INTOXICAÇÃO

Dor de cabeça e mal-estar A região sul do Brasil (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná) é responsável por cerca de 90% da produção de fumo nacional. O Brasil é o segundo maior produtor e líder na exportação. Nas regiões desse cultivo, percebeu-se um alto índice de suicídios, então, pesquisadores tentaram descobrir a […]

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Dor de cabeça e mal-estar

A região sul do Brasil (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná) é responsável por cerca de 90% da produção de fumo nacional. O Brasil é o segundo maior produtor e líder na exportação.

Nas regiões desse cultivo, percebeu-se um alto índice de suicídios, então, pesquisadores tentaram descobrir a relação com as grandes quantidades de agrotóxicos a que as famílias de agricultores ficavam expostas. Naturalmente, devido ao caráter subjetivo do suicídio, não se chegou a conclusão alguma, porém, esteve-se muito perto através de constatações bastante realistas. Além dos adultos, crianças e jovens dessa região tomavam medicamentos antidepressivos e a idéia foi uma: o contato manual com os agrotóxicos os fazia adoecer, ter uma depressão irreversível.

Os inseticidas organofosforados foram usados na década de 50 em substituição dos organoclorados e estão em grandes quantias nas lavouras de fumo. Podem ser absorvidos pela pele, pelo ar e pelo aparelho gastro-intestinal e fazem com que haja acúmulo de acetilcolina, pois inibem a acetilcolenisterase, que é a responsável por decompor a acetilcolina e enviar um impulso nervoso de um neurônio ao outro. A ingestão de grandes quantias causa diminuição da visão, dor de cabeça, tosse, vômitos e o acúmulo de acetilcolina pode levar a morte. Essa relação, depressão e organofosforados, não é comprovada, porém começou a ser bastante estudada a partir da década de 90.

O engenheiro agrônomo Sebastião Pinheiro foi um dos estudiosos em 1996 na região de Venâncio Aires/RS e em entrevista a revista IHU Online falou do que chama “máfia da indústria do fumo” e sobre os demais problemas causados pelos agrotóxicos. A mesma empresa que vende agrotóxicos, vende medicamentos. Segundo ele “não é possível, através de remédios, fazer com que toda uma população fique doente, mas é fácil criar uma agricultura deficiente”. Parece um grande complô contra humanidade, principalmente se nos certificarmos disso vendo empresas como a Bayer. A verdade é que isso envolve testes em crianças e países em desenvolvimento que, como o Brasil, são o alvo dos grandões dos agrotóxicos não somente para lavouras de fumo, mas também para outras como as de tomate, onde a depressão aparece devido a necessidade intensa de agrotóxico na planta. Tomate e fumo são cultivos delicados.

Além da depressão que veio como um alerta bastante barulhento, uma quantia acima da permitida (que normalmente é violada para nós, consumidores de países em desenvolvimento) pode originar câncer, complicações cardíacas, problemas no aparelho digestivo, disfunção hormonal e distúrbios mentais.

Toxic

As grandes indústrias européias e estadunidenses são as maiores produtoras e exportadoras de agrotóxicos. Porém, quem compra é quem usa e quem usa é quem planta e quem planta são os países em desenvolvimento que sofrem com 13 vezes mais com problemas de intoxicação do que os Estados Unidos, por exemplo.

No país de origem, esses agrotóxicos sofrem restrições de uso e o comércio é quase inviável. Comecemos com um exemplo, o herbicida Alaclor (usado em lavouras de soja, algodão, amendoim…) foi banido dos Estados Unidos por causar câncer em animais de laboratório. A partir de 1992 a exportação aumentos seis vezes para Índia, Tailândia, Singapura, Chile, Filipinas, Bélgica e Brasil. O nosso país, segundo a Agrow Reports, é responsável por 55% do mercado latino-americano de agroquímicos.

