“E ISSO É VIDA?”

O sol do meio-dia castigava quem se aventurasse ir muito longe da sombra naquele primeiro dia de 2010. À beira das estradas de terra, só se viam famílias reunidas em volta de árvores ou debaixo de telhados que as preservassem, pelo menos naquele dia, dos maltratos do astro rei. Essa é a vida que predomina […]

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O sol do meio-dia castigava quem se aventurasse ir muito longe da sombra naquele primeiro dia de 2010. À beira das estradas de terra, só se viam famílias reunidas em volta de árvores ou debaixo de telhados que as preservassem, pelo menos naquele dia, dos maltratos do astro rei. Essa é a vida que predomina na área rural de São Vicente do Sul: famílias que se reúnem para dividir a sombra enquanto não é hora de dividir também o sol.

O verde das árvores e dos pastos dá espaço para o marrom das cancelas que anunciam que ali começa outra propriedade. O meu destino eram duas toras altas que serviam de plataforma para uma tábua pintada à mão em branco: a Chácara da Cruzeira.

A casa é mais ao fundo, antes se deve passar por um caminho de pasto que acompanha uma horta onde crescem cebolas, bergamotas e abacaxis. Um poço d’água e se chega às taquareiras do quintal, onde dezesseis pessoas se amontoavam e esperavam o churrasco ficar pronto. A mais ou menos vinte quilômetros do centro da cidade, a Chácara da Cruzeira se localiza na Timbaúva. É lá que vô Selso e vó Grande moram há 41 anos e de onde não pretendem sair mesmo com as pressões das comodidades urbanas.

Córdola Maria Kumpfer Werlang, mais conhecida como vó Grande, tem 79 anos. Seus cabelos brancos, lisos e curtos escorrem como num pequeno capacete e protegem um rosto redondo que nunca cansa de sorrir. Vó Grande tem estatura média e poderia muito bem ser a esposa do Papai Noel. Ela nasceu no distrito de Linha Francesa, no município de Barão, no nordeste do Rio Grande do Sul. Descendente de alemães, vó Grande me conta que seu nome de solteira – Kumpfer – vem da Inglaterra e que a inserção dele na família nunca foi melhor explicada do que pela hipótese de que sua tataravó tenha se encantado por um britânico numa das paradas do navio entre a Alemanha e o Brasil.

Selso Pedro Werlang tem 85 anos e nasceu em Tupandi, na região metropolitana de Porto Alegre. É alto e tem todos os cabelos brancos. A pele alva foi castigada pelo sol da lavoura. Vô Selso sofre com o reumatismo, cada um de seus cotovelos viravam duas grandes bolas de cartilagem. Ele carrega sempre consigo sua bengala lustrada pelo uso, cujo cabo se curva para dentro, coisa que só se passa na mata, de onde a bengala foi tirada a golpes de facão. Toda sua família tem origem alemã e, até os seus vinte anos, mal entendia a língua que ele chama ainda hoje de “brasileiro”. Vô Selso fala o dialeto Riograndesener Hünsruck, do sul da Alemanha. Ele ensaia uma conversa comigo em alemão – ele e o dialeto que domina há 85 anos e eu com o meu alemão de academia de quatro anos atrás. Quedamo-nos nas conversas simples: o clima, a comida, como dizer isto ou aquilo em alto alemão, como é conhecida a língua oficial da Alemanha.

Em 1952, vó Grande passou no concurso para professora do estado e foi designada para São Vicente do Sul. Veio noiva de vô Selso em 1º de abril daquele ano. Morou sozinha por seis meses e, em outubro do mesmo, casou-se em Montenegro. Vô Selso precisava acompanhar a esposa. Ela, professora e ele, agricultor. As dificuldades os fizeram morar durante quinze anos na escola em que vó Grande lecionava. Os cinco filhos do casal cresceram lá mesmo até que a família pudesse comprar as terras que viravam a Chácara da Cruzeira.

O nome da chácara veio da pequena surpresa que havia naquelas terras: uma enorme população de cobras cruzeira, outro nome para jararaca, venenosas e temidas nos pampas. “Uma vez”, como se contam as histórias por aqui, uma delas se enroscou nas bombachas de vô Selso e, já livre do susto, quando vó Grande mergulhou o tecido na tanque de lavar, o veneno se misturou à água, agora amarela. Um dos muitos incidentes que devem ter acontecido com as víboras que já desapareceram da chácara. Assim como desapareceram as tais pombas-carijó, que vô Selso credita ao veneno posto nas lavouras com o intuito de matar os pássaros. Sumiram também. Invadiram os bugios, enxotados das matas pelas plantações de arroz da cidade e pelas pastagens dadas ao gado que virará bife. As coisas já não são como antes. “As coisas estão muito mudadas” diria qualquer avô.

Hora do almoço. Uma grande mesa de tábuas posta ao vento embaixo das taquareiras. Carne de gado e carne de porco. Arroz, cucas (do alemão Kuchen, que significa bolo), manga, abacaxi, saladas e as conservas, as especialidades germânicas. Mais de uma hora para todo o ritual do primeiro almoço do novo ano. Garrafas de sidra, cremeiras de sagu, tortas e sorvete caseiro. São quase duas e meia da tarde e vô Selso anuncia o seu brinde em duas versões: uma em alemão e uma em “brasileiro”. Um brinde ao ano novo e, se em 2011, ele ainda estivesse aqui, convidava todos para comemorar seu 86º aniversário. Depois disso, levantou-se aos trancos com ajuda de sua bengala e avisou que iria schlafen, dormir.

