O VAGAMUNDO E O RETRATISTA

Aviões, carros, trens, barcos e pés. Os meios de locomoção são muitos e mudaram muito, mas todos têm o mesmo intuito: sair daqui e ir para lá. A raça humana surgiu há 2,5 milhões de anos; há 10.000, desenvolveu a agricultura e se quedou num mesmo lugar. Das plantações, vieram as vilas; das vilas, as […]

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Aviões, carros, trens, barcos e pés. Os meios de locomoção são muitos e mudaram muito, mas todos têm o mesmo intuito: sair daqui e ir para lá. A raça humana surgiu há 2,5 milhões de anos; há 10.000, desenvolveu a agricultura e se quedou num mesmo lugar. Das plantações, vieram as vilas; das vilas, as cidades e destas, as megalópoles. Mesmo que não precisemos mais ir de terra em terra em busca de comida, não resistimos aos nossos impulsos nômades, que nos habitam por dois milhões quatrocentos e noventa mil anos a mais do que o sedentarismo: ainda partimos!
Em tempos de férias, as cidades do interior se esvaziam e veem sua gente correr paras as mesmas praias e para as mesmas atrações de sempre. A tal da globalização e seus bombardeios industriais encurtaram a distância que nossa mente percorre. As escalas já não mais as mesmas. Viajamos mais, temos mais acesso a fotos, a vídeos e a textos sobre os lugares, mas nos tornamos cada vez um pouco mais turistas e um tanto menos viajantes. Vemos mais lugares, conhecemos mais pessoas de outros pagos. Vamos de excursão e voltamos em grupo. Fotos, muitas fotos. Vídeos, muitos vídeos. Na memória – o mais importante para o viajante – não se queda nada: foram e voltaram – turistas, ainda o são.
O que leva alguém a abandonar por certo período, determinado ou não, sua casa, sua família, suas comodidades e certezas já cristalizadas num contexto que lhe é pronto? Michel Onfray, autor do livro Teoria da Viagem, diz que o primeiro impulso é a curiosidade. Quem são os curiosos? Quem sempre olhou franzido para o ambiente extrauterino que lhe foi imposto ao nascer: família pronta, história pronta, habitação pronta. O viajante é curioso, pergunta-se sobre a vida dos outros, naqueles outros lugares. Pelos livros, pelos atlas, pelas fotos e pelos relatos, pinta um quadro a tinta onírica e não suporta ter que continuar esperando pelo momento de ir, que, pode-ser nunca venha, mas, na sua mente, está sempre próximo.
O curioso se inquieta, se retoça, não se suporta enquanto não for. Ir aonde? Talvez sem destino, como Jack Kerouac, ou talvez com um plano de viagem muito bem estabelecido, como Luís Nachbin. No entanto, nem mesmo o que sabe para onde vai o sabe de verdade. Seus planos são construidos de longe, inocentemente. Podem ruir ou se solidificar ao contato com o quadro original. Eis outros dois vértices desse polígono: a inocência e as expectativas. O mesmo Michel Onfray de há pouco diz que o viajante é pura inocência e pura expectativa. Ele espera ver coisas, espera que seja assim, espera que faça isso…e, então, ele lá chega e, como bom viajante que é, deixa-se ser engolido pelo lugar. Um choque! De repente, foram-se seus planos, os butiás vão ao chão. Fica a inocência que só o viajante tem em aceitar o destino final como ele é e não como era pintado. O turista é uma pedra bruta, joga-se às ruas do roteiro e raspa suas expectativas pelo chão – ele não vê onde está, ele vê o que quer. Nunca se é só um: turista ou viajante. Todo viajante tem um quê de turista – isso é certo, mas a recíproca não é necessariamente verdadeira.
A cidade que mais recebe pessoas de fora é a capital da França, Paris. A mesma Paris de Santos Dumont, de Ernest Hemingway, de Honoré de Balzac e de milhares de outros. A cidade-luz, a meca da boemia, dos artistas e da alegira de viver. Paris jorra história, sentimento e vida, mas quem chega de excursão, rodeado de conhecidos e faz o roteiro torre-museu só consegue ver a cidade dos postais. Estar em Paris é se permitir ver a cidade, como ela amanhece e como ela dorme; quem anda na rua, onde param, como se dizem bom-dia e como passam um domingo de monotonia. Uma Paris não exclui a outra, mas a dos turistas é um mero compêndio para um lugar que deve continuar a viver, com ou sem turistas. Como em Paris é em todo lugar. O turista áspero e bruto estupra as ruas de qualquer cidade, seja de Londres, de Porto Alegre ou da Mata. O turista veio dar uma volta, por isso seu nome (do francês tour). O viajante quer ser de lá, mesmo que só por um tempo.
Sozinho ou acompanhado? Quem viaja solo é vítima do medo da chegada solitária. “Eu, sozinho, saí de lá estou indo para acolá, onde eu não conheço ninguém, onde eu não conheço nada, onde eu não sei como as coisas funcionam, onde eu não tenho ninguém a quem recorrer”. O viajante solitário é um sofredor calado. Ele está no avião, no barco ou no que for, sentado ao lado de um casal que está de férias e já tem tudo planejado: roteiro, hotel, passagens de volta. O viajante de ida é angústia e medo.
Ver que, de repente, tudo aquilo em meio a que se viveu está longe e pouco se sabe pelo que é concreto ao momento é uma brecha ao suicídio figurado. Nós nos construímos com base nos outros: nos inspiramos nos pais, nos avós, nos colegas, nos amigos. Tudo pronto já nos espera: crenças, valores, sonhos e ideais. Num golpe, não há mais realidade e nada mais faz sentido. O viajante sempre se perde na chegadas, não se conhece, não sabe quem é, não sabe para quê existe. A viagem é, então, a oportunidade de destruição e reconstrução. Por mais parecidos que possamos estar nos tornando, só o fato de a geografia ser diferente é um abismo – e a geografia é algo que a globalização nunca poderá mudar. Para sobreviver, para matar a curiosidade que o levou até lá e para degustar desse lugar é preciso se livrar de todo o eu que o cercava no seu habitat natural. Nada parece ser igual. É preciso se auto-destruir. Feito isso, o viajante está livre para mergulhar no mar de cores, sons, aromas e visões cujas existências o levaram a desejar estar ali. Repintar a realidade, reconstruir o eu. Enxergar num lugar distante, pode-ser pela primeira vez, a si próprio.
É hora de ir embora. A essa altura, o turista já encheu vários cartões de memória com fotos e vídeos, já gastou fontes em presentes tão originais quanto ele próprio e já aprontou as malas. O viajante, enquanto isso, se despede. Ele não quer voltar, mas deseja voltar. Ele é um muro de incerteza. Precisa voltar pelos pilares recém destruídos que deixou para trás. O viajante se despede, mas nunca diz adeus. Ele tem tudo guardado na memória. Mesmo que nunca mais ele ali volte, aquele lugar sempre estará com ele.
A volta é a serenidade de quem já esteve lá. Não há mais expectativas, há memórias. Dúvidas, esperanças e desespero acompanham quem vem de encontro e vai. O que volta já sabe como é. O viajante que volta é um quadro pintado de emoções, paisagens, rostos e sons que o acompanharão para a vida. Mais perto, mais perto, mais perto, chegou! De novo e de repente, o lá já não está ao alcance dos olhos, voltou a ser além do horizonte. O viajante voltou ao lugar de antes, mas voltou diferente. Pegou tudo que o cercava em casa, quebrou tudo em cacos, derreteu o vidro e o remoldou, agora com as mãos de quem já viu coisa diferente.
Se se muda tanto, por que há de se voltar? A viagem sem volta é moradia, está fadada à rotina e à mesma cristalização que deu origem à curiosidade que soprou o viajante mundo afora. Parar significa recomeçar a endurecer. Que se endureça num lugar bom então! Sim, o viajante só parará quando ele não souber nem descrever o lugar que, então, saberá ser seu. Afinal, se todos viajassem, viajariam para onde? O viajante volta para “casa” agora porque, queira ou não, é filho de sua terra e com ela tem laços que nunca perderá. É hora de organizar a memória: reviver tudo de novo, contar aos outros, relatar em silêncio a si mesmo. O turista mostra as fotos e o viajante compartilha sensações. O turista prepara o próximo pacote de férias e o viajante…não planeja nada, ele só fica curiosoal.
“Nada se compara à vida nova que uma pessoa que reflete experimenta quando observa uma terra desconhecida. Apesar de eu ainda ser sempre eu mesmo, acredito que fui mudado até a medula de meus ossos”. (Johann Wolfgang Goethe)