E citando a Índia, lembra-se do acidente de Bhopal, em 1984, onde o gás metil isocianato e outros gases letais vazaram e intoxicaram 15 mil pessoas. A empresa responsável era a Union Carbide Corporation, que possuía uma fábrica de agrotóxicos e abandonou tudo deixando para trás grandes quantias de veneno. Os moradores ficaram com a água contaminada e com gerações que nasceram sem o globo ocular.

Após esse grave acidente a Dow Chemicals comprou a Carbide e, então, apesar de levar junto a reponsabilidade pelo ocorrido, ignoravam o fato. Em 1989 o acordo entre a Carbide e o Governo Indiano ficou em 470 milhões pelos que estavam invalidados, sendo que os dados de base para o acordo estimavam apenas metade das mortes realmente ocorridas nas casas, nas ruas e nos pronto-socorros.

No Brasil, produtores de café do Espírito Santo fecharam negócio com Japoneses e exportaram uma grande quantia. Chegando lá o café foi analisado e constatado um nível elevado de agrotóxicos no produto. Como resposta o café retornou ao Brasil e serviu aos brasileiros.

Disfunção Hormonal e DDT – Dicloro-Difenil-Tricloroetano

Além de servir para o controle de algumas doenças, o DDT é também um pesticida. Na década de 70, foi proibido em muitos países, no entanto, essa proibição só foi efetuada legalmente no Brasil no ano passado. Isso aconteceu porque o pesticida, segundo estudos, é causador de câncer e é um produto com efeitos estrogênicos (estrogênio, hormônio feminino).

Os efeitos estrogênicos estão ligados ao sistema endócrino (cérebro, órgãos reprodutivos, glândulas tireóide, pâncreas) responsável pelos hormônios. Além dos pesticidas DDT, metoxicloro e PCBs também são mimetizadores de hormônio, quer dizer, são compostos com atividade estrogênica que causam redução na contagem de esperma, defeito no sistema reprodutivo, aumento do risco da contração de câncer de mama, testículos e próstatas.

Uma pesquisa realizada por ingleses colocou trutas em uma planta de tratamento de esgoto doméstico e industrial e os peixes machos passaram a produzir uma proteína normalmente produzida apenas pelas fêmeas. O estrogênio natural estava na urina dos seres humanos e se encontrava em quantidade suficiente para afetar os peixes.

Um pesquisador estadunidense (observem o eixo das pesquisas, sendo que no hemisfério sul não existe ninguém capacitado para pesquisar a fundo o motivo da depressão dos agricultores nas plantações de fumo. Por que não há interesse?) observou jacarés no lago Apopka contaminados com grandes quantias de DDT; eles tinham órgãos reprodutores parcialmente desenvolvidos. A morte dos filhotes era de 50%, número acima da média, causado pelo DDt ou p,p’- DDE-produto do metabolismo do DDT em um organismo animal. O DDT e o p,p’ – DDE atravessam a placenta e causam desequilíbrio hormonal.

Segundo Sebastião Pinheiro na entrevista a IHU Online, no oceano estão depositadas 120 milhões de toneladas de DDT, o maior causador de câncer de próstata e de mama. Quanto maior a quantidade de DDT no corpo, maior a probabilidade, tanto em mulheres como em homens, de se desenvolver o câncer. Pesquisas mostram o aumento do número de mulheres com menos de cinqüenta anos e homens com câncer de mama nos últimos anos.

O número de contaminação é maior em países em desenvolvimento, na Índia o consumo do DDT cresce 6% ao ano e dos 85% de alimentos contaminados 75% estão pelo DDT, quadro semelhante ao da China.

Testes

Grande parte dos agrotóxicos comercializados é bastante antiga, foram desenvolvidos em uma época onde eram feitas menos exigências, hoje sabe-se que muitos deles apresentam riscos consideráveis.

A maior empresa de agrotóxicos está na Suíça, Ciba-Geigy, e nos anos 80 chegou a fazer testes em crianças latino-americanas, sendo que o agrotóxico testado era comprovadamente cancerígeno. Encontrar qualquer material sobre isso é difícil, isso foi denunciado e o que a empresa fez foi não timbrar mais os papéis onde as pesquisas ficavam comprovadas. Silenciosamente, assim eles agem, dosagem curta e constante em tempo prolongado.

