UMA FRENTE AMPLA DE MAIS CINCO ANOS

Passando rapidamente sem delongas pelo medo fronteiriço ao desconhecido até a chegada de um ex-guerrilheiro à presidência do Uruguai. Havia um certo temor rondando os campos longínquos do território brasileiro próximo ao Uruguai. Se o país vivia uma ditadura militar, de tortura e assassinatos por parte dos militares dirigentes, não era saber de todos os […]

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Passando rapidamente sem delongas pelo medo fronteiriço ao desconhecido até a chegada de um ex-guerrilheiro à presidência do Uruguai.

Havia um certo temor rondando os campos longínquos do território brasileiro próximo ao Uruguai. Se o país vivia uma ditadura militar, de tortura e assassinatos por parte dos militares dirigentes, não era saber de todos os brasileiros. O campesino da campanha gaúcha, como uma grande parte da população na época, nem sempre tinha conhecimento ou conseguia perceber o que sucedia nos grandes centros do país (relativamente longe e sem importância para quem residia no meio rural do extremo-sul). A população de localidades distantes, ainda sabendo viver sob ditadura, recebia as notícias pelo rádio, confiando na palavra dos famosos radialistas da época, palavras de veracidade, que traziam os fatos e acontecimentos direto de Porto Alegre, Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. O que se sabe, tais fatos eram distorcidos, recriados ou totalmente censurados, a comunicação era institucional e difundia o que para seu interesse valia.

Era a década de 60 findando dando espaço aos anos 70.

Naquela época, muitos rio-grandenses da região da campanha temiam os cruéis Tupamaros, que “raptavam gente, assaltavam e, se necessário, assassinavam sem dó nem piedade”. O medo e a ojeriza contra o movimento eram totais. Conhecidos como Movimento de Libertação Nacional, a organização guerrilheira tinha o nome popular derivado do Inca Tupac Amaru. Surgiram nos anos 1960 como um grupo urbano armado que buscava uma abertura política no burocrático conservacionismo governamental da época. O Uruguai afundava numa onda de desemprego e inflação.

Os Tupamaros realmente guardam na sua história assaltos a bancos e empresas. Distribuíram dinheiro aos pobres da capital Montividéu e em tempos drásticos o movimento político envolveu-se em atos graves como raptos políticos e assassinatos. Para a ditadura brasileira, prato cheio na construção de um estereótipo de horror e crueldade.

Data de 1973 o início do poder camuflado de uma junta militar com o presidente Juan María Bordaberry atuando como líder de fachada. Já no ano de 1976, os militares haviam retirado Bordaberry do cargo e, dali para frente, os regimes militares repressivos dariam início a uma coação pesada contra os tupamaros. O movimento político via seus integrantes mais radicais serem assassinados e presos com a acusação de serem indivíduos rebelados esquerdistas.

Entre esses insurgentes esquerdistas presos (por aproximados 12 anos) estava José Pepe Mujica. Atualmente com 74 anos, Pepe Mujica foi eleito presidente do Uruguai. Sua característica mais forte, dizem os que o conhecem, é a simplicidade que manteve durante toda a vida, mesmo depois de ser eleito com 53,2% dos votos, contra 42,7% do ex-presidente Luis Alberto Lacalle.  Mujica no poder uruguaio representa uma vitória para a Frente Ampla, uma coalizão eleitoral de centro-esquerda, da qual vários partidos políticos e organizações da sociedade civil integram o corpo aliado.

Elizabeth Benjamin, pesquisadora associada do Council on Hemispheric Affairs, em um pequeno resumo para o site Opera Mundi explicou que “com a restauração da democracia no país, em 1985, os tupamaros se transformaram em um partido político conhecido como Movimento de Participação Popular (MPP), que mais tarde ingressou na coalizão Frente Ampla. A FA foi criada pouco antes da tomada do poder pelos militares, em 1971, e essencialmente imita o estilo social-democrata de governo. A coalizão é formada por vários partidos de centro-esquerda institucionais que oferecem uma agenda politicamente socialista. Além do mais, esses partidos de centro esquerda não só garantiram o firme apoio dos sindicatos, mas também foram totalmente integrados a um sistema partidário pluralista e competitivo”.

