O Terrorismo é constantemente ligado a certos fatos conhecidos: 11 de Setembro, Atentado em Madri, Atentados em Londres. Em comum, o fanatismo islâmico como motivação. Mas o que a visão apenas desse viés do Terrorismo acaba produzindo?
História do Terrorismo e suas Formas de Atuação

Segundo o dicionário, o termo Terrorismo significa: sistema de governar pelo terror ou por meios de revoluções violentas ou práticas de atentados. Dessa forma, o terrorismo pode ser considerado uma prática de violência utilizada contra regimes políticos, povos, manifestações religiosas e pessoas com fins políticos, religiosos e/ou ideológicos. Essas práticas são recorrentes desde que se fez o mundo e remontam os princípios da Humanidade, desde os primeiros escritos achados. Para Walter Laqueur, um dos primeiros teóricos do assunto, “nenhuma definição pode abarcar todas as variedades de terrorismo que existiram ao longo da história”.
No livro Odisséia, de Homero, os Mnesteres, pretendentes da mão de Penélope, viúva de Odisseu, se unem para convencer a moça de que o seu marido está morto, visto que este passa vinte anos longe de casa. Entre suas trapaças e arruaças, os Mnesteres, cheios de cobiça pelo poder que teriam caso um deles se casasse com Penélope, armam uma emboscada para Telêmaco, filho de Odisseu. Os estratagemas que milênios depois podem ser vistos nas capitais do Mundo ou em pontos devastados do Planeta tinham sido usados, por exemplo, pelos Mnesteres para tentarem, em vão, a obtenção de Poder.
A literatura é muito rica na descrição do terror. A própria Bíblia contém exemplos, como em uma passagem do capítulo 32 do livro Êxodo, em que Moisés passa a “fio de espada” os adoradores do bezerro de ouro em nome de Javé.
A história, como base para arte, não fica atrás em exemplos. Relatos de atos terroristas podem ser vistos em diversos períodos. O uso do terror e da devastação como forma de se impor parece inerente à condição humana. Em Roma, aqueles que eram contra o governo de Tibério eram expulsos, perdiam suas terras ou eram executados. Robespierre em meio à Revolução Francesa defendeu o Terror, que acabou dando nome ao período entre meados de 1793 e 1794 e que matou milhares de “inimigos da Revolução”. A Inquisição Católica e o estopim da I Guerra Mundial, depois da morte do arquiduque austro-húngaro Francisco Fernando pelo grupo terrorista Jovem Bósnia, também podem ser exemplos de ato hostis motivados por razões Político/Religioso-Ideológico. A tríplice base de ações extremas, o uso do Terror.
É interessante observar o caso da Revolução Francesa, pois nela o poder do Estado era Terrorista. Outros governos e regimes utilizaram deste método, o Terror. O Grupo Secreto, por exemplo, era um grupo de militares que atuaram pelo fim do governo de João Goulart e que depois foi “aliado” do Regime Militar no Brasil. O grupo Patria y Libertad é outro exemplo, combatentes a favor do regime de Augusto Pinochet. Casos em que o Estado direta ou indiretamente causa Terror para manter o Poder.
Mais atualmente, depois dos ataques ao World Trade Center, o governo dos Estados Unidos criou um índice de segurança que nunca esteve no Verde, e que só transita entre Amarelo e Laranja (nível de ameaça nos EUA entre “elevado” e “alto”). Algo que, visto de forma crítica, pode ser considerado Terrorismo Psicológico para com os próprios cidadãos estadunidenses.
Terrorismo de Esquerda Europeu e Terrorismo Pós-Moderno
Depois do fim da II Guerra Mundial a Europa Ocidental entrou em uma era mais pacífica. Foi um tempo de reconstrução em países como Espanha, Alemanha, França, Itália e Inglaterra. Nesse cenário diversos grupos terroristas se formaram e/ou ganharam visibilidade: ETA da Espanha, RFA (ou Grupo Baader-Meinhof) da Alemanha, Brigadas Vermelhas da Itália e IRA da Grã Bretanha. E o terrorismo passou a ser visto como grupos de jovens com influências, quase sempre, comunistas com financiamento Soviético e com atos contra os diversos governos europeus. Sejam esses grupos separatistas (caso do ETA e do IRA) ou não, foram responsáveis pela definição de terrorismo até a década de 90. Porém, na última década do século XX, alguns desses grupos simplesmente desapareceram e outros deles acabaram perdendo força, principalmente pela repressão dos Estados-Nação europeus e o fim da União Soviética, maior patrocinadora dos terroristas da época.
