AS BORBOLETAS BRANCAS DO ASFALTO

Matéria feita em julho de 2009 No número 21 da Travessa Fagundes Varella, há uma pequena sala comercial diferente de todas as outras. Por quê? Por que o espaço é tomado por borboletas de todos os tipos, cores e tamanhos. São centenas delas pelos vidros, paredes, fotos, pelo teto. É de dentro dessa sala que […]

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Matéria feita em julho de 2009

No número 21 da Travessa Fagundes Varella, há uma pequena sala comercial diferente de todas as outras. Por quê? Por que o espaço é tomado por borboletas de todos os tipos, cores e tamanhos. São centenas delas pelos vidros, paredes, fotos, pelo teto.

É de dentro dessa sala que saem as grandes borboletas brancas que se espalham pela cidade e se fixam nos asfaltos. Quando passar por alguma delas, olhe-a com bastante atenção e pense. É para isso que ela está lá. Para fazer você refletir que foi nesse lugar que uma mãe perdeu um filho para a violência no trânsito.

A sala a que me refiro é o núcleo de Santa Maria da Fundação Thiago de Moraes Gonzaga, mais conhecida como Vida Urgente. Além das borboletas, o que chama a atenção é a foto de um rapaz na estante. Moreno, usando terno e gravata, rosto sério, com barba. Esse era Giulliano Zasso Zago e sua borboleta está na esquina das ruas Borges de Medeiros e Venâncio Aires.

Seu apelido era Cascata. Aos 17 anos passou para Administração na UFSM, sem nem precisar fazer cursinho. Tinha várias namoradas e gostava de jogar tênis. Aos 21 anos formou-se. Seus pais tentaram convencê-lo a fazer uma pós-graduação, mas o que Giulliano queria era trabalhar, para isso mudou-se para o Rio de Janeiro, e depois para Florianópolis.

Um dia ligou para os pais e disse que iria voltar para Santa Maria, para cuidar deles. Sua mãe, a professora Ceres Zago, ficou com receio de que o filho fosse novamente ligar-se ao cordão umbilical. Mas ele voltou diferente. Estava maduro. Arrumou logo um emprego e uma namorada fixa. Uma manhã, saindo para o trabalho disse que iria fazer algo para ser demitido. E foi. Quando a mãe protestou, ele disse que já tinha conseguido um emprego melhor.

***

A professora Ceres fundou o Vida Urgente de Santa Maria em 1998. Fazia dois anos que o projeto tinha sido criado em Porto Alegre, por Régis e Diza Gonzaga, pais de Thiago, o rapaz que dá o nome ao projeto, que perdeu a vida em 1995, aos 18 anos, quando pegou carona com um motorista alcoolizado, que bateu em um container de entulho colocado irregularmente na avenida.

Além de Porto Alegre e Santa Maria, o Vida Urgente conta hoje com núcleos em Caxias do Sul, Bento Gonçalves, Garibaldi, Garopaba (em Santa Catarina) e Vitória (no Espírito Santo). São todos fundados por pais que, como Ceres e Diza, fazem tudo que é possível para evitar que a história de seus filhos se repita em outras famílias.

“O foco do projeto é a conscientização no trânsito, voltada principalmente para jovens, e a humanização da vida”, me disse Ceres quando visitei o Vida Urgente pela primeira vez. Explicou-me também o porquê do projeto ser voltado a esse público. “Pessoas jovens, como tu, se sentem naturalmente mais confiantes quando estão no volante. E se isso for misturado com bebida, pode acabar mal. As pessoas têm que perceber que não são máquinas que estão transitando pelas rodovias… são vidas!”.

Visando isso, são realizadas várias atividades, aqui em Santa Maria: a Moto Vida, que é uma blitz para a educação no trânsito por parte dos motociclistas; a Vida Urgente na Estrada, realizada em postos de gasolina e voltada para a conscientização de caminhoneiros e carreteiros; a Expo Vida Urgente, realizada em shoppings, feiras, eventos e escolas, voltada para o público em geral; a Escola Urgente, que é realizada simultaneamente em várias cidades, em que alunos voluntários fazem blitz perto de seus locais de estudo;

Durante os onze anos de Vida Urgente na nossa cidade o projeto Vida Urgente no Palco, que é da Capital, já veio oito vezes. Uma peça de teatro representa um grupo de jovens que tem seus destinos alterados pela imprudência no trânsito. A peça, porém, não vem todos os anos, pois são altos os custos para trazê-la.

