O VELHO

A justiça é moral, a injustiça Não. A dor Te iguala a ratos e baratas Que também de dentro dos esgotos Espiam o sol E no seu corpo nojento De entre fezes Querem estar contentes. (A alegria, Ferreira Gullar) Venho às letras Excomungado que fui desde o meu reparimento Da Santa Igreja da Vida Cor […]

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A justiça é moral, a injustiça

Não. A dor

Te iguala a ratos e baratas

Que também de dentro dos esgotos

Espiam o sol

E no seu corpo nojento

De entre fezes

Querem estar contentes.

(A alegria, Ferreira Gullar)

Venho às letras

Excomungado que fui desde o meu reparimento

Da Santa Igreja da Vida Cor de Rosa.

Me abandonaram também

A família

O governo

A escola.

Sem trindade, sem identidade

Ruminando as folhas secas

Da inconsciência universal:

Sou o cão atrás do protesto

O olho aspergindo ofensivo

Sou a gonorréia no falo obsessivo

Tenho barbas abrasadas

Cor escarlate piolhentas

Tenho um cu (que coça)

Um barraco pulverulento

Um pulmão farto de catarros

Mãos suaves de um capinador

E idéias leves feito perfume de flor

Em outros tempos, recordo

De uma graça bem montada

De crenças bem enlaçadas

Recordo

Em ecos

Flashes

Gritos

Talheres no chão, longe

Perto,

Nesses cantos do que tortura.

Tudo pelo fastio

Do som angustiante do relógio

Com as máquina pareço

Eu cago quando tem banheiro

Banho-me quando tem chuveiro

Fumo restos de cigarro

E nas lixeiras cato o meu amparo.

As mulheres me escapam.

Então o crepúsculo

Traz, como um monstro reconstiuíndo-se,

Um pouco, só, nostalgia.

Todas as flores estão cabisbaixas

Formas acopladas amebas

Montanhas brutas anunciando covardemente

Que alguém chegou em casa

Saltam quadrados amarelos

Variações em cor da televisão

Os carros tem destino

Eu sei, eu sei para onde vão

(rodam silenciosos para a derrocada, a queda, um suspiro de passo em falso. Estão livres. São todos vagabundos solitários, sim, como eu. Por que eles cospem no espelho. Nunca os analistas estiveram tão ocupados. Eles estão descobrindo mais cedo. Ou já seria tarde demais? Eles não se movimentam. Eles tem o mundo na palma da mão)

O tempo da lua se agrava

E nem um esporro sadio

Que alguém dá depois de amar

Me consola

O pé chuta a lata

Ela rola dona de seus ruídos

Como quem reclama respeito – eu rio.

O que anunciam?

Em que país pisam? Com quem falam?

O que prevêem? O que descobriram?

Eu espirro, assovio para uma bunda

Contemplo das esquinas

Vou tentar uma bebida, daqui a pouco

Talvez, Galdino, alguém em mim ponha fogo

Talvez faça muito frio

E eu amanheça morto.

O VELHO, pelo viés de Caren Rhoden

carenrhoden@revistaovies.com

Para ler mais poesias acesse nosso Acervo.

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  • Rondon de Castro

    Oigalê, minha querida, quem te vê, não enxerga pontos de dúvida ou angústia. Tai, para os fúteis e levianos, afastem-se que essa guria tem mais o que fazer… Parabéns por se arriscar nessa seara. Está pesada, dura, merecendo uma burilada, mas gostei de sentir que tens sangue nessas veias… Não abusa do escatológico. Beijos, menina.

  • Rondon de Castro

    Eu “conheço” o velhinho de barbas brancas… Ele está na Pinacoteca de São Paulo. É muito simpático. Boa escolha.. Gosto muito do Almeida Jr.