Duas horas de sesta para vô Selso. Tempo suficiente para os homens se isolarem das mulheres. Os homens discutem política; as mulheres, dietas e receitas. Quatro e meia da tarde e vô Selso volta às taquareiras. Suas mãos sempre repousando sobre a bengala. O calor da tarde, que agora vai, aos poucos, se dissipando, dá a vó Grande uma vontade de falar. Eu me sento perto dela e ela me explica toda a história de sua família e dos tempos em que seus filhos eram pequenos. Contou-me sobre o nome inglês, sobre a tataravó que tinha uma Glasfabrik (fábrica de vidro) em Berlim, sobre a escola em que ela trabalhou por toda a vida, sobre o orgulho que tem dos filhos. João Pedro, Gilmar José, Canrobert, Mauro e Ana Valkíria são os filhos. Fora Gilmar, todos os outros são professores, talvez influência da mãe e de seu fervor em educá-los bem. Todos têm curso superior, Mauro é doutor em Geologia e Canrobert é o atual diretor do Colégio Politécnico da UFSM.

No mormaço da tarde e no ócio do feriado, comecei a andar pela chácara. Flores, cestas, galinheiros, galpões, pilhas de lenha. Uma horta na frente de casa. De repente, aquele lugar parecia imenso para um casal idoso dar conta – e era. Nas terras que escapavam às margens da casa, o mato já tomava seu lugar. O único filho que ainda mora na cidade não dá conta de ser professor, administrar uma loja de peças de bicicleta e ainda manter a chácara pelos pais, que, claramente, não tem mais como fazer todo o serviço sozinhos.

Vinte anos atrás, vó Grande teve uma esquemia e, na espera por dias ruins, os filhos decidiram levar os pais para o centro – vô Selso e vó Grande se recusaram a ir. E recusam até hoje e recusarão até quando possível. João Pedro, o mais velho, diz que não sabe se eles teriam “durado” muito tempo na cidade. Talvez não tivessem mesmo. Afinal, não é só de doença da carne que se morre.

Quinze minutos conversando com vô Selso e vó Grande são suficientes para dar nostalgia ao mais moderno dos cosmopolitas. Quarenta e um anos morando no mesmo lugar, trabalhando por ele, dando o suor e literalmente sangrando por ele. Cinco filhos que se alimentaram da comida que ali cresceu. Não parece a decisão mais prática já que a vinte minutos dali se encontra uma cidade pequena, mas onde o mercado, o hospital e as farmácias estão a passos, enquanto lá fora estão a galopes de distância. O fogão à lenha, a patente abandonada, as cestas onde as galinhas botam os ovos, as pilhas de lenha. Fora o espaço de sobra e a liberdade que vô Selso e vó Grande têm ali, há também a história de um casal que junto construiu toda sua vida e a vida de outras cinco pessoas. Essas histórias são concretizadas naquelas terras. A Chácara da Cruzeira é mais do que uma propriedade, são anos de sonhos, de esperança e de muito trabalho. Não há lógica capitalista que os faça sair dali e não há promessa de praticidade que os faça desistir das dificuldades de se ter mais de setenta anos e estar a quilômetros de cuidados.

Eles precisam mais do que cuidados médicos. Eles precisam um do outro e, juntos, precisam daquela chácara. Quando volto para a roda da conversa, o filho mais velho está a discursar sobre a vida que seus pais escolheram. Ele estende os braços para os lados e contrai os ombros a apontar para os arredores como se com saudade dali. Ele narra um verão seu em que ficou horas preso no carro rumo ao litoral gaúcho. Engarrafamentos,  pouco espaço, poluição e violência. Ele termina: “e isso é vida?” Para vô Selso e vó Grande nunca foi nem nunca será.

Veja uma apresentação com as outras fotos da reportagem clicando aqui.

E ISSO É VIDA?, pelo viés de Gianlluca Simi

gianllucasimi@revistaovies.com

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  • lorena coll

    Gostei muito de tua reportagem Gian, é tão comum vermos esses casais idosos que resistem a vir morar no caos urbano, preferem a simplicidade do contato com a natureza e a calma do campo! Quem somos nós para contestar? acredito mesmo que eles estão certos,por mais difícil que pareça a vida deles para nós, acostumados com o conforto e com tudo que necessitamos por perto, às custas de nossa saúde ás vezes ,porque vivemos correndo!
    Parabéns !!!

  • Naiele

    Meu afilhadinho… agora passou um filme em minha cabeça lendo essa reportagem!
    Infelizmente meu vôzinho não aguardo 2011 para juntos comemorarmos os 86 anos dele.
    Ele vai dxar saudades a mim, aos meus primos, tios, minha vózinha e tmb a vc… o meu primo por parte paterna que meu avô materno te adotou como neto, pelo carinho, admiração e amor que ele tinha por ti.
    Te amoooo