GOD BLESS MY AMERICA

Enfant

O continente americano é cheio de controvérsias históricas. A primeira delas é quanto a sua “descoberta” por exploradores europeus: uns dizem que foi Cristóvão Colombo; outros, que foi uma tribo viking chamada de “Norsemen” (Homens do Norte). A segunda controvérsia é quanto ao nome: uma homenagem a Américo Vespúcio ou uma adaptação de Amerrique, uma pequena cordilheira na Nicarágua? Já a terceira delas não deveria ser tão controversa: o uso do gentílico americano para se referir somente a quem nasce nos Estados Unidos da América.


POR QUE AMÉRICA?

Os europeus achavam que a América estava ligada à Ásia. Por isso, aquela era chamada de Índias Ocidentais. Américo Vespúcio foi, supostamente, o primeiro a perceber que se tratava de outro continente por causa das expedições de que participava pelo Novo Mundo, como ficou conhecido o nosso continente.

Universalis Cosmographia


E
m 1507, o cartógrafo alemão Martin Waldseemüller desenhou o mapa “Universalis Cosmographia” (Cosmografia Universal), em que chamava as novas terras de “América”. Diz-se que Waldseemüller o fez assim por ter lido os escritos que Vespúcio fazia de suas viagens.


A APROPRIAÇÃO DO NOME

Em 4 de julho de 1776, 57 líderes políticos estadunidenses, conhecidos como Pais Fundadores, assinaram a Declaração Unânime dos Treze Estados Unidos da América, a Declaração de Independência. Essa foi a primeira referência ao nome do país, que, com o tempo, anexou outros 47 estados e ficou conhecido por “Estados Unidos da América” somente.

Declaração de Independência dos EUA


QUEM NASCE NOS EUA…

…também é americano! Assim como quem nasce em Cuba, no Brasil ou no Canadá. Mesmo assim, tratam-se os estadunidenses como sendo os únicos americanos. Programas de televisão como “American Idol” e “America’s Next Top Model” e empresas como “American Air Lines” são alguns exemplos de como os compatriotas de Obama veem a si mesmos – “nós, os americanos”! Outro exemplo é o hino não-oficial dos EUA “God bless America” (Deus abençoe a América), em que não se canta pela bonança do continente, mas de um país.

O termo americano, ao designar somente os nascidos nos EUA, está, portanto, incontestavelmente errado. Americano tem a ver com América. E, mesmo que se tente fazer refletir a um só país, é uma palavra que vem do nome de um mesmo continente habitado por outros 600 milhões de pessoas que não só as estadunidenses.

O géografo Demétrio Magnoli, professor da Universidade de São Paulo, disse na Folha de São Paulo em 2005 que “América é o nome legítimo dos EUA” porque “A Revolução Americana [sic] instaurou a primeira república contemporânea”. Segundo Magnoli, “eles (os nascidos nos EUA) eram americanos, foram rebaixados a norte-americanos e hoje não passam [!] de estadunidenses”.

O fato de um grupo de líderes políticos ter anexado o nome do continente ao nome do país não lhes dá nenhum direito a mais do que os cidadãos dos países vizinhos. Dizer que os nascidos nos EUA são os únicos americanos é como dizer que os nascidos na África do Sul são os únicos africanos.

O mesmo professor disse ainda que tentar negar a suposta legitimidade do gentílico americano para os estadunidenses é, na verdade, uma manobra política dos simpáticos ao antiamericanismo, ou melhor, anti-EUA. A professora Florence Carboni, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, responde a essa suposta conspiração. Ela diz que usar estadunidense em vez de americano não se trata de mobilização contra o país em si, mas, sim, de uma “constituição linguística desprovida do juízo de valor do termo ‘americano’, que sofreu deslocamento impróprio devido ao poder material e cultural estadunidense”.

Americano como sinônimo de estadunidense é um termo imperialista, que rebaixa os patrícios de continente a subcategorias – sul-americanos, centro-americanos, latino-americanos -, em prol do poderio bélico e ideológico dos EUA. Estadunidense não é preconceituoso, mas reivindicador – de direitos que são comuns a todos aqueles que são americanos.


O VÍCIO DO ERRO

A responsabilidade pelo uso indevido do termo americano não é só dos estadunidenses, mas de todos que ensejam seu uso. Sejam os portugueses que não reconhecem o gentílico “estadunidense”, sejam os brasileiros que se referem aos nascidos nos EUA como americanos, seja a própria língua inglesa que não cunhou nenhum outro gentílico menos egoísta, como United Stater, por exemplo. Nesse sentido, norte-americano também está errado, pois a América do Norte inclui Canadá, EUA e México.


O PODER DA PALAVRA

Nem a palavra nem o seu uso são imparciais. “A palavra é forjada no contexto do mundo social, embalada por relações de poder” segundo a professora Carboni, que continua: “a designação dos estadunidenses como americanos não é neutra, não é desprovida de decorrências políticas, culturais e ideológicas. Ela naturalmente obriga os demais americanos a assumirem nomes restritivos, como centro-americanos e sul-americanos”.

Enfim, não se trata de um levante “terrorista”, mas da conscientização de que América é um continente e de que chamar só os estadunidenses de americanos, mesmo que pareça inocente, rebaixa todos nós, brasileiros, canandes ou cubanos perante a tentativa de domínio dos Estados Unidos sobre a própria cidadania continental.

GOD BLESS MY AMERICA, pelo viés de Gianlluca Simi

gianllucasimi@revistaovies.com

Os extras da Reportagem.



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