Porém entre todos os projetos, o que mais alcança o público alvo, que são jovens, é a Madrugada Viva. Nesse, voluntários saem pelas madrugadas visitando boates, bares e restaurantes, carregando bandeiras e faixas, lembrando àqueles que ali estão a famosa frase “Se beber, não dirija”. Procuram pessoas que não estiverem bebendo em uma roda de amigos para levá-los de carro, depois, para dar-lhes a camiseta “Amigo da vez”. Além disso são aplicados testes do bafômetro, e conforme o resultado o jovem pode levar um adesivo. Tem o da borboleta verde, para os que passaram no teste diz “Tô de cara limpa, Carona Segura” e o da vermelha, para os que já não estão assim tão bem, está escrito “Bebi todas. Quero carona!”

***

No sábado dia 8 de agosto de 98, véspera do Dia dos Pais, Giulliano ligou para casa para avisar que não o esperassem para almoçar, pois tinha surgido uma surpresa no trabalho.

Ceres estava pensando em fazer uma sopa para o jantar, mas conversou com seu marido e decidiram, então, que o melhor seria fazer um churrasco à noite, pois assim todos teriam a manhã de domingo livres para dormirem um pouco mais.

Assim que chegou, Giulliano procurou o pai e revelou que havia sido promovido no emprego, mas pediu que ele não contasse à mãe, ainda. Talvez ele preparasse uma surpresa… não se sabe.

No churrasco da noite compareceram vários amigos da família e parentes. Giulliano entediou-se, pois haviam poucas pessoas da sua idade ali. Os mais novos ele considerava um pouco imaturos. Por isso, quando um amigo o convidou para sair, ele foi.

Mas disse aos pais que não se preocupassem. Ele iria a pé.

***

Pergunto a Ceres quais são os maiores problemas que ela enfrenta, estando à frente do Vida Urgente de Santa Maria. Ela não hesita em responder.

-Bem, o maior problema é oh – me diz, esfregando o indicador no polegar.

-Falta apoio, então? – pergunto.

-Não! Apoio a gente tem. Consegue facilmente. Temos apoio das boates, dos shoppings. Nos falta é patrocínio, mesmo. Não sei por que é tão difícil para os empresários dessa cidade ajudar um projeto como o Vida Urgente. Em Porto Alegre eles conseguem mais facilmente. Além disso, o material (camisetas e adesivos) vem de lá, e temos que mandar de volta boa parte do que conseguimos em vendas. Já teve épocas em que eu tive que manter o projeto praticamente sozinha, com meu bolso.

-E aparição na mídia, vocês têm?

-Sim, sim! Estamos sempre no Diário e na Razão. Muitas vezes eles que nos procuram.

Dito isso ela levanta-se e pega uma grande pasta e vai me mostrando, um a um, os muitos recortes de notícias, notas e reportagens feitas sobre o projeto. Em uma delas está escrito “Sede do Vida Urgente de Santa Maria é arrombada.”

Ceres então me conta que, no início de março do ano passado, ladrões levaram tudo de material que o projeto tinha demorado dez anos para adquirir: um computador, uma TV 20’, um frigobar, uma cafeteira, além de vários CDs do Projeto.

-Ah, temos outro problema também – lembra ela. – Anota aí. Falta de comprometimento do voluntariado!

Fico sabendo, então, que o núcleo de Santa Maria conta com 180 voluntários, porém isso é só no papel. Na semana anterior á entrevista (realizada em julho do ano passado), por exemplo, durante a Expo Vida Urgente, que fizeram no Plaza Shopping, conseguiram mais 30 voluntários. Bem… na verdade conseguiram que 30 pessoas assinassem uma ficha se dizendo voluntários, pois dentro dos 180 inscritos, apenas uma divide os turnos com Ceres e a acompanha sempre.

O nome dela é Ellen Pires, é formada em Publicidade pela UFSM e está ajudando Ceres a levar o projeto adiante há oito anos. Pergunto timidamente se ela também perdeu alguém. Ela sorri e diz que não, e que a maioria dos voluntários que passaram pelo projeto também não perderam.

