Uma tarde na casa de uma das famílias da Vila Caatinga
“Ô, seu Paulo! Vim pesar!”
Diego, ou Diguinho (como realmente é conhecido), chega com uma sacola pequena de garrafas em frente a uma das casas da vila Caatinga, região sul de Pelotas (RS).
“Essa hora do dia, umas 7 horas da tarde, começa a encher de gente pra vender coisa”.
Nara olha para Diguinho no portão e, depois, para a filha Greice, que acaba de entrar em casa.
“Ôôô guria, vai ajudar teu pai!”
Paulo, o marido, o pai, se levanta para ir atendê-lo.
Alguns minutos, que servem também para acalmar o sol escaldante, trazem Diguinho de volta à rua de terra – sem sacola nas mãos, com os olhos estalados e cabisbaixos, segurando apenas o que parece ser um carregador de celular gigante.
“Deu R$1,65 o meu lixo…”
A balança é o principal instrumento de selecionadores de lixo: o peso é o que vale.
(Voz enrolada) “Tia, não quer me dar um pila nisso?”
“Rapaz, o que eu vou fazer com isso? (Agarrando os fios) Deixa eu ver… Isso parece coisa de computador. Não vou usar isso, não.”
Enquanto Paulo Renato sai da casa, Diguinho deixa a vila, iniciando a rotina de bater nas campainhas pedindo comida, dinheiro e, às vezes, roupas.
Paulo senta novamente em uma das cadeiras de praia no outro lado da rua de sua casa. Os pés quase tocam o pequeno canalete de esgoto que percorre a rua até desembocar no canal São Gonçalo. Na vila não há um sistema de esgoto eficaz, muito menos coerente com padrões de higiene. Mas é ali, prostrado em frente à casa do vizinho frontal, que se sente uma brisa: faz sombra. Com os olhos em Diguinho, então, Paulo dá uma suspirada.
“Ele é um menino bom, sabe? Pena que tá nessas de crack..”
Ao lado de Paulo Renato, a mulher Nara também está sentada. Entre os dois, o carrinho de bebê acomoda um dos netos. Janaína, a mãe dele, tem 20 anos e está dentro de casa, ocupada com a limpeza.
A família é grande. Paulo não recebe salário, mas sim o dinheiro que chega minguando através da venda e revenda de lixo re-utilizável. Há vinte anos, pelo menos, iniciou este trabalho. Com a mulher, divide uma das melhores casas da vila. Ela, puxando um cigarro do maço, comenta sobre a alegria da filha.
“Ó lá, tá sempre rindo essa guria. E é a única que não fuma cigarro de todos nós.”
Algumas horas depois, Janaína continuava com a vassoura na mão.
“Janaína, vem buscar a criança senão eu chamo o Conselho!!”.
Enquanto Janaína varre a casa, o filho fica com Nara. Não chora, não incomoda, apenas olha tudo com a curiosidade de quem ainda não conhece o mundo.
“A casa não é grande, ela fica é na frente da TV, parada com a vassoura no ar. Quero só ver se essas guria não vão me inventar de fazer mais filho”.
Greice, a filha do meio, de 18 anos, é a que mais ajuda o pai no trabalho de pesagem e seleção da sucata. Bryan, seu filho, é o nome do segundo neto do casal Nara e Paulo. Os dois netos têm a mesma idade, sete meses.
“O da Greice é aquele que tava no meu colo. Ora, já fui mãe, cuidei desse monte de filho e agora tenho que cuidar dos netos.”
Horas antes, enquanto o casal comia melancia sentado sobre as cadeiras, na casa de trás ouvia-se um zunido.
“Olhaa, mãe, ficou bonita, né?”
Greice, saindo da porta dos vizinhos, exibia uma tatuagem recém feita pela máquina barulhenta. Ainda com um pouco de sangue e inchada, a fada desenhada realçava o nome do filho, Bryan, escrito.
“Deixa, deixa eu ver. Ficou bem bonita mesmo.”
“Ahhh, coisa horrível. Vai limpar esse sangue, filha.”
