UM POUCO DE PIN-UPS

Os calendários com fotografias de mulheres nuas ou semi-nuas sempre são atribuídos às oficinas de mecânico. É uma cultura antiga. Com o desenvolvimento burguês, o desenvolvimento da fotografia e as técnicas da imprensa, um novo tipo de modelo surgiu no início dos anos 1900. Dificilmente isso tudo será uma novidade, algo de que nunca tenham […]

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Os calendários com fotografias de mulheres nuas ou semi-nuas sempre são atribuídos às oficinas de mecânico. É uma cultura antiga. Com o desenvolvimento burguês, o desenvolvimento da fotografia e as técnicas da imprensa, um novo tipo de modelo surgiu no início dos anos 1900. Dificilmente isso tudo será uma novidade, algo de que nunca tenham ouvido falar, mas que é um belo assunto, é.  Consideradas filhas do desejo masculino, passaram a repercutir na sociedade de um modo mais significativo, abrindo as portas da luxúria para o reprimido sexo feminino. Nos anos 20 estavam retratadas com cintura fina, seios grandes, pernas torneadas para serem penduradas na parede, vindo daí o porquê de as modelos chamarem-se pin-up (pendurar, em inglês). As moças saltaram de trás das paredes, portas e dos guarda-roupas e colocaram seus rostos na rua da arte.

George Petty publicou na Esquire nas décadas de 30-50 a sua série “The Petty Girl”. Essas meninas estavam, depois, nos aviões de combate usados pela Força Aérea norte-americana na Segunda Guerra. Elas estavam estampadas, voando, como no B-17 Memphis Belle.

(Isso remete à cena do show das mulheres no filme Apocalypse Now, que apesar de não ser sobre a Segunda Guerra e sim sobre a do Vietnã, mostra soldados enlouquecidos com as “coelhinhas”).

Alberto Vargas também publicou pela revista masculina Esquire (americana) os seus desenhos com mulheres-inocentes-cheias-de-sensualidade em 1940. Uma de suas modelos era Marilyn Monroe, ele e as meninas ilustradas fizeram o sucesso suficiente para acompanhar os soldados durante a Segunda Guerra Mundial através de pôsteres. Era a explosão, um abuso com as pernas de fora. Depois, Alberto foi desenhar na Playboy, revista que divulgou muitas novas pin-ups.

Gil ELvgren foi outro conhecido ilustrador de pin-ups, que ficou ativo nas décadas de 30-50 e seu nome está associado a criação comercial, trabalhando com a Coca-Cola e General Electric, por exemplo.

De silenciosas e pacatas donas de casa, as senhoras avançaram com unhas de fora: We can do it! ou quase isso. Sim, elas pareciam ter os homens aos seus pés e olha que nem haviam queimado os sutiãs ainda. Como primeiro passo da libertação das mulheres, a cinta-liga.

Mas se era para o prazer dos homens, porque ser visto como um avanço? Não era apenas mais uma forma de usar a mulher? É, podemos pensar em um grande complô, onde a raça masculina domina o universo e todas nós, mulheres, estamos sendo iludidas por um deus machista que pretende a nossa servidão oculta aos nossos olhos, e isso será parcialmente verdade. Porém, somos seres racionais, até onde me consta, e essa evolução do descaramento fez parte da liberdade para a mulher ser mulher. Pois, tendo noção de seu potencial e de seu poder individual – lê-se, sem a família, o lar, o “maridão” – a mulher tem muito mais capacidade de dizer: Não. E “Sim!”, se analisarmos por um lado existencialista hedônico.

Prosseguindo.Anos 60.

Junto da Pop Art, as ilustrações em maços de cigarro e calendários vieram bem a calhar, o que era vulgar tornou-se artístico, bem como pretendiam os artistas da Pop Art. Pensemos em Andy Warhol (e sua famosa banana) e Marilyn Monroe. Outros artistas além de Warhol também usaram pin-ups como inspiração, que é o caso de Roy Lichteinstein e Mel Ramos.

Cigarro, Coca-Cola, Toblerone de Ramos. O trabalho desse artista é riquíssimo em detalhes e mostra suas pin-ups totalmente nuas, já que, a partir do final da década de 50, era aceitável que elas se apresentassem despidas. Ele as coloca junto de objetos de consumo populares que tomam grandes proporções e fazem definitivamente a ponte propaganda e Pop Art.

A partir dos anos setenta, ano da pin-up do cigarro ali de cima (1972), houve um libera-geral  que acabou por jogar às traças nossas jovens e inocentes moças do papel (não! nem tanto) e levar a valorização da indústria pornográfica, essa sim formadora da tal ditadura da beleza, que põem vulgaridade à figura feminina e a expõe como objeto sexual. Manteve-se a cultura ainda que enfraquecida e depois retornou.

Nos anos oitenta bandas de rock retomaram o rockabilly dos anos cinqüenta, trazendo tudo que vinha com ele, inclusive o visual retrô que relembrava as pin-ups acrescentado de formas fetichistas e futuristas.