O fato é que durante este processo outros grupos afloraram: os formados por Terroristas Islâmicos. Esses movimentos não nasceram nas últimas décadas, lutando contra o Ocidente bem antes dos anos 90, mas foi com o fim da URSS, que essas células terroristas vieram ao conhecimento público formando o tal “Terrorismo pós-moderno”, como caracteriza Laqueur.
Esse novo tipo de terrorista age em nome da religião, o que o diferencia dos movimentos terroristas que vinham ocorrendo nos últimos séculos. Baseados na fé, esses grupos passaram a se organizar e ganhar visibilidade. O que só agravou os já existentes preconceitos do Ocidente para com o mundo Islâmico.
Islamofobia - O Preconceito com o Islamismo

Muro construído entre Israel e a Palestina
Baseados na Ignorância e na Intolerância Religiosa, veículos de comunicação ocidentais acabaram não distinguindo quem era quem no Islã, generalizando uma religião que tem, desde os primeiros séculos de sua existência, duas correntes com visões diferentes (Sunitas e Xiitas), sem contar as diversas formas de interpretação do Corão feitas em cada país, região e que caracterizam diversas “sociedades” muçulmanas.
O que se vê atualmente é que não há distinção entre cada parte, caracterizando sociedades diferentes como semelhantes. Ora, seria a mesma coisa que, por obra de uma pequena parte dos Cristãos, todos fossem considerados intransigentes e criminosos.
E nesse ponto, até mesmo o termo “Fundamentalista” usado para descrever os grupos terroristas está mal enquadrado. Comparando, seria como descrever a Opus Dei (parte mais conservadora dos Católicos) como Fundamentalista. Caracterizá-los assim é considerá-los “melhores” dentro da religião, pois o termo fundamentalismo faz alusão aos fundamentos. É como se estes grupos fossem os que mais respeitassem os preceitos de suas religiões. Sendo assim, tanto um quanto o outro pode ser melhor caracterizado pelo termo Extremista, que leva a religião às últimas consequências.
Para a maioria dos muçulmanos a convivência com as demais religiões é pacífica. O Corão, como os demais livros sagrados, pode sofrer diversas interpretações. Bin Laden cita em um de seus vídeos uma das frases do Livro “eliminar os inimigos onde quer que eles estejam”. Contudo, no verso seguinte, a mensagem é: “Se eles deixarem-no em paz e não fomentarem guerra, e oferecerem a paz, Alá não permite que sejam machucados”.
Segundo alguns autores, é possível caracterizar o fenômeno visto desde a década de 90 como Islamofobia. Elizabeth Poole, estudiosa inglesa, demonstra em um Estudo de Caso feito entre os anos de 1994 e 2004 que boa parte da culpa é da mídia em criar preconceitos que se enraízam cada vez mais no Ocidente. Uma rápida busca pelo índice de reportagens da Revista Veja entre os anos de 1993 e 2008 demonstra esse Islamofobismo. Blasfêmia fatal , O país das cabeças cortadas, A espada do profeta, Uma vitória do terror, Livres para pregar o terror. Esses são alguns dos títulos que se juntam a outros tão ofensivos quanto, no índice de reportagens ligadas ao Islamismo (na própria classificação da Revista).
É claro que não é simplesmente a mídia que faz o Terrorismo se tornar algo Islâmico, ou ela que aflora preconceitos. A mídia é importante em diversos processos desde sua criação, educando e levando informação às pessoas. Mas a forma instaurada da Notícia no mundo atual acaba sendo sensacionalista, castradora e generalizante, o que por si só transforma história em estória. A mídia pega fatos e os monta ao seu bel prazer, carregada de opiniões. O terrorismo é só mais um destes fatos, em que o mundo passa a enxergar, pelo foco dos meios de comunicação o sinônimo Terror=Islamismo.

Terror Midiático
Mesmo que se diga e se prove que o Terrorismo não é uma questão atual (no sentido de já existir “desde sempre”, como diz Laqueur), o mundo parece cada vez mais fadado ao Terrorismo Midiático. O de todos os dias, cheio de preconceitos contra este ou aquele que não faz parte do modelo pronto do ‘ocidentalismo’. O que ocasiona os preconceitos contra o Islã, ligando quase sempre Islamismo com atraso cultural e motivações terroristas.