Paulo tem medo de agulha e de hospital. Enquanto nós nos assustamos com o lixo pelas ruas, enquanto o pânico das doenças que nós mesmos provocamos nos inunda, ele tem medo de agulha e hospital. Enquanto colocar os pés em uma vila pobre treme o queixo das classes mais abastadas, Paulo não pode é ver agulha. Parece um medo bobo para um homem desgastado pelas caminhadas e pelas noites mal dormidas em que fechar os olhos parece-lhe fraqueza. Mas, talvez, o medo seja o de adoecer e deixar uma família sofrendo para se virar.
“Posso ver arma, facão… Se vejo agulha desmaio. Só tive que entrar no hospital uma vez nesses últimos anos.”
Em meio aos pensamentos e caretas formadas quando o assunto hospital surge, os olhos de Paulo veem a filha Greice sair de casa em sua direção.
“Não achei vaselina, peguei uma camisinha e esfreguei”.
Aqui, na vila Caatinga, Nara mora há 36 anos. Nara tem 36 anos. Paulo já morou no Laranjal, a “praia” pelotense (que é uma laguna: encontro do mar e da Lagoa dos Patos, na verdade), nos anos em que vivia da pesca de camarão e em outros lugares. Há mais de 25 anos mora na vila, nos últimos metros da rua General Osório. Perto do centro, a rua abriga comércios, pontos de ônibus. Do centro para a zona norte, é interrompida por praças, para depois seguir o rumo asfaltado. Na vila Caatinga, é coberta por terra. Sob sol: terra seca, aparência de aridez. Sob chuva: lodo, barro e esgoto transbordando. Rua do Pântano é a última rua que a cruza. O nome não é oficial, mas os moradores assim a chamam e assim espalham pelos ditos populares.
Muito já se falou, na cidade, sobre desapropriações das casas da Rua do Pântano. Haveria uma moradia popular para onde os habitantes se deslocariam. De fato, ainda não há nada de concreto. Algumas melhorias em postes de iluminação, pouco progresso no tratamento de esgoto. A rua não é reconhecida. Os moradores não têm garantido os seus direitos básicos – e nem têm chances de se mudarem para um local próprio, ainda que a maioria queira.
“Meniina, teus cavalos foram lá pra beira do banhado. Corre lá.”
Greice adora montar os cavalos brabos da vila. Quando soltos, dizem quê só a menina para acalmá-los.
O cavalo de Paulo, por outro lado, é pacato e pouco “utilizado”.
“O meu eu deixo preso ali, direitinho”
Nas caminhadas pela cidade, em busca de lixo re-aproveitável, é ele mesmo quem puxa a carrocinha. Tem pena do animal. Pelotenses podem ver seguidamente o corpo miúdo deste senhor puxando a pequena carroça onde coloca os materiais de onde tira o sustento dele, da mulher e dos seis filhos. Além de Paulo, pode-se reparar nos grupos de catadores crescendo na maioria das cidades e fazendo de um dos problemas do mundo atual o seu meiosde sobrevivência. Enquanto medidas de diminuição de produção de lixo não têm êxito considerável, Paulo e outros tantos catadores colocam as mãos na sujeira contemporânea, a qual não há tecnologia que faça diminuir, procurando o que pode ser reaproveitado.
“Olha, é difícil, mas dá pra viver sim. Agora no verão eu nem tenho saído para catar. Eu compro material dos outros e revendo. Encho um caminhão e vendo. Vender de pouco em pouco não vale a pena.”
“Semana passada ele vendeu uma carga de metal e tirou 600 pila.”
Paulo é respeitado na vila. Ali, ele é um exemplo. Tudo o que conseguiu, veio desse dinheiro que de sacola em sacola vira a soma para a aquisição de comida, roupas, e, maior realização, a construção de uma casa boa.
“Eu que desenhei e levantei.”
Cada um que passa olha para ele e acena, dando um oi firme, um boa tarde simpático.
Um senhor de muletas se aproxima, cumprimenta Paulo e a mulher.
“E os meus 11 pila? Tem como me devolver?”
