QUAL FELICIDADE NACIONAL?

Leia a reportagem ao som deste vídeo:


O que faz um país ser feliz? São suas medidas econômicas, as colônias conquistadas, medalhas de ouro nas Olimpíadas? Não. Um país feliz é aquele do cotidiano, da maneira com que cada um de seus cidadãos vive. As aulas numa escola que tem estrutura, a ida a um hospital e ser atendido, a vontade de ir ao cinema sem ter que gastar o dinheiro da janta. Não há Copas nem Olimpíadas que nos deem isso. Felicidade nacional existe, não se planeja para daqui sete anos.
 

O QUE É FELICIDADE

Se querermos saber se um país é feliz, precisamos saber o que é felicidade. Só que felicidade não se define, ela existe. Há o resquício do pensamento grego de que as coisas precisam ser quebradas para serem melhor entendidas. Ao aplicarmos essa máxima a tudo, estaremos sempre à procura de conceitos, o que talvez nos aproxime de uma lógica explicativa, mas nos afaste de sentir e viver aquilo que acabamos de conceituar. A felicidade é existencialista: está para nós como nossa pessoa está para a nossa vida: é algo que existe enquanto é construído, é o “ser para-si”.

Se não podemos definir felicidade, qual é o propósito de querer saber se um povo é feliz ou não? A felicidade pode ter significados diferentes para cada pessoa, mas os meios pelos quais essas várias felicidades individuais são alcançadas têm um quê de direitos universais. Podemos estar felizes ao comermos algo de que gostamos, mas não somos felizes se passamos fome; podemos estar felizes ao chegarmos à casa depois de um dia cansativo, mas não somos felizes se não temos lugar nenhum onde morar. E aí mora o nosso prisma: a felicidade mesma é ambígua. Estar feliz não é o mesmo do que ser feliz, que há de ser algo universal.

O dicionário Houaiss traz felicidade como antônimo de miséria e miséria como sinônimo de pobreza. Pobreza é a falta de algo essencial. Ser rico é, portanto, sinônimo de ser feliz. Mas o que é ser rico? Antes que entremos noutra discussão filosófica, partamos para as constatações históricas. 

NA BASE DO MONEY, MONEY, MONEY

A bonança de cada país tem sido mensurada com relação ao tal do Produto Interno Bruto (PIB), a soma de todas as riquezas [em valores monetários] produzidas num certo período. Nesse sentido, o Brasil é, de acordo com o Banco Mundial, a oitava maior economia do mundo, com um PIB de mais de um trilhão e meio de dólares, muito longe da ainda maior economia de quatorze trilhões de dólares dos Estados Unidos.

Quanto à felicidade, as mensurações mais antigas são as do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), um complexo cálculo que considera expectativa de vida, índice de educação e renda per capita. O IDH máximo é de 1. O país com a suposta melhor qualidade de vida é a Noruega, com um índice de 0.971 e um PIB de 500 bilhões de dólares. Os Estados Unidos têm um IDH de 0.956. Sua posição de 13º lugar cai a cada ano e os faz estar atrás de países que, juntos, nem fazem cócegas no PIB estadunidense. O Brasil, enquanto oitava maior economia, é o 75º país com a melhor qualidade de vida. Se só o dinheiro fosse sinônimo do progresso e, logo, da felicidade, da qualidade de vida de um país, os Estados Unidos seriam o paraíso na terra e o Brasil seria, digamos, uma Suécia1 da vida. Ah, se fosse assim! Coitados dos habitantes de Kiribati2.
______________________________
1 – A Suécia, sempre presente na lista dos 10 maiores IDHs, tornou-se o país-referência em qualidade de vida.
2 – Segundo o Banco Mundial, dos 182 países analisados, Kiribati tem a 182ª “maior” economia do mundo – PIB de 131 milhões de dólares.