Ellen tomou conhecimento da fundação no segundo grau,quando ele ainda estava no início, no dia em que Ceres passou pelo seu colégio fazendo a divulgação. Depois, quando já estava no cursinho, viu a palestra de novo. Motivada por uma amiga que se voluntariou, ela entrou. A amiga, porém, desistiu. Ellen continuou.

Quando indagada se haviam outras mães no projeto, Ceres responde:

-Não! Nenhuma mãe até hoje quis seguir o projeto comigo. A maioria das que passa por aqui vem logo depois do acidente pedir que seja pintada a borboleta no lugar em que o filho perdeu a vida, mas eu sempre respondo que as borboletas são pintadas uma vez por ano, só. Eu, como mãe que perdeu o filho, sei como é difícil passar todo dia por um lugar e ver ali a marca do lugar onde ele morreu.

Realmente as borboletas são pintadas uma vez por ano, pelos próprios órgãos públicos, como a prefeitura e a polícia rodoviária. Com as pintadas no ano passado, subiram para 52 o número delas nos asfaltos santamarienses.

***

Já passava de quatro da manhã de domingo, 9 de agosto, Dia dos Pais, quando Giulliano resolveu voltar para casa. Vinha a pé acompanhado de algumas amigas, e na Bozano, em frente a onde era o antigo Café Cristal, um amigo seu parou o carro e lhe ofereceu carona.

Faltavam apenas duas quadras para chegar em casa, mas Cascata aceitou.

Pediu apenas para ir sentado na frente, já que seria o primeiro a descer. No banco de trás iam mais três amigos do rapaz que estava no volante, que nem eram conhecidos de Giulliano.

O motorista estava alcoolizado e começou a fazer correr e a fazer manobras arriscadas com o carro. Uma pessoa que assistia àquilo chamou a polícia e preveniu:

-Venham rápido, senão isso vai acabar em morte.

Era 04:20 quando o Gol marrom bateu de frente em um poste. O carro dividiu-se ao meio. Giulliano e o passageiro que estava atrás dele morreram na hora.

O motorista, atordoado pelo acontecido, tentou fugir, porém a polícia o pegou. Ele nunca foi preso. Sua pena resumiu-se à doação de cestas básicas e apreensão da carteira de motorista por três anos.

Giulliano tinha 26 anos.

***

Uma grande coincidência marcou o dia em que fui fazer a entrevista no Vida Urgente.

Quando cheguei estava lá um homem elegante, vestido uma roupa social. Trabalhava no Ministério Público e viera entregar uma intimação para que a professora Ceres comparecesse em uma reunião. Ceres estava confiante, pois o Ministério costuma dar uma ajuda, às vezes financeira, para Organizações Não Governamentais que fizerem um trabalho sério há mais de dez anos, e aquela talvez fosse a vez do Vida Urgente receber esse apoio.

Mas não foi essa a coincidência a que me referi. O homem que viera entregar o papel a Ceres chama-se André Medeiros da Silva, e reconheceu a foto de Giulliano que estava na estante. Ceres e ele começaram então a conversar, e André lembrou-se que jogava tênis com Cascata.

André também tem uma história triste, relacionada à mistura entre bebida e direção.

Dia 7 de julho de 2005 ele estava de moto, uma CB 500 azul, passando ela Avenida Liberdade, perto da 6ª Brigada, logo atrás de um caminhão. Numa esquina logo adiante estava um motorista alcoolizado, dirigindo uma Kombi da Prefeitura. Às 11:50 horas, o destino dos dois se encontraram da pior maneira possível. Assim que o caminhão passou a Kombi avançou rapidamente, acertando André. Ele ficou 10 minutos embaixo do veículo, até conseguir ser retirado. Sua mãe chegou a vê-lo ali, e segundo ele, temeu o pior.

Felizmente sua história terminou de maneira menos trágica que a de Giulliano. André passou 7 horas desacordado, e teve que fazer uma cirurgia no braço. Segundo ele, seu tríceps atrofiou por causa do ocorrido. Achou que seria o fim de sua vida de atleta, já que antes do acidente, ele jogava tênis, basquete e nadava. Porém André conseguiu se superar. Adaptou seus movimentos à sua nova condição e pode voltar ao tênis e à natação.