Pepe Mujica, acreditam os políticos, cientistas-políticos e a população, deve dar uma sequência às políticas de seu antecessor, Tabaré Vazquez, o primeiro presidente uruguaio de esquerda eleito pela Frente Ampla. Para os temerosos com um ex-guerrilheiro no poder, está claro que, por exemplo, Mujica não corresponde muita simpatia ao governo de esquerda de Hugo Chávez, na Venezuela. O presidente eleito do Uruguai destacou os avanços conquistados pela Venezuela na esfera social, mas expôs seu pensamento dizendo que o governo chavista “é burocrático demais” e questiona o estilo “excessivamente verborrágico”. Outro ponto antagônico entre os dois é o estilo de confronto evidenciado no venezuelano e, até agora, adverso ao uruguaio. Mujica pede conversa.  Conclama por conciliação e um governo para todos, não para grupos ou partidos.

Deve-se estimar também a força que a Frente Ampla carrega sobre seus coligados. Em uma hipótese de o novo presidente uruguaio idealizar reformas populistas ao mode chavista, Mujica encontraria na própria FA uma barreira contra a concepção de tais projetos. Como dito antes, a Frente é uma coalizão majoritária no Congresso formada por diversos partidos e organizações da sociedade civil, o que representa uma pluralidade de ideologias e desenhos políticos, indo desde os comunistas aos moderados, o que cria um certo equilíbrio interno.

O que pode sim ser evidenciado nos próximos anos de governo da Frente Ampla, é um governo moderado, à maneira Lula,  prezando por reformas nas condições sociais dos uruguaios, seguindo a tendência latino-americana de apoio a reformistas de esquerda. Mujica deverá também ser objetivo na política externa fortalecendo as relações com o Mercosul ao lado do Brasil.

Para terminar, em entrevista concedida ao jornalista Marco Weissheimer, quando perguntado pelo sentimento que sentiu ao cruzar em frente ao Batalhão Flórida, onde ficou preso durante os anos de ditadura, para assumir o cargo de Senador, Mujica respondeu:

“Para mim, essa é uma lição da vida que deve ser transmitida às novas gerações, sobretudo para os momentos em que alguém pode se sentir derrotado. Pois a vida me golpeou, a vida me deu um esquinaço, tudo isso. A vida tem muitas coisas amargas, mas também oferece revanches. O problema é saber vivê-la com continuidade e ter a capacidade de se levantar quando se cai. Nós tivemos essa experiência (da prisão), não a buscamos, nem a planejamos, aconteceu, de um modo que supera a imaginação de um novelista. Mas não vivemos para cultivar uma memória, olhando para trás. Acredito que o ser humano tem que saber cicatrizar suas feridas e caminhar na perspectiva do futuro. Pois não podemos viver escravizados pelas contas pendentes da vida; se fizermos isso não se vive o porvenir da vida, não se vive o que está por vir. E a vida é sempre porvenir. Eu tenho uma memória e suas recordações. Não pode ser de outra maneira. Mas deixo uma coisa bem claro:o livro de minhas contas pendentes, este eu o perdi. E lá estava eu diante do Batalhão Florida. Mas o que restava do Batalhão Florida? A bandeira, os trapos, os soldados marcando o passado, talvez com fome, cumprindo sua missão. E a gente que me levou à prisão…? O que vou recordar? Isso? Não tem nenhum sentido. É importante não se esquecer de nada, mas penso que é preciso olhar para o amanhã. Não se vive de recordações. E, como militante, é preciso se lembrar que as credenciais também envelhecem e devem ser renovadas. E cada conjuntura histórica exige que elas sejam renovadas. Não há nenhuma garantia de nada. Por isso, é importante olhar o passado, mas também é preciso perder o respeito. É preciso haver novos partos, é preciso vir gente nova”.

