O RINGUE DA CONSCIÊNCIA

As diferenças entre o que você pensa e o que você faz. Pelo viés de Nathália Costa.

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Adeus ano velho, feliz ano novo…!


Lá se vai mais um ano, e lá vem chegando mais um: todo o ano as promessas de sermos pessoas melhores com a gente mesmo, ou com as pessoas que estão ao nosso redor.

“Esse ano eu vou começar uma bela duma dieta, vou malhar bem mais e ficar tinindo no verão, vou fazer caridade e ajudar o próximo, vou ganhar muita grana e dar uma mãozinha pra vovó, vou passar em todas as cadeiras da universidade ou em todas as matérias da escola, vou chegar pontualmente às reuniões e esse ano – eu juro – eu vou juntar dinheiro e trocar de carro”.

Adeus ano velho, feliz ano novo. Novas oportunidades para esperar por coisas novas, empreender novos rumos, concretizar antigas e novas metas. E também para mentirmos mais um pouco para nós mesmos. Ah, assim na lata até dá pra se envergonhar né. Mas pense bem. Todos aqui somos humanos, prontinhos para errar. Mas o que é que envolve esse processo de promessas que a gente não cumpre?

Eu demorei para bolar essa reportagem, e justifiquei para mim mesma que era por culpa da minha rotina, que nos finais de ano sempre acaba sobrecarregada. Ainda considerei que estava fazendo tudo certo, e por isso, não haveria problema algum em procrastinar mais um pouco e acabasse a matéria na segunda, ou quem sabe até mesmo na terça, na hora H da sua entrega. Com isso, percebi que é ainda mais sutil a discrepância que existe entre aquilo que defendemos como ‘o certo’ e aquilo que efetivamente realizamos, na prática.

Pode ser muito fácil para alguns apontar os erros dos outros. A pesada viagem a nossa própria consciência, que nos levará ao cerne dos problemas que nós mesmos criamos, nem sempre é o destino mais escolhido por aqueles que querem sair de férias.

A moral é um preceito duríssimo, inabalável (no seu conceito). Assim como a ética, não é flexível – e muito menos “adaptável”. Isso faz com que, algumas vezes, busquemos soluções que ‘amenizem’ as conseqüências em nossa própria hmm… digamos assim, consciência.

A moral é um caso complicado. Experiências comprovam que o ser humano possui uma habilidade nata para distinguir aquilo que é certo daquilo que é provavelmente errado. Não são apenas os meios sociais ou a cultura enraizada que moldam a forma como o homem vai considerar aquilo que é justo e aquilo que não é.

Mas também não precisamos acreditar que apenas mentimos para nós mesmos, em algumas situações. Na realidade, buscamos justificativas. Distorcemos a realidade sempre, porque caso não mudemos o que ocorre por dentro fatalmente sofreremos com os resultados daquilo que parte “de fora”. Sempre existirão justificativas para aquilo que prometemos na virada do ano, e que no fim, não concretizamos.

O psicólogo social Leon Festinger achou bastante engraçado essa forma que temos de nos contradizermos interiormente, expelindo isso em atos incompatíveis com aquilo que defendemos, ou mesmo assumindo mentiras como se estas fossem verdadeiras. Foi assim que ele bolou a TEORIA DA DISSONÂNCIA COGNITIVA.

Dissonância e consonância são relações entre cognições, ou seja, entre opiniões, crenças, conhecimentos sobre o ambiente e conhecimentos sobre as próprias ações e sentimentos. Duas opiniões, ou crenças, ou itens de conhecimento são dissonantes entre si quando não se encaixam um com o outro, isto é, são incompatíveis (Festinger).

Para o próprio Festinger, existem maneiras diferentes de lidarmos com o desconforto psicológico da dissonância: substituindo as crenças que temos, adquirindo novas crenças que apimentem a dissonância, ou mesmo esquecendo-as e reduzindo a sua importância.

