A ESQUINA DOS CONTRASTES

  Alguma coisa acontece no meu coração Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi Da dura poesia concreta de tuas esquinas Da deselegância discreta de tuas meninas Ainda não havia para mim Rita Lee A tua mais completa tradução Alguma coisa […]

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Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas

Ainda não havia para mim Rita Lee
A tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João

Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos mutantes

E foste um difícil começo
Afasto o que não conheço
E quem vende outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso

Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva

Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba
Mais possível novo quilombo de Zumbi
E os novos baianos passeiam na tua garoa
E novos baianos te podem curtir numa boa

Andando pelas calçadas sujas e quebradas do centro paulistano, cujo desenho imita o mapa do estado de São Paulo em um constante contraste preto-e-branco, chega-se ao famoso cruzamento das avenidas Ipiranga e São João.

O senhor aceita um jornal Primeiramão?

Um porteiro ronca na recepção de um dos muitos hotéis que se espalham entre os edifícios antigos que esperam por uma restauração. São oito da manhã e o céu cinza parece anunciar que a garoa de sempre está próxima. É dia 30 de dezembro, um daqueles dias nos quais todos os patrões já estão viajando há tempos, mas o povo pobre continua a levantar cedo e suar para levar uma ceia um pouco melhor para a família.

João, dois pão na chapa e um pingado!

Nos balcões da padaria que ocupa uma das esquinas, clientes se acotovelam à espera de seu café da manhã. Queijo minas com peito de peru. Mais um pingado. Uma vitamina. A cada pedido um sotaque diferente. De sandálias, dois homens caminham pelo cruzamento. Olham para a placa e logo resolvem tirar fotos. Acima da padaria, no mesmo prédio, poucas janelas abertas. Em uma delas, apenas uma placa: “SEX SHOP”.

7454 COHAB Educandário

8700 Terminal Campo Limpo

509J Terminal Princesa Isabel

408A Cardoso de Almeida

702P Pinheiros

Ônibus lotados, pintados das mais diversas cores e com os mais diversos destinos, tomam as ruas do centro da cidade. Outro contraste, dessa vez com o chamativo verde-limão dos telefones públicos, todos pichados e cheios de adesivos de prostitutas. O sol parece querer aparecer. O vendedor ambulante de óculos olha para cima, quase que rezando por vendas melhores nessa véspera de véspera de feriado. Mas o que o sol mostra é que grande parte do cinza do céu não são nuvens, e sim poluição, uma “feia fumaça que sobe” apagando quase tudo.

Adriane Galisteu está grávida!

Truffa 1 real!

Xerox!

Na banca de jornal onde se encontra tudo, parecem faltar justamente jornais. Ao lado, uma cabine de polícia vazia, com um Police escrito bem grande para turista ver, está posicionada de frente para um Citibank na outra esquina. Em cima do logo do banco, um relógio moderníssimo. Contraste é realmente o que não falta por ali.

“Não vou pedir dinheiro nem nada. Saí da prisão faz duas semanas.

Não roubo mais. Tenho AIDS. O senhor poderia ir ali no Extra?

Comprar o leite da minha filha? O Ninho de caixinha, é 3,15.”

A esquina continua sem policiamento. Pedintes andam rapidamente de um lado para o outro, com as mãos estendidas, sedentas por moedas. Mendigos dormem por todos os cantos e parecem ignorar o intenso barulho do trânsito. O Bar Brahma, que deu fama à esquina, começa a abrir as portas, por enquanto só para os empregados. Na calçada, seis fiscais de trânsito levam a mão à cabeça ao ver que é justamente o carro da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego, a empresa que cuida do trânsito em São Paulo), de número 0053, que está quebrado no meio da rua.

Leia Revista Mais Valia

Madrid Agora

Aluga-se ap

As paredes dos velhos prédios se não cobertas de pichações indecifráveis, estão repletas de papéis e propagandas coladas. De macacão vermelho, duas meninas seguem distribuindo gratuitamente os jornais de classificados, e a dizer “aceita um jornal Primeiramão, senhor?”. Elas só sairão de lá quando, exaustas, terminarem de distribuir um carrinho de jornais de mais de dois metros.

A polícia chega quando as mesas do bar já estão sendo montadas para o almoço. O carro da CET continua lá, no meio do caminho. Mais algumas horas e o trânsito se complicaria. A cada dia a hora do rush começa mais cedo nesse inferno sobre rodas que é São Paulo. O carro de número 0052 chega para ajudar. Em quinze minutos um carro da CET sai guinchado por outro.

Nego

Na camiseta de um pedestre, a bandeira da Paraíba. Na Casa da Mortadela o sotaque é outro, italiano. Seu Irineu Stabile está há 52 anos na “esquina do pecado”, como ele mesmo define a localização de sua famosa lanchonete. As mortadelas penduradas no teto chamam a atenção de quem passa pela rua. Quem entra conhece o chapeiro Raimundo, que logo oferece o tradicional lanche da casa: mortadela, queijo e vinagrete. Lá o barulho dos carros tem que competir com o da fritura, da mortandela e de quatro grandes calabresas.

O senhor aceita um jornal Primeiramão?

Essa loucura de cores, barulhos, poluição, gritos e sotaques é São Paulo. É “o avesso do avesso do avesso do avesso”. Essa é a maior definição da cidade que mais contrasta paisagens e vidas. E o cruzamento da Ipiranga com a São João é prova disso.

A ESQUINA DOS CONTRASTES, pelo viés de Mathias Rodrigues

mathiasrodrigues@revistaovies.com

Para ler mais reportagens acesse nosso Acervo.

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  • Fátima

    Adorei!Teremos uma história só da Casa da Mortadela?

  • Alice

    Parabéns!!! Interessante o contraste entre o viés poético e o Jornalístico.

  • Rondon de Castro

    Gostei, Mathias. Valeu mesmo.