DE SÃO BENTO AO RIO GRANDE DO SUL

“E aí tem gente que vem e pergunta o que é que a gente vem fazer aqui…” Eles vendem redes para o descanso dos turistas do litoral ou para os simples habitantes de uma cidade. Alguns dias na caçamba de um caminhão é a distância entre a Paraíba, na cidade de São Bento (a Capital […]

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“E aí tem gente que vem e pergunta o que é que a gente vem fazer aqui…”

Eles vendem redes para o descanso dos turistas do litoral ou para os simples habitantes de uma cidade. Alguns dias na caçamba de um caminhão é a distância entre a Paraíba, na cidade de São Bento (a Capital Mundial da Rede), até a região sul. Na cidade natal deles, segundo informações do Instituto Brasileiro de Pesquisas e Estatísticas (IBGE) 80% da população economicamente ativa (PEA) vive diretamente da produção, comercialização e distribuição de redes. E vale lembrar que dentro destes estão somente os trabalhadores em situação legal (aqueles com carteira de trabalho e, quem sabe, declaração de imposto em dia). PEA? Pedro e outros tantos mal sabem o que é. A solução para os poucos anos de estudo e para as contradições de uma cidadezinha sobre a qual os representantes políticos dizem ser a que mais cresce na Paraíba (mas não é)¹, fica jogada, assim, por cima de carrinhos nômades cheios de mercadorias.

Tem gente que acha engraçado o bom humor dos nordestinos gritando frases improvisadas para chamar a atenção. Eles adoram que a gente pechinche. Pois, na verdade, aceitar pechincha e ecoar slogans não faz parte de uma rotina de diversão e nem de aventura por aventura. Na cidade de São Bento, de onde sai grande parte dos “redeiros”, produz-se, por mês, o equivalente a 20 redes por habitante. Para cada São Bentense, em um ano inteiro (é fácil calcular), são 240 unidades desse artigo. A rede, antes cama indígena, hoje é mais usada em minutos de papo pro ar. E então que, descontem-se a parcela que trabalha em outros ramos, as crianças, os idosos (ou melhor, alguns idosos, já que idade não é, necessariamente, sinônimo de férias infindáveis e ócio remunerado), o montante por cabeça envolvida no serviço é bem maior. E não há feira realizada em uma cidade de 30 mil habitantes que dê conta de vender toda a produção.

Exportação? Venda para outros estados do país? São realizadas, sim – por aqueles em dia com a prestação de contas. Ou por aqueles que, atuando como mediadores, compram dos artesãos os itens (bem mais baratos do que) a preço de banana e revendem para os empresários mais sagazes. E aí entra de novo a questão da informalidade no trabalho. Os próprios trabalhadores (geralmente trabalhadorAs) artesanais recebem uma quantia absurda pelo serviço realizado – o mínimo do mínimo. Desse modo, não têm como economizar para a legalização, para o reconhecimento como trabalhador. Além disso, trançar uma rede ou colcha – mesmo com a ajuda de teares rudimentares -, requer tempo. Hoje, tempo é dinheiro, e dinheiro é o que faz o mundo girar. A rotina é como um caça-níquel: funciona alimentando-se de moedas e enguiça caso não alimente o estoque. Resultado: os maridos e parentes homens deixam as casas para circular o sul em busca de um sustento que garanta às suas famílias uma vida acima do traço da linha da miséria.

Pedro, um São Bentense de estatura baixa, panturrilha grossa e voz anasalada explica um pouco melhor…

…“Então tá, meu bem. O que você quer sabê? (Meu nome) é Pedro, cheguei da Paraíba hoje. Eu e mais outros. A gente compra mercadoria lá e trás pra cá. São 22 pessoas, 24 com o motorista e o patrão. É isso aí… Vem tudo no caminhão. Daqui (Rio Grande do Sul) até a Paraíba dá 5 mil e uns quebrados de quilômetros. Se for de ônibus é quatro, quase cinco dias de viagem. A gente vem direto e dá 4 dias. Nós passamo por Caxias, Porto Alegre, Lajeado. 15 dias em cada cidade. Daqui nós vamo pras praia, depois do dia 25 (de dezembro)… Praia de Tramandaí. Tem tudo, tem até cabana. Aí passa mais 90 dias e depois vamo simbora pra Paraíba. Lá tem gente que ganha 50 real por semana, 200 por mês. E aí tem gente que vem e pergunta o que é que a gente vem fazer aqui… Cê véve com 200 por mês? Aí nós fica… Cinco mês aqui, 30 dias em casa. Depois nós volta de novo. Todo mês nós temo que mandá dinheiro pra mulher sustentar a família.