Na teoria

Basicamente falando, a dissonância cognitiva é um estado psicológico de oposição entre duas ou mais idéias, sendo que estas idéias (que podem ser também atitudes, crenças, opiniões e comportamento) divergem entre si. Uma linha de tensão que existe dentro dos seus processos cognitivos. É como um ringue de boxe dentro da sua consciência. Uma espécie de discrepância entre o que pregamos e o que realizamos, conhecida também como “moral-dupla”.

Para alguns estudiosos dessa vertente, a teoria da dissonância cognitiva é uma espécie de exercício para a nossa mente, forçando (de certa forma) as nossas percepções a encontrarem novos caminhos, reinventando crenças e opiniões. Quando um pensamento é incompatível com outro, tendemos a escolher por um deles. No processo da dissonância que existe entre eles, a teoria explica que optamos por um. Mesmo que, em alguns momentos, ele vá contra aquilo que anteriormente acreditávamos como o “certo”.

Isso está inteiramente conectado com a imagem que temos de nós mesmos. Pensando muito bem a respeito de nossas capacidades, ou mesmo pelo contrário, atribuindo culpas e erros que não nos cabem, estamos sempre criando aquilo que será para a gente o nosso espelho. Sabemos quase certo que muito daquilo que temos como imagem de nós mesmos, nem sempre é a mesma imagem (e quase nunca a mesmíssima imagem) que os outros têm de nós.

Quando temos para nós a imagem incompatível com a moral que instituímos como a correta diante dos fatos, estamos muito mais sujeitos a atribuir certezas que não são assim tão certas. É mais fácil que criemos justificativas para atos que antes nos eram incabíveis. De certa forma, o processo é maleável. Esse disparate entre senso e ato acontece porque necessitamos amenizar as conseqüências. É aquele velho ditado que diz que encarar a verdade de frente é que é pegar o touro pela unha!

Estejamos vendo um filme pirata (que só é pirata porque o original tem preços absurdos), utilizando o Word versão Caribe com rum (a Microsoft já tem grana pra caramba) ou batendo de leve o nosso carro (mas porque a pessoa que vinha atrás que não viu direito) sempre encontramos, por menor que seja, uma justificativa que ao nosso cérebro serve sempre como uma luva.

Leve-me ao seu líder

Pessoas lidam de formas muito diferente com a dissonância. Já se acredita que não é exatamente a dissonância em si o aspecto que deve ser estudado, mas aquilo que as pessoas fazem com essa dissonância. A própria já foi chamada de “melhor amiga do controlador de mentes”, por poder auxiliar alguém a atribuir verdades e sentidos à sua determinada crença.

Festinger passou por um experimento estranhíssimo ao tentar comprovar a sua teoria: uma americana, líder de uma seita que acreditava em OVNIS e no fim do mundo. Temperos já bem conhecidos. Os Buscadores da Irmandade dos Sete Raios (como gostavam de ser chamados) acreditavam que extraterrestres destruiriam a Terra lá pelo ano de 1954 e que estando eles preparados para recebê-los, seriam poupados e poderiam embarcar e ser feliz em outro planeta. Porém, após as longas pregações da líder a respeito das catástrofes que o mundo sofreria, o dia 21 de dezembro (a data marcada para o atentado) amanheceu intacto no planeta Terra. Estranho pensar que a simples menção ao fracasso não foi capaz de reverter as crenças dos seguidores da Irmandade dos Sete Raios. A líder apareceu a todos exultante, declarando que através da luz e da energia que o grupo tinha emanado, os ETs decidiram poupar a vida na Terra. Festinger (na época, um infiltrado no grupo) achou interessante a forma como aquelas pessoas nem ao menos contestaram o fato absurdo. Aos olhos do pesquisador, lhes seria caro demais reverter seus pensamentos, obrigando-os (de certa forma) a “continuar com a mentira”. A devoção dos Buscadores da Irmandade dos Sete Raios estava centrada em sua própria fé. Uma fé irracional e incondicional diante de um líder ou diante de uma pessoa pode acarretar em “cegueira”, fazendo com que a maioria de seus seguidores ignore os erros por pensar nos méritos. Uma forma de tentar sair por cima.