Existem movimentos que são contra o uso de animais para que essas pesquisas se efetuem, porém, como fala Sebastião Pinheiro (para a revista IHU Online) qual é a melhor opção, continuar usando crianças latino-americanas?

Os testes de pesticidas para avaliar suas propriedades mutagênicas e carcinogênicas são feitos, normalmente, em animais como hamsters, coelhos e ratos, pois macacos e cães elevam os custos e os cuidados.

Possibilidades

O controle biológico é uma alternativa. Isso quer dizer agroecologia, usar um predador que ataque o que está prejudicando a plantação. Esse método, ao contrário dos agrotóxicos, não prejudica o meio ambiente (contaminação dos rios, mudança no DNA de animais) ou faz adoecer o homem. Apesar de não ser uma prática habitual no Brasil, funcionou com o controle da lagarta da soja (Anticarsia gemmatallis) por meio do Baculovirus anticarsia. Essa técnica foi implantada em 1983 e a partir daí foi utilizada em mais de 10 milhões de hectares com ótima resposta.

Esse método é pouco utilizado no Brasil, primeiramente pela forte cultura de usar produtos químicos e a facilidade que oferecem. O controle biológico necessita de tempo e preparo e ainda é pouco conhecido e desenvolvido; a formação de profissionais na área da agronomia é carente nesse aspecto e também não é rentável para os grandes fabricantes, ou vão sair vendendo joaninhas? É, uma joaninha chega a comer 50 pulgões por dia.

Outro método é a homeopatia. Esse necessita de estudo do solo e da planta e o não preconceito do agricultor que gasta bem menos do que utilizando agrotóxicos. A homeopatia não mata seres vivos para o controle dos outros, ela harmoniza a convivência deles através de diluição e dinamização.

O problema para a mudança é cultural e econômico, basicamente. Não por elevar os custos, mas, como rege o capitalismo, qualquer inovação custa mais caro. Existe uma grande probabilidade de produtos vindos de um cultivo mais sadio custarem mais e servirem a mesa de quem tem dinheiro como aconteceu com os produtos orgânicos, no entanto, deve-se estudar. A onda de ecologicamente correto tem a ver com isso, mas apenas em partes; é uma questão simples de desenvolvimento de melhores condições de vida e possivelmente mais igualitárias. Os agrotóxicos são uma cultura recente e, se me permitirem os grandões, deve ser controlado em nossas correntes sanguíneas e correntezas.

Fontes:

Entrevista com Sebastião Pinheiro

Entrevista com Pedro Faé

Wyngarden & Smith. Tratado de medicina interna. Rio de Janeiro. Ed. Guanabara. 1990. vol. 1 e vol. 2

BARBOSA, Luis Cláudio de Almeida. Os pesticidas, o homem e o meio ambiente. Minhas Gerais. Ed. UFV, 2004.

GRISOLIA, César Koppe. Agrotóxicos: mutações, câncer e reprodução. Ed. UnB, 2005


INTOXICAÇÃO, pelo viés de Caren Rhoden

carenrhoden@revistaovies.com

Para ler mais reportagens acesse nosso Acervo.

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  • http://www.usinacomunica.wordpress.com Anderson

    Muito bom… bastante interessante! Essa Caren é foda!
    sauhhsauash abração galera aí… ótima revista!

  • quemsera

    Bah, Caren… realmente mutio boa matéria.
    E realmente, é muito complicado e muito complexa qualquer possível solução pra isso. Sobretudo pela razão de que, como tu mesma disse, uma mudança econômica é interdependente à uma mudança cultural…
    Aliás, aquela propaganda da aspirina é do mesmo formato de uma propaganda anti-tabagista, só mudar o objeto dela e colocar uma negação… no final fica a mesma coisa.
    Novamente, parabéns.. ;]