A cidade é São Bento. É… uma cidade pequena, no interior, 35 mil habitantes. É… 35 mil, né Júlio? (Júlio, o companheiro são bentense, está logo ao lado, com aquele olhar de canto de olho que todo precavido tem). É, é isso aí. Lá no Nordeste é quente. Lá geralmente nós não véve mais de plantação. Aqui vocês véve. Nós véve disso aqui (apontando para as redes). É disso aqui que nós véve. Somente rede e algodão. Eles lá fabricam, e nós vende. Geralmente as mulher que ficam lá elas trabalham fazendo isso aqui ó. Isso aqui é feito a mão ó. Elas que trançam isso aqui. Deixa eu abrir uma procê vê. Elas ganham 15 centavos pra fazer cada uma. Dá pra aguentar? São exploradas… Nós véve assim. Lá o boi não resiste. Não tem nada verde pra comer. Lá passou esses tempos dois anos sem chover e veio chover um dia desses recém². Aí até começaram a plantar algumas coisa. Não sei… Deus queira que dê, nunca mais vi alguém viver de plantação lá… Tenho mãe, tenho pai. Já fui casado, já separei. E tenho só uma menina… 2 anos.

Aqui em Santa Maria dormimo lá num posto na saída da cidade. Chega lá, arma a rede e dorme ao relento. É isso aí, minha filha. Não tem casa, não tem comodidade. Se dá pra viver aqui? Sim. Nós ganha 1500 por mês. Só que você tem que descontar 300, 400 da minha despesa, que tem o almoço, café e janta sai do meu bolso. Fora os dias de semana, outros gastos. Aí sobra uns 400. O patrão? É… Ele arruma dinheiro, vale e outras coisas e daí gente a gente vai acrescentando na comissão que tem que dar pra ele. É, isso, vende as peças dele. Não tem carteira assinada. Cês chamam nós de vendedor “ambulante” né?! Lá, pra gente, é “corretor”. Tenho 21 (anos), faz oito que faço isso. E assim a gente vai levando a vida…

E depois disso, olhando para os pés: “Mais alguma coisa?

¹ “Venha conhecer a cidade que mais cresce na Paraíba. Estamos falando de São Bento, mas conhecida como a cidade das redes (…) Vim pra São Bento há três anos atráz trabalhar como repórter do Sistema Correio. Hoje sou Assessora de Imprensa da Prefeitura e me apaixonei pela cidade que tem uma excelente recptividade, é banhada pelas águas do Rio Piranhas e é considerada a terceira cidade do estado da Paraíba que mais cresce.” (essa fala da assessora de comunicação da Prefeitura de São Bento é como o cartão de visita do site da administração municipal)

² No ano de 2005, foi realizado pelo Ministério de Minas e Energia, pela Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Energético, Secretaria de Geologia, Mineração de Transformação Mineral, Programa Luz para Todos, Programa de Desenvolvimento Energético dos Estados e Municípios, Serviço Geológico do Brasil e Diretoria de Hidrologia e Gestão Territorial, um diagnóstico do município de São Bento. De acordo com ele, a cidade possui 11 poços de água instalados, dentre os quais 82% são particulares, de uso exclusivo do proprietário, e não da população geral. Cinco deles têm abastecimento particular e apenas um é de uso comunitário. Os outros tiveram suas finalidades declaradas como “não definidas”. Para fechar, dentre os poços analisados 61% possuem água salobra, ou seja: não própria para consumo. Na cidade, chove aproximadamente 400mm (de acordo com o mesmo relatório) por ano – em alguns pontos do noroeste gaúcho, para se ter ideia, chegou a chover 800mm entre 1º de outubro e 30 de novembro.

* Pedro não aparece em nenhuma das fotos. Tem medo de ser denunciado. As fotografias foram tiradas em Pelotas (RS), onde muitos São Bentenses também trabalham.

DE SÃO BENTO AO RIO GRANDE DO SUL, pelo viés de Liana Coll

lianacoll@revistaovies.com

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  • Rondon de Castro

    Uma boa pauta, Liana. Valeu a pena ir atrás do Pedro. É uma matéria esclarecedora, já que não é o único caso esparramado por esse mundão. São muitos. Só achei que deste muito a voz ao vendedor e abdicou do direito (e dever) de construir uma reportagem mais consistente, fazendo o sujeito falar mais de sua vida. Está uma matéria em “blocos”: a informativa e que introduz o leitor e, depois, você a entrega ao entrevistado. Deixa que ele a paute. Tenho minhas diferenças com notas de rodapé. Meu primeiro editor, Luís Thomassi, um jornalista do “Estadão” aposentado em Piracicaba/SP, dizia que nota de rodapé significava – para o jornalismo – um pecado, já que o redator não havia conseguido construir o texto com clareza. No meio acadêmico, é um instrumento para lá de utilizado principalmente nesses últimos tempos, que a tal pesquisa (incluída aí a área de Comunicação Social) não passa de experimentações, ou melhor, repetições e/ou compilações do que já foi dito, digerido. Jornalismo tem de trazer interesse, informação, proximidade etc, e tem diferenças abissais com o texto acadêmico (que creio que te influenciou na construção), que é pregado e estimulado nos corredores da Facos (não esqueçamos que temos professores que nunca exerceram o jornalismo). Assim sendo, tente inserir essas informações complementares no corpo principal. Se não for possível essa inserção, por não ter um “gancho”, esqueça-a. Só irá poluir o texto. Ainda mais que se trata de jornalismo on-line: a leitura é rápida.
    No mais, gostei dessa curiosidade. Te faz repórter.