O prejuízo de sua moto foi de R$ 8.000,00. O motorista alcoolizado da Kombi foi condenado a lhe ressarcir R$ 4.000,00 em 80 parcelas de R$ 50,00. Tempos depois, ao saber da condição de alcoólatra e depressivo do motorista que quase lhe tirou a vida, André lhe perdoou a dívida.

André sabe que teve sorte. Poderia ter se transformado em uma borboleta branca no asfalto.

***

Através de amigas de amigas Ceres conheceu Diza, mãe de Thiago e fundadora do Vida Urgente. Porém à princípio, Ceres não se interessou.

Só 20 dias depois ela mudou de idéia, ao entrar no quarto de Giulliano pela primeira vez desde que ele morrera.

Nas paredes havia vários quadros. Dois, que ela trouxera de presente ao filho de uma viagem, traziam mensagens de educação no trânsito, escritas em espanhol.

Outro quadro mostrava dois carros, um virado sobre o outro, sendo um deles azul, o outro vermelho.

O outro mostrava uma metade do carro. O lado? O do passageiro. Séria, Ceres diz que parece que esse quadro revelava o destino de seu filho.

Porém a maior surpresa que Ceres teve na redescoberta do quarto de seu filho foi ver que ele tinha um adesivo do Vida Urgente de Porto Alegre.

Foi então que ela sentiu que precisava abrir um núcleo do Vida Urgente em Santa Maria.

***

Ceres me explica o porquê da borboleta como símbolo do Projeto Thiago de Moraes Gonzaga. Explica-me que Thiago era um rapaz extremamente agitado, fazia várias coisas ao mesmo tempo, ou “borboleteava”, como Diza costumava falar do filho. Quando Thiago morreu, ela percebeu todo a simbologia que a borboleta traz. A metamorfose, a agilidade e a efemeridade. Um símbolo da vida e de como ela pode ser rápida.

Ceres disse-me que abriu o núcleo de Santa Maria do Vida Urgente por achar a vida de Thiago e Giulliano muito semelhantes. “A verdade é que a história da vida do Thiago e do Giulliano são parecidas com a tua, dos teus amigos, de todos os jovens.”, me diz ela.

Fazer com que o final seja diferente para nós, os demais jovens, é o grande objetivo de Ceres Zago e de seu empenho. É por isso que ela se doa completamente ao seu trabalho, e é por isso que ela é merecedora de toda a admiração possível.

Borboletas podem ser muito bonitas, mas não pousadas no asfalto. E fazer com que cada vez menos borboletas saiam da Travessa Fagundes Varella, número 21, pode depender da gente.

AS BORBOLETAS BRANCAS DO ASFALTO, pelo viés de Felipe Severo

felipesevero@revistaovies.com

Para ler mais reportagens acesse nosso Acervo.

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  • http://silvanadalmaso.blogspot.com Silvana

    Bom texto, Felipe! Gostei do jeito como tu contou a história da Ceres. Deixou o desfecho da história do filho dela para o final, prendendo, assim, o leitor a tua narrativa. Parabéns pela matéria.

  • MARIZA STEFANELLO

    Todos nós sabemos o que sgnifica ver uma borboleta branca no asfalto, eu como mãe, sempre alertei meu filho, eduquei, sempre que ele sai para uma festa alertamos (eu e o pai dele) que não beba, se beber deixa o carro nos chama que vamos busca-lo..essas coisas todas, estamos sempre rezando para que nunca a gente precise usar esta borboleta, mas agora infelizmente eu venho consultar como fazer pra adquiri-la, pois minha amiga perdeu a filha no dia 19/11 em acidente na BR 158, não sabemos ainda o verdadeiro culpado, se por alcool, por imprudencia ou seja lá o que for, como aconteceu agora pouco importa, importa é tentar-mos deixar viva na memória das pessoas que ali naquele local mais uma jovem de 19 anos com toda a vida pela frente, linda, cheia de sonhos, jamais terá seus sonhos realizados, eu não tenho nada a fazer pela minha amiga(a mãe)nada vai consola-la, mas isto pode mostrar a outras mães, a outras pessoas, alertar, para que não se repita o que aconteceu com a Juliane. Me informem como posso partcipar, como devo proceder, o que fazer pra que infelizmente mais uma borboleta branca seja colocada no asfalto.