Dita Von Teese, artista burlesca que iniciou nos anos 90 – conserva o visual retrô e é fetischista, diz ter admiração por Rita Hayworth (com toda razão, ver filme “Gilda”), Betty Grable e Marilyn. Assim, lembramos de nomes como Greta Garbo, Brigitte Bardot, Sophia Loren, Ingrid Bergman: as musas imortais da arte cinematográfica. Carmem Miranda tropical também entra para essa lista de belíssimos referenciais pin-ups.

Hoje, muitas mulheres por terem mais carne do que osso, ou seja, estarem fora do padrão de moda, são fotografadas e estão no site privado e para maiores de 18 anos www.suicidegirls.com. Mulheres também estão do outro lado e ilustram, são exemplo dois nomes: Jennifer Janesko e Susan Heidi. O italiano Lorenzo Sperlonga desenha para a revista Heavy Metal, uma HQ que possui muitas pin-ups de nossos tempos. Hajyme Sorayama parece ser o novo Alberto Vargas, um artista genial, veja no site, mas veja mesmo! Em “works”: www.hajimesorayama.com, tem uns referenciais ótimos.

Atualmente, Scarlett Johansson (e Woody Allen), Katy Parry e Lady GaGa são as formas pin-ups mais populares, juntamente de Dita Von Teese que inspirou o fotógrafo Adrian Benedykt para o ensaio fotográfico da cantora Pitty (e de outras modelos mais) que também levou em consideração…Bettie Page, claro.

Bettie Page, os anos 50 que faltavam

Símbolo inocente da imoralidade

Sempre existe aquela que tem a verve, a ligação mais forte. Bettie Page é isso no mundo das pin-ups, o nome mais disseminado e a forma perfeita. Ela é “o lado negro da força”, a representação arriscada que parecia ter suas fotos apenas como trabalho, mas feria o olho conservador sempre atento que a fez ser alvo de investigações por causa das suas insinuações sadomasoquistas que a transformou em símbolo de imoralidade. Inclusive, se Marquês de Sade estivesse vivo, ele escreveria a biografia dessa artista. Quando menina sofreu abuso de seu pai, teve uma vida um tanto difícil, estudou artes e por fim começou a fotografar, criar suas roupas e usar de inocência, um pouquinho de humor e sensualidade.

Em janeiro de 1955 ela foi capa da revista Playboy e recebeu o prêmio “Miss Pin-up girl do mundo”, e com sua figura popularizou a franja que cobre toda a testa e é reta, um tanto arredondada. Nos anos 50 os EUA fervia e reprimia o seu fervor, pois bem, Bettie Page também fervia, apesar de ter se tornado uma cristã fervorosa no fim da vida e nunca ter considerado o seu trabalho algo que a pudesse separar da religião. A moça também nunca deu entrevistas, mantinha-se silenciosa como as ilustrações, falando por onde acreditava que devia falar: seu trabalho. Isso está traçado no filme “Bettie Page”, dirigido por Mary Harron, de 2005. Ela morreu em 2008.

Rita, em “Gilda”, 1946

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=7A-e7UnTa2k]

Bettie Page, anos 50

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=JzNW7IBXL_A]

Dita Von Teese, anos 2000

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=sGeXaqBN2ls&feature=related]

UM POUCO DE PIN-UPS, pelo viés de Caren Rhoden

carenrhoden@revistaovies.com

Para ler mais reportagens acesse nosso Acervo.

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  • Rondon de Castro

    Olhe Caren, uma boa pauta, mas veja bem. Acho que tu “viajastes” ressaltando o machismo demonstrado pelas Pins. Havia outras intenções. Veja bem: as imagens femininas, não só as pins, serviram ao propósito da propaganda de guerra. Elas foram colocadas na fuselagem dos aviões justamente porque eles sobrevoavam e até eram abatidos em território inimigo (alemão). Para uma sociedade conservadora, tradicional, reconstituidora de supostas tradições pangermanicas, as imagens reproduziam uma sociedade de postura liberal, justamente o ponto que apertava a garganta dos nazistas. A raça ariana sofria com a imagens de demoniozinhos “decadentes”. Olhe, as pins somente surgiram quando os bombardeios aliados tornaram-se comuns sobre as cidades alemães. Tornaram-se, afinal, a imagem da vitória. Havia ainda uma “humanização” das máquinas voadoras, fazendo a presença feminina no front, praticamente inexistente em combates, plausível…
    E o retorno dos soldados aos EUA toparam com as mulheres (não as pins) ocupando os empregos nas fábricas. No final das contas, as pins serviram para trazer as mulheres ao seu lugar na sociedade machista, secundário e servil. Se você reparar, a experiência funcionou: veja bem algumas de suas colegas de corredor, ou mesmo, o respaldo social dos concursos de beleza no Rio Grande do sul…
    Gosto do tema e tenho até um álbum no meu orkut… Beijo