O SARDINHA DO CANINDÉ

Sábado à tarde, zona norte da capital paulista. O céu cinza já ameaça a tradicional chuva de verão. Ao lado da Marginal Tietê, o estádio do Canindé. Movimento quase nenhum. A Portuguesa jogará pelo Campeonato Paulista em algumas horas. Por lá, cambistas e ambulantes são artigo raro, e torcida também. Considerada o “segundo time” da […]

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Sábado à tarde, zona norte da capital paulista. O céu cinza já ameaça a tradicional chuva de verão. Ao lado da Marginal Tietê, o estádio do Canindé. Movimento quase nenhum. A Portuguesa jogará pelo Campeonato Paulista em algumas horas. Por lá, cambistas e ambulantes são artigo raro, e torcida também. Considerada o “segundo time” da maioria dos paulistanos, é o primeiro de poucos, mas fiéis.

Ao lado do estádio, algumas famílias jogam futebol num campo de terra, e outras assistem, esperando os portões do estádio abrir. O bar serve, além de cerveja, caldo verde e o muito pedido bolinho de bacalhau. As camisetas da Lusa competem, em certa desigualdade, com as de Benfica, Porto e Sporting, os três grandes times do futebol português. Ao contrário dos grandes jogos de futebol onde o público jovem e masculino é maioria, no Canindé senhores com dificuldade de andar vão aparecendo, acompanhados de suas esposas, quase todos eles vestidos com calça social, sapatos, camisa e um tradicional boné português. Outro acessório que não falta é a corda de segurar os óculos no peito.

A estrutura física do clube é pobre e velha, do tempo em que a Portuguesa rivalizava com os grandes do futebol brasileiro. Por todos os lados o que se vê é uma pintura alvirrubra desbotada pelo tempo e pelas derrotas. Nas arquibancadas, os poucos senhores e senhoras vão se acomodando em cima de suas almofadas e ligando seus rádios de mais diversos modelos e cores, e os jovens ficam em pé, conversando.

Em meio a muitos ruídos os alto-falantes reproduzem o hino nacional, e curiosamente todos ficam de pé, e em silêncio. O jogo, contra o Paulista de Jundiaí, começa com pouco menos de mil pessoas no estádio.  A cada lance bigodes nervosos xingam técnico e juiz. Um torcedor se destaca no quesito reclamação, o Sardinha.

Sardinha é um senhorzinho um tanto irritado. Tem poucos cabelos brancos em uma cabeça careca. Veste uma regata por baixo da camisa pólo, calça bege, sapato marrom e boné vermelho. A sua barriga de chope, e tremoço, não parece atrapalhar um andar rápido e nervoso pela lateral do campo, sempre acompanhando o bandeirinha. Para não perder o ritmo, pula os degraus da arquibancada com a desenvoltura de um jovem.

Todos no Canindé conhecem Sardinha. Torcedor símbolo da Portuguesa por não aceitar as tão constantes derrotas, logo ele se levanta e levanta a torcida. “Vai, Sardinha”, gritam os torcedores, rindo da situação do velhinho que corre sem parar, por 40 minutos, atrás do bandeirinha que não teria marcado uma mão na bola de um jogador do time de Jundiaí.

Ladrão! Filha da puta! Ladrão!”. Sardinha não se cansa, e não se esquece do lance do qual nem mesmo os jogadores lembram. Só descansa quando o juiz apita o intervalo, e o bandeirinha desce para o vestiário, não sem antes ouvir algumas palavras bonitas sobre sua progenitora.  A Portuguesa ganha por 2 a 0 e o sol começa a aparecer na capital paulista.

Sardinha começa o segundo tempo sentado, roendo as compridas e sujas unhas. A cada minuto um torcedor vem lhe cumprimentar. Uma falta mais ríspida em cima de um jogador lusitano já o faz levantar e, mais uma vez, correr atrás do bandeirinha, desta vez do outro lado do campo.

Ele passa mais uns 20 minutos reclamando da mesma falta, com o dedo em riste: “Cartão! Cartão! Cartão! Cartão! Cartão!”.  O Paulista marca um gol e Sardinha fica mais nervoso, as unhas vão diminuindo. Ele se mete no meio da bateria da torcida Leões da Fabulosa e lá fica, reclamando do árbitro para quem quiser ouvir.

Quando o juiz apita pela última vez, um grande suspiro é ouvido no Canindé. “Todo dia tem que ser no sufoco” alguém diz, enquanto o placar eletrônico quebrado tenta marcar o 2 a 1. Os poucos torcedores vão saindo, e se dirigem ao bar para comer mais alguns bolinhos de bacalhau. No chão do estádio sobram cascas de tremoço e bitucas de cigarro. O sol vai se escondendo atrás das nuvens e Sardinha se perde no meio das camisas vermelhas que descem as escadarias. Semana que vem ele e as tradicionais famílias portuguesas voltam para o Canindé, sempre na esperança de dias melhores para seu time.

O SARDINHA DO CANINDÉ, pelo viés de Mathias Rodrigues

mathiasrodrigues@revistaovies.com

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  • Nelson

    Do ano passado pra cá tudo mudou, amigo Mathias.

    O Canindé foi reformado, as cores estão vivas e as vitórias vieram.

    Último detalhe:

    O torcedor Sardinha chama-se Leonardo, descende de espanhóis e é nosso torcedor símbolo, sim.

    Abraços

  • Kelen Garcia

    Mathias

    Segue uma sugestão de leitura. Que sirva de inspiração para textos mais respeitosos e quiçá a um estilo de vida mais inspirado, ainda que por um time de futebol…

    http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-51/esquina/sardinha-forever

    Kelen Garcia
    Corinthiana, assim como toda minha família, com excessão de meu tio, Seu Sardinha…