RECONSTRUINDO BABEL

6 E o Senhor  disse: “Eles constituem apenas um povo e falam uma única língua. Se principiaram desta maneira, coisa nenhuma os impedirá, de futuro, de realizarem todos os seus projetos. 7 Vamos, pois, descer e confundir de tal modo a linguagem deles que não consigam compreender-se uns aos outros.” (Gênesis – 11: 6 – […]

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6 E o Senhor  disse: “Eles constituem apenas um povo e falam uma única língua. Se principiaram desta maneira, coisa nenhuma os impedirá, de futuro, de realizarem todos os seus projetos.
7 Vamos, pois, descer e confundir de tal modo a linguagem deles que não consigam compreender-se uns aos outros.”

(Gênesis – 11: 6 – 7)

Crenças à parte, você já pensou em quanto conteúdo interessantíssimo é produzido em todo o mundo e que você jamais terá acesso, pois nunca será traduzido? Dá pra se ter uma idéia se pensarmos que existem quase 7.000 idiomas falados em todo o mundo, segundo o compêndio Ethnologue, a reunião dos conhecimentos sobre o assunto. Claro que muitas delas são faladas por pequenas populações nativas, e que talvez não produzam o tipo de conteúdo que você ache interessante. Mas então pensemos que só nos EUA existe uma estimativa de que 200.000 livros sejam lançados por ano. Só nos EUA! Por ano! Quantos chegarão traduzidos ao público brasileiro? Pouquíssimos. Pense no outro lado, também: se já é difícil publicar um livro no Brasil, imagine traduzí-lo e lançá-lo no mercado internacional! Projetando isso em nível global podemos ter uma vaga idéia do número astronômico de obras que jamais conheceremos. Jamais haverá tradutores pra tamanha produção.

As obras que serão traduzidas são selecionadas de várias formas. Algumas editoras as escolhem e mandam para os estúdios de tradução, um serviço terceirizado. Outras têm seus próprios tradutores, que muitas vezes sugerem as obras a serem traduzidas. Quanto maior o gabarito desse, mais chances terá de traduzir apenas aquilo que lhe interessa.

Augusto, Reinhard e Johnny

Augusto Paim, jornalista cultural formado pela UFSM, virou tradutor há pouco tempo. Seu primeiro trabalho nessa área foi traduzir do alemão para o português os quadrinhos “Johnny Cash – uma biografia”, de Reinhard Kleist, que conta partes menos conhecidas da vida do cantor estadunidense, pouco tratadas até em filmes e documentários feitos sobre o artista. Augusto foi para a Alemanha em 2008 trabalhando como au pair, ou seja, cuidando da administração doméstica de uma família local para financiar os estudos no país. Seu primeiro contato com a obra que viria a traduzir tempos depois se deu ao visitar o ateliê do quadrinista Mawil, que esse dividia com mais três colegas, entre eles Reinhard, que Augusto não chegou a conhecer enquanto estava na Alemanha. Mawil foi quem lhe apresentou a biografia de Johnny Cash feita pelo colega, que tinha ganhado o prêmio de melhor quadrinho alemão de 2008.

Capa de "Johnny Cash - uma biografia" (imagem de divulgação)

Na volta ao Brasil, Paim começou a trabalhar na promoção de um evento sobre quadrinhos de não-ficção, junto ao Instituto Goethe, uma instituição sem fins lucrativos que tem como objetivo divulgar a cultura e a língua alemãs, e convidou Reinhard Kleist como palestrante, já que, além de “Johnny Cash – uma biografia”, esse havia contribuído em uma biografia em quadrinhos sobre Elvis Presley e estava trabalhando em cima de uma sobre Fidel Castro. Quando um amigo de Augusto, que trabalhava numa editora nova, pediu sugestões de títulos alemães que poderiam ser publicados pela editora, o jornalista pensou logo na história em quadrinhos de Cash feita por Kleist, aproveitando que esse viria ao Brasil para o evento do Instituto Goethe. E foi assim que Augusto se viu, de repente, como tradutor.