Assim como não é possível, hoje, fazer justiça ao favelado visto como traficante ou o negro visto como ladrão, vê-se que sem se fazer a distinção entre a maioria dos Muçulmanos e aqueles que utilizam o terrorismo não é possível fazer justiça a um povo com história tão importante e com ensinamentos de tão grande valor
A quebra de preconceitos e a construção menos terrorista e mais humana da notícia, esse é um dos maiores desafios da Comunicação.![]()
*Todas as imagens desta reportagem são de autoria do inglês Banksy
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TERRORISMO, MÍDIA E O QUE O ISLÃ TEM A VER COM ISSO, pelo viés de João Victor Moura
joaovictormoura@revistaovies.com
os Extras da Reportagem
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Cacete, a construção da noticia como ela realmente é,
em tempos de Marinhos e Santos ta dificil.
parabens pela materia fico massa
gostei e apoio a idéia da quebra de estereótipos.
abraço
Interessante reflexão, João Vitor. Afinal, o que é o terrorismo pós-moderno? Que terrorismos temos hoje? O psicológico, sem dúvida, que alimenta os preconceitos contra os muçulmanos ou contra qualquer grupo que se organize e lute por seus direitos de forma mais contundente. Qualquer grupo social que ousar “transgredir” as regras do capital e da propriedade é taxado de terrorista. Qualquer tipo de ameaça ao patrimônio privado e adquirido de forma injusta é encarado como terrorista. E o terrorismo midiático é o pior. Concordo contigo. Precisamos resgatar a humanidade no jornalismo. Parabéns!
Oo lembrei de uma coisa que acho que mostra uma especie de terrorismo da imprensa, me corrija se eu falar besteira, a folha de sp na ed 17 de fevereiro, se referindo a ditadura como dita branda.
penso que foi como falar que a violaçao dos direitos humanos é uma opçao plausivel em determinadas cituaçoes
Ótima reportagem! Certamente o Terrorismo Midiático é uma das formas mais pertinentes de terror. A falta de profundidade nas abordagens, aliada à ideologia disfarçada de imparcialidade, resulta na criação e difusão de estigmas que só fortalecem os preconceitos. Muito bom o texto, e boa a ideia de usar as imagens do Banksy.
Abraço!
Muito boa a matéria. Execelente exercício crítico. Parabéns
Assim como os outros.. também gostei da matéria!
Porém não te ilude com a imparcialidade, João!
“A ideia do Viés é e sempre foi a liberdade de opinião e a imparcialidade”
A ciência nao é neutra.. e muito menos a arte!
A escolha do tema já assume uma posição!
Não acredito na neutralidade/imparcialidade de nenhuma revista.. o que acontece aqui é o diálogo de 8 opiniões!
Parabéns!
Giovana, obrigado por nos acompanhar.
Realmente a imparcialidade é tão inatingível quanto “impalpável”.
Considero a imparcialidade algo em outro nível, outra esfera, não é algo que possamos ver ou tocar, é um “valor”, um “sentimento”.
E essa minha opinião não se contradiz com o que está escrito na “Nossa Quimera”, afinal eu verso sobre o Ideal da revista, que ao meu ver é muitas vezes esquecidas nas Redações de nossa Imprensa, infelizmente.
Giovana, tenha certeza que eu sei que o meu texto não é imparcial, ela é fruto de tudo que vi, li, vivi, pensei…
No mais, obrigado pelo comentário, questões críticas são muito interessantes, fazem parar para pensar trazendo indagações novas, as vezes não imaginadas.
“Do rio que tudo arrasta se diz violento, mas não se dizem violentas as margens que o oprimem”
Brecht
João, a questão do terrorismo é delicado e ideológico. Até a expressão “terrorismo” já pressupõe juízo de valor. A questão é simples: luta de classes e a dominação de uma classe sobre a outra. Sempre haverá a resistência e, sem dúvida, sempre cairá na violência de grupos contra a sociedade na qual esse mesmo grupo está inserido. Não há violência gratuita e não podemos considerar esses terroristas como doentes fanáticos. Existem motivações que os levam a reagir violentamente. Você citou o IRA, que não é nada mais que um grupo que luta pela libertação da Irlanda do domínio inglês. A violência da ocupação inglesa É a responsável pela violência do exército republicano. O mesmo acontece com os etarras (ETA), que lutam pela emancipação do território basco da Espanha. São violentos? com certeza. Mas não tanto quanto aqueles estados que são os móveis da violência de Estado sobre eles.