Essa espécie de “lavagem cerebral” não funciona apenas em casos bizarros com extraterrestres. A própria humanidade já provou que a lavagem cerebral não é uma coisa assim tão distante. Nações inteiras podem estar suscetíveis aos extremismos. Fazemos isso pelo bem daquilo: as invasões americanas ao Iraque, pela justificativa batida de guerra ao terror; a Alemanha nazista, o poço do desespero em que mergulharam centenas de alemães, e a justificativa de um líder que pensava ser a solução para o país. São medidas extremas, que algumas vezes parecem não fazer o menor sentido. Mas em algum momento, elas fizeram.

Quando existe uma incoerência entre atitudes ou comportamentos (dissonância), algo precisa mudar para eliminar a dissonância. No caso de uma discrepância entre atitudes e comportamento, é mais provável que a atitude vai mudar para acomodar o comportamento (Festinger)

O nosso cérebro tem certos pontos que podem ser considerados cegos. E o truque deles é fazer de conta que – vualá – eles próprios não existem! É por isso que a tal da teoria da dissonância cognitiva é uma teoria abarcada nesses mesmos pontos cegos. Intencionalmente deixamos de olhar duas vezes aquilo que nos agrada, a fim de não questionarmos profundamente aquilo que fazemos ou aquilo que “defendemos” como o certo. É como respirar o ar todos os dias, e quase não ter consciência que ele exista. Nos munimos do mesmo, mas somos cegos com relação a ele.

Consciência limpa

Entendemos muito bem que o processo de auto-avaliação a que nos submetemos comumente é válido. Moral é indiscutível. Preceitos são, como eles mesmos dizem, regras norteadoras. Mas para alguns estudiosos, a dissonância cognitiva é o que nos deixa, as vezes, dormir em paz. Para algumas coisas, de nada serve a culpa e o arrependimento. Em algumas situações, são inadiáveis. Mas na maioria das atitudes cotidianas, necessitamos aprender a conviver com os erros. Prolongaríamos equívocos, nos torturaríamos com a menor das resvaladas, caso não relevássemos pequenas intransigências.

Porém (sempre o porém), mesmo que possamos dormir mais tranqüilos, o hábito de sempre mascararmos as nossas atitudes acentua as nossas dificuldades. São sempre os dois lados da moeda que pesam. Afinal, se tem aquela outra sabedoria popular que prega que o certo é aprender com os nossos erros, como é então que podemos aprender alguma coisa enquanto estivermos negando a existência deles?

Dentro dessa constante justificativa para os nossos erros, ainda existem as pessoas que simplesmente não conseguem se desvencilhar das realidades paralelas que constroem. São casos extremos de necessidade de auto-afirmação, podendo causar uma avalanche de ilusões e discrepâncias irreais e incompatíveis com a vida do indivíduo que as cria.

A teoria da dissonância cognitiva de Festinger supera a simples menção ao ato de punir e recompensar. Coloca os seres humanos em situações de pensamento que extrapola essa simples relação da vida de pesar os prós e os contras. É nesse exercício de pensamento que o ser humano encontra uma nova forma de entender as suas próprias relações e o “peso líquido” de suas atitudes.

É importante que nunca deixemos de lado a capacidade de nos questionarmos, de assumir outras posições quando as antigas não nos são mais válidas. Mas é preciso manter a coerência. Escolhas, pensamentos e até mesmo convicções são mutáveis. Aprender a questionar todas as verdades absolutas, e a pensar nossas próprias atitudes, pode fazer com que a incoerência diminua e a nossa mente esteja sempre limpa.

Um feliz ano-novo à todos que acompanham a revista o Viés.

O RINGUE DA CONSCIÊNCIA, pelo viés de Nathália Costa

nathaliacosta@revistaovies.com

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