Nesse trabalho Paim pôde contar com a ajuda do próprio Reinhard, que através de e-mails esclarecia quaisquer dúvidas que surgissem sobre a obra. A tradução durou o curto espaço de tempo de três semanas, nas quais o tradutor se dedicou completamente ao exaustivo trabalho, visto que o lançamento deveria ocorrer nos dias em que o quadrinhista estaria no Brasil. E, embora tivesse até visitado o estúdio em que Reinhard trabalhava, na Alemanha, Augusto só o conheceu no evento no Rio de Janeiro.

A editora que publicou “Johnny Cash – uma biografia” adotou uma forma de remuneração diferente das demais do mercado editorial. Augusto é reconhecido como co-autor (o que ele discorda, pois não acha que seu trabalho seja equiparável ao do criador da obra), e como tal recebe uma porcentagem sobre as vendas, tal como o autor.

Direitos autorais e remuneração

Isso não é o que acontece com a maioria dos tradutores. Geralmente o profissional recebe por número de laudas ou de palavras e cede os direitos autorais que lhe competem, não precisando, logo, se preocupar com a vendagem da obra.

Mas um caso recente que foi parar na justiça brasileira levantou questionamentos sobre esse tipo de remuneração. Lenita Esteves, tradutora profissional e professora da USP, realizou a tradução da obra “O Senhor dos Anéis”, de J. R. R. Tolkien, em 1994. Os termos foram semelhantes à maioria dos demais contratos do tipo: o pagamento se dava pela empreitada, pelo número de laudas. Porém o sucesso que a obra alcançou após os filmes hollywoodianos baseados nos livros fez com que Lenita questionasse se era justo o pagamento que recebia e entrasse com um processo judicial, visto que a obra teve várias reimpressões e ela ficou de fora dos grandes lucros que a editora teve com o sucesso inesperado.

Na mesma Alemanha de Reinhard Kleist, um processo judicial parecido com o movido por Lenita mudou as leis que regulam a remuneração da profissão. Os tradutores literários têm direito a uma remuneração por laudas traduzidas e, além disso, um porcentual sobre os lucros líquidos (0,8% para livros de capa dura e 0,4% para os de brochura.), se esta alcançar mais de 5.000 exemplares vendidos. O que impede que o Brasil crie uma lei semelhante à alemã é que lá não é permitida a cessão dos direitos autorais, que estão quase sempre presentes nos contratos dos tradutores com as editoras brasileiras, prática contra a qual o SINTRA (Sindicato Nacional dos Tradutores) se posiciona.

Enquanto essa questão é debatida, o Sindicato sugere uma tabela de preços para que os profissionais se balizem. Nela recomenda-se que o valor cobrado seja de R$ 0,24 por palavra ou R$ 24,00 por lauda (com cerca de 2.100 caracteres). Quando o caso é de se passar o texto do português para uma língua estrangeira sugere-se que seja cobrado R$ 0,32 por palavra. (Esse texto, se passado para o inglês, por exemplo, custaria aproximadamente R$ 529,00).

Os valores obviamente não são fixos e, como tudo no mercado, seguem a lei da procura e oferta. Assim sendo, quando mais ”estranha” for a língua, mais cara pode ser cobrada a tradução. Sairá bem mais caro para o cliente ter um texto traduzido do dinamarquês que do inglês.

Outras questões

Muitos escritores trabalharam também como tradutores. Um exemplo é o de Machado de Assis, considerado por muitos como o maior gênio da literatura nacional, que transcreveu para o português obras de Victor Hugo. Claro que obras de grande importância, como as do escritor francês em questão, terão muito mais que apenas uma tradução. Victor Hugo teria, no Brasil, mais de 100 tradutores diferentes, entre eles Dom Pedro II.

Esse grande de número de interessados em uma mesma obra talvez se deva muito ao fato de que haja certa discordância quando se pensa em que linguagem deve ser utilizada para traduzir um texto antigo. Deve-se manter um linguajar coerente à época em que foi escrito, o que poderia soar enfadonha nos dias atuais, ou deve-se atualizar a linguagem, tornando-a mais rápida?

Um dos defensores da última opção é Millôr Fernandes. Na contracapa de uma edição de Hamlet que ele traduziu lê-se: “Nesta versão, Millôr Fernandes, crítico contumaz dos “eruditos” e das “eruditices” que – nas traduções – acabam por comprometer o sentido dramático e poético de Shakespeare, demonstra como o “Bardo” pode ser lido em português com a poderosa dramaticidade do texto original.”