O Estado de Israel foi criado justamente por grupos que foram seguidamente chamados de “terroristas” (o Haganah, por exemplo), o que não impediu que seus membros ganhassem o Prêmio Nobel da Paz… Aliás, os EUA, a maior potência militar, mantém sua decadência ideológica através de violento terrorismo…mata, mata, mata… mas utiliza a mídia para chamar os outros de terroristas. Uma bomba que arrasa um quarteirão residencial em Bagdá, no Afeganistão ou no Vietnã seria tão ou mais terrorista que um palestino que se explode na aduana da Faixa de Gaza.
Há de ter muito cuidado com esse tratamento dado aos pequenos grupos armados e suas motivações. Eles não agem por que gostam de matar ou morrer, mas são movidos por motivações signicas construídas pela sua própria cultura. Nos nos envolvemos nela e tentamos modificar seu modo de pensar…Alguns aceitam, outros não. Nós os forçamos a pensar como nós, eles não querem pensar como nós, não querem consumir como nós. E se o inverso acontece? Não resistiríamos? Creio que sim. E não acho que isso seja terrorismo, justamente por que isso é mera expressão ideológica, que procura jogar a sociedade contra idéias “estranhas”.
Quando falamos do islamismo e o associamos ao dito terrorismo, não estamos fazendo mais que cumprirmos valores geopolíticos de Estado sobre uma cultura. O islamismo, antes de mais nada, muito menos flexível ideologicamente com o consumo capitalista que o adaptável cristianismo. Enquanto um defende um carpe diem de prazeres terrenos e palpáveis nessa vida, o primeiro defende o ajuste de contas do bem contra o mal para se usufruir uma outra vida (ainda que seja para conseguir 72 virgens…) de prazeres e obediência a Alá, o Clemente e Misericordioso.
Só por aí, vemos aonde nos meteram…querem que tenhamos medo e raiva daqueles que pensam diferente. Por isso, são terroristas.
E no único país que não teve uma só experiência de reforma agrária séria na América Latina, aonde a desigualdade social é uma das mais acentuadas mudnialmente e a concentração de renda na zona rural é a maior do mundo, em torno de latifúndios monopolistas, os excluídos que perambulam pelas estradas e ocupam terras públicas, em litígio, ou pertencentes a corruptos, são chamados de terroristas. Simples assim.
A questão não é tão simples para ser definida em luta constante de classes. Existem outras faces do problema: a religiosa, a cultural, a ideológica. Nem tudo está ligado às classes e à indução ao consumo. Cada lado é bipolar: tem uma face que sofre e outra que faz sofrer. Ser simplista é querer enxergar só uma delas.
“A história da humanidade é a história da luta de classes”. Marx e Engels
O mais simplista nessa história é dizer que não se trata de classes e não mencionar do que se trata. Em primeiro lugar, não há o costume de se enxergar a sociedade dividida em classes, justamente por que pressupõe a existência de grupos se sobrepondo a grupos e/ou elites se colocando sobre a maioria. É agradável para essa tal de elite construir um imaginário que se encaixe no “natural” domínio econômico, religioso etc. Se existem outros fatores, Gianluca, não se trata de classes, mas de instrumentos de dominação (foi isso que mencionastes). Você confundistes as coisas. Principalmente no capitalismo, a liberdade é extremamente vigiada (não que em outros sistemas não o seja) e manipulada para a própria manutenção do sistema. Ou você acha que a pobreza é uma distorção e o terrorismo vem de caras endemoniados? O que citas é justamente a argumentação que procuras discordar: as religiões, etnias etc são apenas justificativas para o uso econômico e político da exploração do homem pelo homem.
parabens querido… vc vai longe. abraço
Quando procurei no acervo a matéria do João Victor já pude ver pelo título que esta matéria só poderia ter sido escrita, e muito bem escrita, por ele. A forma de escrita e pensamento crítico sempre estiveram presentes em sua vida acadêmica e agora tão bem colocado em prática na faculdade que sempre sabia que iria cursar. Parabéns!
Vc vai longe guri!! tenho o maior orgulho de vc!!
salvei tua matéria nos meus favoritos e vou usar com meus alunos. Assunto de gente grande escrito com a maturidade de quem cresceu a olhos vistos . Parabéns, afilhado!