O VERDADEIRO PRODUTO INTERNO DO BUTÃO

As crises da contemporaneidade têm assustado as economias e feito as pessoas reconsiderarem suas vidas, isto é, repensaram para o quê elas vivem e, principalmente, como vivem. Qualidade de vida, assim, que era assunto de bicho-grilo, virou programa de televisão a cabo. A última crise, a que explodiu em 2008, abriu uma nova era – a verdadeira Era de Aquário, que o jornal francês Le Monde Diplomatique chama de Era Pós-neoliberalismo. O mote do ser humano é [finalmente] viver bem, sem necessariamente viver para lucrar. Os moradores das grandes metrópoles, para onde todos queriam ir, tornam-se agora cidades-escritório. As famílias – que podem – decidem se mudar ou, de certa forma, voltar para o interior na busca de uma vida a que elas mesmas se referem como “de mais qualidade”.

A noção de que o progresso, o desenvolvimento e a felicidade (tratada aqui como sinônimo de qualidade de vida) são resultados diretos do enriquecimento monetário é uma herança do calvinismo, que pregava que o trabalho dignificava e significava a vida. Mesmo séculos depois que Calvino usou a religião para impelir o lucrar [onde foi que eu já vi isso?], o mundo ainda girava em torno da moeda. Parece estar mudando e, se as grandes corporações, que são donas de dizer que não somos felizes se não comprarmos tal produto, não se conectarem à realidade dessa mudança de paradigma, é o fim do mercado como o conhecemos. Ó, que pena!

Em 1972, ao ser criticado pelo pequeno crescimento econômico de seu reino perante às tigresas asiáticas, o rei Jigme Wangchuck, do Butão, país entre a Índia e a China, respondeu que não se importava tanto com o crescimento do PIB se este não fosse simplesmente um meio para se aumentar a FIB. Nascia a Felicidade Interna Bruta. São quatro pilares: desenvolvimento sócio-econômico sustentável e igualitário, preservação e promoção dos valores culturais, conservação do meio ambiente e boa governança. Dentro desses, vertem nove concepções de felicidade que têm sido o norte do Rei do Butão.

“NA SUÉCIA NÃO TEM ESGOTO AO AR LIVRE”

Politicamente falando, os melhores exemplos de felicidade nacional – qualidade de vida – vêm da Escandinávia, onde a social-democracia, baseada no Estado-providência do welfare state britânico, está em implantação há mais de cem anos. Na Noruega, na Suécia, na Islândia, na Dinamarca e na Finlândia, a qualidade com que seus cidadãos vivem é o propulsor de qualquer lei, projeto ou obra.

Mas por que deu certo? Porque, antes de qualquer medida política periférica, o maior investimento da Escandinávia foi em educação. “Na Suécia, educar significa incitar a discussão e a crítica”, disse-me Leila Bell, minha amiga curda que mora em Estocolmo há dezessete anos. Assim, para os escandinavos, mudar sua situação de vida e proporcionar a si mesmos qualidade foi – e é – sinônimo de fazer com que, antes, eles mesmos enxerguem a necessidade de melhorar de vida. O cientista social Jorge Romano disse, na edição de outubro do Le Monde Diplomatique Brasil, que as estratégias de desenvolvimento, entendido como progresso do povo e não só da economia, perpassam a educação no sentido de que esta cria a consciência da pessoa como parte de um mesmo povo e enxuga as possibilidades de governantes demagogos de simplesmente criarem “políticas compensatórias de assistência à pobreza” [lembremos do que é pobreza].

FIBRASILEIRA

Felicidade pode ser prometida pelo anúncio de margarina, como disse Nathália Costa aqui na revista o Viés, mas ela não é um comerciável. Felicidade não é um produto nem para o indivíduo, nem para a nação. Logo, desenvolver a economia de nada adianta se a população não tem qualidade de vida. Longe de serem sinônimos para peripécias corporativas em busca de mais lucro, o desenvolvimento e o progresso de uma nação são intrínsecos, portanto, à maneira com que o seu povo vive. Fica a incógnita: o Brasil será, em pouco tempo, o detentor do quinto maior PIB do mundo; e a nossa FIB – vai ficar escondida em sorrisos miseráveis de quem recebe só a “assistência compensatória”?

QUAL FELICIDADE NACIONAL?, pelo viés de Gianlluca Simi

gianllucasimi@revistaovies.com



Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...