Não podemos esquecer que existem outros ramos dentro da profissão de tradutor, como os técnicos e os juramentados. Os tradutores técnicos são aqueles que trabalham em obras científicas, sejam livros ou artigos e geralmente seus trabalhos têm que serem revisados por consultores no assunto. Os tradutores técnicos tendem a receber mais, devido ao número bem maior de pesquisas que têm que realizar.

Os tradutores juramentados, ou públicos, são os únicos que tem a profissão regulamentada no Brasil. São aqueles que traduzem qualquer tipo de documento que vá surtir um efeito legal, como por exemplo, aqueles requeridos para casamento, herança ou adoção, quando um dos lados é estrangeiro. Para se tornar tradutor público deve-se passar por uma prova realizada pela Junta Comercial.

The Man Behind the Curtain

Obviamente os tradutores não se limitam apenas aos textos impressos. A produção audiovisual também cresce assombrosamente e essa, em especial, casou-se perfeitamente com a internet.

Os membros da Equipe Psicopatas, que legenda episódios de Lost e Dexter para disponibilizar na internet, embora não dependam nem tenham a mínima obrigação de fazer o trabalho que fazem, são muito disciplinados. Após a exibição dos episódios nos EUA, um parceiro que mora no exterior manda o closed caption para o grupo, que traduz o texto cru. Logo após as legendas são passadas para os sincronizadores, que tem montam as legendas nos episódios e, por fim, o episódio passa por revisores, que corrigem eventuais erros de tradução, de português ou de sincronia. Dessa forma a Equipe consegue liberar um episódio de 42 minutos em apenas 5 horas após a liberação do release na internet.

Pôster da série "Dexter" do canal Showtime (imagem de divulgação)

A integrante da Equipe Psicopatas, Tata, diz que, embora seja legalmente proibido, seu trabalho é totalmente necessário, visto que a maior parte da população não tem acesso a TV a cabo, logo, fica excluída do consumo desses bens culturais. Tata não ganha dinheiro pelo trabalho que realiza, e nem reconhecimento, visto que seu nome não é creditado em nenhum momento. Sua recompensa é a satisfação de realizar um bom trabalho junto a um grupo de amigos, tornando cultura e entretenimento mais acessíveis.

Tata também faz tradução amadora de livros e pensa, sim, em trabalhar em tradução no futuro, embora não concorde com o modo como a indústria de entretenimento reage ao progresso tecnológico. Não são raros os casos de pessoas que fazem legendagem e acabam trabalhando para grandes empresas da área.

Se a mundialização pode ser vista como a Babel pós-moderna (inclusive pelo medo que há de que ela possa ruir), uma nova unificação dos humanos e de seus conhecimentos, podemos dizer que os tradutores são os que constroem a nova torre, tijolo a tijolo.

RECONSTRUINDO BABEL, pelo viés de Felipe Severo

felipesevero@revistaovies.com

Para ler mais artigos acesse nosso Acervo.

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  • Sarita Cruz

    Muito interessante o teu artigo. Fiquei admirada de saber que tem editoras no Brasil que remuneram os tradutores por percentual de capa, pois trabalhei sempre por lauda e acho que é um sistema que dá problemas, como o que aconteceu com a Lenita. Sabem dizer quanto a editora do “Johnny Cash” pagou de percentual para o tradutor? Fiquei admirada dele dizer que não concorda com o sistema adotado pela editora – nota-se que ele não conhece nada do mercado editorial, é um sonho ganhar percentual de capa por um livro que deve estar vendendo horrores! :)

  • http://oviesrevista.wordpress.com revistaovies

    Sarita, infelizmente não sei lhe informar qual é o percentual pago ao tradutor adotado pela editora para a qual o Augusto Paim trabalhou.
    Queria apenas deixar claro que o Augusto não discorda do sistema de remuneração para os tradutores, e sim do título de “co-autor”, pois acredita que o trabalho criativo é quase que totalmente do autor da obra, no caso, de Reinhard Kleist.
    Obrigado pelo comentário.

    Felipe Severo