BABÁ NÃO ACEITA SER TRIPA

Porto Alegre, tarde de domingo não muito quente, março de 2010. O centro da capital gaúcha estava se apresentando um pouco diferente dos demais domingos do mês. Na praça, crianças brincavam, jovens praticavam esportes ou conversavam sentados à beira do Monumento  a Júlio de Castilhos e senhoras passeavam lentamente em frente à Catedral e ao […]

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Porto Alegre, tarde de domingo não muito quente, março de 2010. O centro da capital gaúcha estava se apresentando um pouco diferente dos demais domingos do mês. Na praça, crianças brincavam, jovens praticavam esportes ou conversavam sentados à beira do Monumento  a Júlio de Castilhos e senhoras passeavam lentamente em frente à Catedral e ao Palácio Piratini, sede do governo do estado do Rio Grande do Sul, fechado, como a maioria dos estabelecimentos e sacadas da região.

Porém, ao passo de nos aproximarmos do Palácio Farroupilha, sede da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, onde está localizado o Auditório Dante Barone, um som distinto dava um novo jeito ao meio da tarde. O trompete acompanhava outros dois músicos em melodias mais que conhecidas pelos brasileiros, ou apenas dos gaúchos. “Alegria, alegria” e “Céu, sol, sul” embalavam o passo dos transeuntes vestidos em grande número pelas cores vermelho e amarelo, dirigindo-se à larga e comprida passarela que dá acesso ao auditório onde, em alguns minutos, iniciar-se-ia uma das convenções de apresentação dos três nomes (seus pensamentos e programas políticos) pré-candidatos à Presidência da República dentro do Partido Socialismo e Liberdade, o PSOL, partido bem recente na política brasileira.

Martiniano Cavalcante, Plínio de Arruda Sampaio e Babá debateram, às vezes em pé, às vezes sentados, lendo, falando, discursando, entoando o público em gritos de aclamação ou contrariedade, planos não só para as próximas eleições, mas, também, afirmações de cunho ideológico e alternativas na manutenção da premissa socialista e dos escopos para qual fora criado o partido, baseado numa história díspar e surgido sob forte agitação política do país. Com o auditório lotado, entre sorrisos, abraços, cantos de ordem, espírito político intenso e, principalmente, discussões sobre os mais variados assuntos na pauta de um partido de esquerda trotskista, onde a multiplicação de correntes em torno de uma utopia fundamentada em conceitos e pensamentos esquerdistas é sadio, os pré-candidatos se apresentaram e tiveram também a alegação de simpatizantes com o programa e o estilo político de cada um.

O encontro teve seus momentos eufóricos, entre vaias e aplausos, quando discutida foi a coligação P-SOL/PV, tendo o nome da ex-ministra do Meio Ambiente do governo Lula, Marina Silva, como candidata à presidência, sendo essa coligação uma das premissas iniciais da corrente MES (Movimento Esquerda Socialista). Como a proposta não foi muito bem quista pelas outras correntes, o MES, contrariado, lançou Martiniano como pré-candidato.

Outra ocasião extraordinária ocorreu durante a afirmação abstêmia e sensata de Plínio de Arruda Sampaio logo no início de seu discurso: “O P-SOL não vai vencer essas eleições”, seguido de “não me interpretem mal. Quero mostrar um programa de contraproposta aos tantos que se apresentam na política atual. Façam suas interpretações, disponibilizarei este texto em minha página na internet para cada um fazer sua própria leitura”.

Plínio parecia saber bem o que dizia. O P-SOL, desde seu surgimento, teve em Heloísa Helena seu nome mais importante e atingível nas massas, conseguindo uma grande votação quando disputou sua primeira eleição federal. Babá já afirmou anteriormente que “O P-SOL e a companheira Heloísa Helena têm a enorme vantagem da credibilidade, da coerência e da independência de classes para sensibilizar, de imediato, setores de massas mais esclarecidos e conscientes de nosso povo”.

O problema foi a retirada da candidatura de Heloísa Helena, que preferiu tentar o cargo de Senadora. Heloísa nunca escondeu sua preferência pela candidatura de Marina Silva, constituindo assim a coligação PV/P-SOL, e a conseqüência foi a pré-candidatura de Martiniano Cavalcante pela corrente que defendia a coligação. Quando Plínio de Arruda Sampaio e, principalmente Babá, recebiam a abertura para fala, própria ou de seus interlocutores simpatizantes, Martiniano era questionado sobre a vontade de fazer o P-SOL “seguir” um partido, sendo a vice-candidatura aliada ao PV uma “maneira de chegar ao poder que vigora, hegemônico, burguês e capitalista”. Martiniano Cavalcante tem, dentro do partido, apoio de nomes importantes como Luciana Genro, Roberto Robaina, Fernanda Melchionna e Pedro Ruas (todos a favor da coligação Marina/P-SOL) na III Conferência Eleitoral que se realizará em abril próximo.

O que Babá, ferrenho contra a coligação com Marina Silva, disse em seu discurso é que “o P-SOL rejeita ser ‘tripa’ do Boi-Bumbá maranhense, fazendo uma alusão à “tripa” do boi, que na dança festiva do estado do Maranhão é aquele trabalhador dançante que fica oculto sob o touro de tecidos coloridos que encanta a plateia. O trabalhador, disse Babá, “está sempre oculto e sua arte será aplaudida, mas no final, infelizmente quem vai capitalizar os benefícios políticos e econômicos do espetáculo será o dono do Boi”.

Babá continua sua explicação dizendo que, no Maranhão, o dono do boi é Zequinha Sarney, presidente de PV no Maranhão, por coincidência filho de José Sarney, aliado de Lula. E completa o discurso afirmando que quem recusou ser candidata na representação do contraponto entre PT e PSDB, até agora os únicos com chance real de vitória, foi Heloísa Helena, para tentar a candidatura ao Senado. Babá critica a posição da corrente MES ao ter apoiado a decisão com a justificativa de não trocar oito anos de senado por três meses de campanha.

É bom recordar que, para um partido acanhado, sete milhões de votos na primeira eleição concorrendo à presidência, apoiado no nome de Heloísa Helena, foi um grande fenômeno, e perder essa candidatura na campanha terá suas conseqüências bem sentidas.

O que se espera é a reação dos eleitores ao sentirem falta de Heloísa Helena no palanque ou quando for apresentado ao grande público um dos nomes como Plínio de Arruda Sampaio, um intelectual conhecido pela classe política, Martiniano Cavalcante, fundador do CGB e P-SOL, e Babá, vereador em Belém e deputado estadual e federal. Um dos três será a esperada contraproposta psolista de Dilma Roussef, que não soma cargo público nenhum mas tem como braço de campanha a popularidade do presidente Lula, e José Serra, ex-ministro da Saúde do governo FHC e governador do estado de São Paulo.

As eleições ocorrem com o primeiro turno marcado para o dia 3 de outubro, primeiro domingo do mês, e o segundo turno, para o dia 31, último domingo de outubro.

BABÁ NÃO ACEITA SER TRIPA, pelo viés de Bibiano Girard

bibianogirard@revistaovies.com

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  • Taís

    Preciso muito de uma juventude mais politizada! Bom saber que por aqui ainda posso ter esperança…