“Porra, rapaz. Vai ser sempre 11? Ontem, ontem mesmo te dei três já.”
“Ontem?”
“Antontem, foi antontem, Paulo.”
“Isso, isso. Antontem”
“Antontem? É até pode ser então.”
“Então onze menos três é… é…”
“É oito, é oito né?”
“É oito sim.”
“Sete ou oito?”
“Oito!”
Quando o senhor sai, depois de receber mais três reais de Paulo, Nara fala da fama do senhor.
“Esse daí adora uma pinga. Bêbado.”
“Coitado, mora com outras pessoas ali depois da pinguela, em um negócio que parece uma gruta. Nessa semana passada os brigada bateram ali. Ele quase morreu de susto. Eu digo: O que é, cara? Fica frio porque não é tu que rouba as coisa.”
“Sabe, o pessoal rouba carro e moto pela cidade e depois joga ali no meio daquele mato da volta do canal. Mas agora a polícia já sabe do truque e vive batendo aí.”
É por causa dos roubos, e também do calor da estação, que Paulo tem trabalhado na madrugada. Fica a noite inteira separando e limpando lixo. Organiza tudo em grandes sacos, que ficam repousando em volta da casa até serem jogados em um caminhão. Lá pelas 11 da manhã ele vai dormir.
Em um dia de muito cansaço, no entanto, o pai pegou no sono e acordou com o menino menor gritando
“Temm um mag(r)ãão dentro de casa”.
Bebê, como é chamado pelos pais e irmãos, tem oito anos e alguns problemas de dicção. Nesse dia, levou um susto, mas o pai acordou, saiu correndo e o “magrão” que estava dentro de casa já havia fugido. Como todos os outros irmãos, não vai à escola.
“Ah, escola é difícil né, mas esses menino já trabalham. Já trabalham sim. Adoram ir nos ferro velho comigo.
“Esse guri é uma coisa. Adora qualquer animal. Antes tinha pegado umas tartarugas do canal. Eu disse Filho, isso dá cadeia, tu vai encrencar o pai. E lá ficava ele com aquelas trinta tartarugas dentro do tanque. Depois eu consegui que ele devolvesse os bicho pro canal. Agora, semana passada, dei 10 pila pro menino e ele me apareceu com um galo. Fui ver e era um galo de rinha. Que coisa, não quero saber dessas coisa, não.”
“Isso é mimo que tu coloca nele, Paulo. Nunca vi coisa igual… trata que nem uma mulherzinha.”
Na mesma tarde de sábado, Bebê saiu correndo dos fundos da casa. Nervoso, com os dedos na boca, mal conseguia falar
“Pai, pai, mataram o meu gaio (galo). O gaio do Tales que entrou aqui e matou.”
“Pronto, agora acabou. Tem que cuidar o garnizé pra esse galo não matar ele também.”
Alguns jovens saem da tal casa de trás das cadeiras: o tatuador, que agora leva a máquina até a casa de Paulo para tatuar Janaína, um outro rapaz e uma moça bem magra.
“Tá vendo essa daí? Pedra também. Era gorda. Depois do crack tá assim, e olha que nem faz tanto tempo.”
“Tenho pavor que minhas filhas fiquem entrando nessa casa aqui.”
“Janaííína, vem buscar teu filho que ele quer um banho. Já cansou de ficar aqui”
Enquanto a tarde da família aos poucos dava lugar à noite, em uma casa vizinha tocava um rap:
O passado ensina e contamina
Aqueles que sonham com uma vida em liberdade
De verdade
Capacidade pra bater de frente
E modificar o que foi pré-destinado pra gente
Dignificar o que foi conquistado
Mudar de estado, sair de baixo
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POR DENTRO DA MARGEM, pelo viés de Liana Coll
lianacoll@revistaovies.com
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parabéns pela matéria
Eu também gostei, Liana. Gosto de matérias “testemunhais”, do tipo “eu estive lá”. Fizestes uma boa experimentação jornalísitca, um bom trabalho.
Lindas as fotos, sensível e belo o texto!