 

Fontes: Blog RS Urgente, Sítio da Agência Carta Maior, Sítio Opera Mundi, texto de Elizabeth Benjamin e Blog oficial do Pepe Mujica

UMA FRENTE AMPLA DE MAIS CINCO ANOS, pelo viés de Bibiano Girard

bibianogirard@revistaovies.com

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  • Iuri Müler

    Bibiano, te parabenizo pela iniciativa de tratar das eleições do Uruguai – que, só agora (ou quem sabe “ao menos agora”), recebeu alguma atenção dos grandes jornais brasileiros. O Mujica, inclusive, não era o candidato preferido do Tabaré Vázquez, que entrega um governo que satisfez uma parte bastante grande da população.

    Sobre as eleições: o Frente Amplio obteve um número de votos muito grande em Montevideo e cercanias – Maldonado e Canelones, por exemplo, mas ao mesmo tempo – e creio que esse é o fato mais importante das eleições – soube crescer em relação a 2004 nos departamentos do interior pouco urbanizados, como Durazno e Florida. Nessas localidades, o Mujica ainda contou menos votos que o Partido Colorado, do Pedro Bordaberry, filho do presidente que se alinhava com a ditadura militar.

    Interessantíssimo também é o discurso do Mujica ainda antes de ser eleito. Em termos políticos, foi um dos melhores textos que li nos últimos tempos. Aqui, pinço alguns trechos. Mas o mais importante é a possibilidade de não serem só palavras muito bem ajustadas – do governo Mujica há o que se esperar.

    “Se, um dia, lotarmos estádios de gente formada será porque, na sociedade, haverá centenas de milhares de uruguaios que cultivaram sua capacidade de pensar. A inteligência que traz riqueza para um país é a inteligência distribuída. É a que não está só guardada nos laboratórios ou na universidade, mas sim anda pela rua. A inteligência que se usa para plantar, para tornear, para manejar uma máquina, para programar um computador, para cozinhar, para atender bem um turista é a mesma inteligência. Alguns subiram mais degraus do que outros, mas se trata da mesma escada.

    E os degraus de baixo são os mesmos para a física nuclear e para o manejo de um campo. Para tudo é preciso o mesmo olhar curioso, faminto de conhecimento e muito inconformista. Acabamos sabendo porque antes ficamos incomodados por não saber. Aprendemos porque temos comichão e isso se adquire por contágio cultural desde quando abrimos os olhos ao mundo.

    Sonho com um país onde os pais mostrem a pastagem a seus filhos pequenos e digam: “Sabem o que é isso? É uma planta processadora da energia do sol e dos minerais da terra”. Ou que lhes mostrem o céu estrelado e façam com que pensem nos corpos celestes, na velocidade da luz e na transmissão das ondas. E não se preocupem que esses pequenos uruguaios vão seguir jogando futebol. Só que, lá pelas tantas, enquanto vêem a bola picar, podem pensar ao mesmo tempo na elasticidade dos materiais que a fazem rebotar.

    (…)

    Em todos os tempos foram vocês, os que se dedicam à atividade intelectual, os encarregados de espalhar a semente. Ou para dize-lo em palavras que nos são muito caras: vocês têm sido os encarregados de acender a necessária inquietação.

    Por favor, vão e contagiem. Não perdoem a ninguém.

    Necessitamos de um tipo de cultura que se propague no ar, entre os lugares, que se cole nas cozinhas e até nos banheiros. Quando conseguirmos isso, teremos ganho a partida quase para sempre. Porque se quebra a ignorância essencial que enfraquece muita gente, uma geração após a outra.”

    O discurso completo está aqui: http://miltonribeiro.opsblog.org/2010/01/04/queremos-um-uruguai-cheio-de-engenheiros-filosofos-e-artistas/

    Abraços,
    Iuri

  • Taís

    Ficou excelente. E isso que nasceu de um susto!