, eu venho. Continuando.

Pra me despedir de ti, Roberto, um grande abraço. Vou colocar aqui no final uma poesia de Seu José pra te mostrar o que ele escreve.

Re-criação

Já não existem mais

Os filmes de outrora

Perdi minha rua

Documento e endereço

Dizem que o mundo

É imaginação da mente

Imagem mental

Não creio

Os sentidos me revelam

Que estou vivo

Mas a visão me trai

O que é a realidade?

Saudade é recordar

Para recordar é preciso ter vivido

Vivi?

O mundo não pode

Ser uma armadilha

Nem Deus um carrasco

Afinal, o que sobra?

há dúvida

ou nossa infinita fragilidade

frente a realidade

ou a infinita fragilidade do real.

O que sobrevive, enfim, é o espírito da coisa

Que de novo

toma forma se auto-recriando.

José

– Qual é o endereço, Paulo?

– O endereço? Ô, Seu José, que endereço?!

 

Todos os personagens deste conto existem, não exatamente da forma como os descrevi e sequer com tais laços familiares ou com tais histórias, mas com traços baseados naquilo que me contaram. A poesia é de autoria do santa-mariense José Cardoso.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=zdhqDVqjnkg]

REENCONTRO DE DESCONHECIDOS, pelo viés de Caren Rhoden

carenrhoden@revistaovies.com

 

Para ler mais poesias acesse nosso Acervo.

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Print this pageEmail this to someone
  • ariele

    Ficou ótimo, adoro teus contos, teu jeito de escrever. Estava ansiosa pra ver tua matéria.
    Como já te disse, muito de Caren, muito de mundo.
    Parabéns, a revista esta muito legal.

  • Mima

    Fiquei triste. Adorei a infinita fragilidade do real.

  • Sandra Mara da Rosa Lorenz

    Lindo! Assisti também os “extras”. Vendo um trabalho assim, feito com tanta arte! percebe-se o quanto vale a Univesidade, o curso de Jornalismo e quanta “gente boa” vem por aí! Pois Jornalismo mais do que paixão é arte, é emoção, foi isso tudo que li e vi em Reencontro de desconhecidos. Parabéns à todos!

  • Grégory

    o cotidiano se revela de uma forma requintada com palavras bem encaixadas e um contexto interessante. é o que eu achei pelo menos. Parabéns Caren!

  • Jose de Jesus Alves Camargo

    Muito bom,Caren.Acho que fiquei bem no papel.Podemos até representar.

  • Lisa

    Cááá
    Lindas palavras, lindo conto! Tu é muito talentosa e faz muito bem também aos outros quando escreve! Quero ler ainda mais!
    Parabéns. Tenho orgulho de ti, alemoa!

  • Dusah

    Alemoaaaa…
    loka p ler seus outros contos e historias…

    Vai em frente radinhu q vc tem talentooo

    Bjokonass