PENETRA SURDAMENTE NO REINO DAS PALAVRAS

Os museus aos quais estamos acostumados quase sempre trazem objetos históricos, de algum valor, objetos concretos. Por isso, não é de se estranhar a curiosidade que é gerada por um museu raro, abstrato. Museu que não guarda objetos concretos, guarda a palavra, falada e escrita, que se faz tão cultura quanto qualquer tela de Monet. […]

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Os museus aos quais estamos acostumados quase sempre trazem objetos históricos, de algum valor, objetos concretos. Por isso, não é de se estranhar a curiosidade que é gerada por um museu raro, abstrato. Museu que não guarda objetos concretos, guarda a palavra, falada e escrita, que se faz tão cultura quanto qualquer tela de Monet. Com um “penetra surdamente no reino das palavras” de Drummond, repetido algumas vezes por Matheus Nachetergaele, somos convidados a entrar no Museu da Língua Portuguesa e a descobrir um pouco mais sobre nossa língua materna.

É quarta-feira de cinzas e o ano está, finalmente, prestes a começar. Na capital paulista as ruas ainda estão mais vazias que o normal devido ao feriado, e as calçadas estão preenchidas apenas por mendigos deitados, quase que em filas. O que não se gastou de tempo no trânsito até a Estação da Luz, onde fica o museu, se gasta esperando-o abrir. Muitos não sabiam que as portas se abririam duas horas mais tarde, e que só entrariam ao meio-dia. Só quando o sino da histórica estação, cuja construção terminou em 1901, badala doze vezes é que as cerca de 20 pessoas se aproximam da bilheteria do museu.

Música, futebol, dança e culinária. Nas paredes do corredor que se adentra ao sair do elevador panorâmico são exibidos curtas-metragens sobre a língua portuguesa e o povo brasileiro. Gilberto Gil, Zezé Mota, Pelé, Ronaldinho Gaúcho e muitos outros brasileiros e falantes do português mostram ao público as expressões utilizadas por eles em seu dia-a-dia, todas repletas de efeitos audiovisuais.

A exposição da vez, depois de Machado de Assis, tem como personagem Cora Coralina. A escritora goiana está lá, em outra parede, onde são reproduzidas entrevistas suas. Em uma sala circular estão diversos cadernos e manuscritos dela. Os pilares são adornados por alguns poemas seus, todos bordados – literalmente – e enquadrados. Nas paredes (aliás, não há uma parede “em branco” no museu inteiro) estão bonitas montagens de fotos do estado de Goiás e da escritora.

12h30, hora de todos os visitantes se encaminharem à sala de cinema, para algumas exposições audiovisuais. O atraso da exibição é compensado por um outro belo curta-metragem, sobre a origem da linguagem e a história da língua portuguesa, narrado por Fernanda Montenegro. Dela se ouvem frases como “nosso reino é o reino dos signos e nele se instala o universo da palavra” e “os encontros e desencontros dos falares geram nossa língua única, que é nosso maior retrato e nossa pátria mais profunda” e se entende um pouco mais a necessidade social que há na comunicação. Ao fim do curta, a tela do cinema se levanta e um funcionário guia todos a uma sala escura, do outro lado do palco.

Penetra surdamente no reino das palavras”. Matheus Nachetergaele começa sussurrando o trecho desse poema, enquanto as paredes e o chão se iluminam com poemas dos mais diversos estilos e autores. A voz do ator começa a se elevar e tudo se apaga. Entra-se quase em transe num escuro absoluto, algumas vezes interrompido pelas luzes de câmeras fotográficas. O escuro abre os ouvidos e os corações para vinte minutos da mais bela literatura em língua portuguesa.

Famosos brasileiros como Maria Bethânia, Paulo José e Zélia Duncan dão voz a Machado de Assis, Oswald de Andrade, Castro Alves e Guimarães Rosa. Gregório de Mattos é interpretado por funkeiros, e seu poema Epílogos, do século XIX, faz o público sentir quão atuais são os problemas sociais daquela época, e que também através da língua tomamos conhecimentos deles. Sentir que literatura também é história. Depois de Fernando Pessoa, os repentistas Caju e Castanha também se fazem ouvir. Luzes acesas e o público se vê de volta à São Paulo de 2010.

No andar das exposições, computadores voltam a ser tomados pelos visitantes. Cada um representa uma língua que ajudou na construção do português brasileiro. Entre tupi, espanhol, inglês e iorubá, objetos característicos de cada povo. Os softwares trazem as palavras que usamos hoje e sua evolução com o tempo. Caju, oca e jabuti. Batata, pampa e tomate. Axé e angu. Tênis e abajur. Tudo estrangeiro. Tudo nosso.

Em mais uma parede, uma linha do tempo. Dividida nas três matrizes que segundo o antropólogo Darcy Ribeiro são a origem do povo brasileiro: africana, indígena e lusa. Em 1500 a parede vira uma só e o português brasileiro começa a tomar forma. Ao lado, um computador com o mapa do país. Cada estado tem uma gravação de mais ou menos um minuto que mostra a diferença dos sotaques entre cada cidade e cada região. Nem parece que o gaúcho de Santiago e o maranhense de São Luiz falam a mesma língua.

No último dos corredores, mais uma sala pouco iluminada. Idealizada pelo jornalista Marcelo Tas, traz três mesas, cada qual com alguns pedaços de palavras digitalizados. O movimento das mãos consegue mexê-las e uni-las. O significado das palavras formadas é lido pelo programa de computador, e o quebra-cabeça interativo de palavras logo recomeça.

Quando o elevador do outro lado do pequeno museu abre sua porta e novamente o visitante vê a restaurada Estação da Luz e as cinzas e poluídas ruas do centro de São Paulo, uma satisfação é percebida em olhares e suspiros. Afinal, não é só de pinturas que vivem os museus e a cultura de um povo.

PENETRA SURDAMENTE NO REINO DAS PALAVRAS, pelo viés de Mathias Rodrigues

mathiasrodrigues@revistaovies.com

 

Para ler mais reportagens acesse nosso Acervo.

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  • luciana

    parabéns, mathias. sábado que vem viajo a buenos aires – lá terei paz e tempo para sentar em um café e ler todos os vieses – seus e de seus companheiros – com deleite e muito orgulho sempre. lindo texto, lindas fotos. vai escrevendo, vai escrevendo…