O VAGAMUNDO E O RETRATISTA, pelo viés de Gianlluca Simi

gianllucasimi@revistaovies.com

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  • Rondon de Castro

    Giann, creio que o problema é pensarmos a relação que temos com as viagens, ou a vivência de novas experiências de vida. Afinal, porquê – diabos – viajamos. Conhecer novas culturas, a própria cultura. Qual a razão? Ao meu ver, viajar é tal como ler um livro, qualquer um… Queremos o quê com ele? Aprender? O quê que se aprende com um livro? Na verdade, não lemos um livro para a vida, mas nos preparamos exatamente para a leitura. Se não estivermos preparados para o livro e procurarmos nas linhas aquilo que fará nossas experiências de vida serem sistematizadas nas páginas, de nada nos adianta… já que não admitimos em nosso conhecimento. Por isso, o conhecimento é cadenciado e um livro que você lê aos 15 tem entedimentos diversos aos 30, 40 e 50.
    Se levarmos em conta e transferirmos o interesse pelas viagens – que ao meu ver, significa adquirir conhecimento – veremos que o processo é o mesmo, até mesmo o literário. Quem viaja pensando que vai “conhecer” , ter cultura, descobre apenas que passeiou por lugares diferentes. Por osmose, nenhum ser humano aprende nada…de que adianta ver o quadro da Gioconda? Nada, se a obra de Leonardo da Vinci não for conhecida. Tal qual um livro. Somente se agrega conhecimento quando se prepara para ele. Que o diga Machado de Assis, nosso escritor maior…ele nunca saiu dos arredores do Rio de Janeiro e, no entanto, seus livros são magníficos documentos de uma época. E o Kerouac, que citou, o que são seus livros? São relatos de experiências vividas e construídas em estradas, vadiagem etc…devemos entender sua literatura não como estilo literário, mas como a sistematização de uma procura pessoal, do certo, do bem, do belo, da beleza. São os elementos que buscamos na nossa trajetória de vida.
    As facilidades que temos em viajar, de levar nossas carcaças paraqualquer canto do mundo não é sinal inequívoco de conhecimento…assim como a digestão árida de textos acadêmicos (meras compilações e interpretações parciais de textos clássicos, quando muito), não transforma ninguém em pesquisador (se bem que não é o conteúdo de muito pilantra não é levado em conta pela Capes, Cnpq e, claro, pelo MEC). Conhecimento, em viagens, livros e estudos, significa esforço de correr atrás do novo para endossar ou destruir o entendimento velho. E isso, nenhuma agência de turismo pode oferecer.