DEVANEIO URBANO

Senhor cidadão, eu e você temos coisas até parecidas

Pichação e Grafite

Erroneamente, ou ao menos confusamente, esses termos são colocados em pontos opostos. O Grafite tem um espaço para ser exercido, é cada vez mais reconhecido como arte, uma expressão trabalhada. Dentro da mídia hegemônica é natural ver esse trabalho exposto de forma a representar a cultura jovem, representar uma tribo de maneira legal. Vulgo vandalismo, coisa de desocupado ou algo assim, a Pichação se torna a expressão marginalizada e sujeita a penalidades.

“Mas onde está o valor artístico dessas riscarias?”, essa é uma colocação recorrente, fácil e que se tornou verdade pela sua incansável repetição em discursos vazios e rasos. Naturalmente, se não existe mais o que ser dito, repete-se aquilo que se ouve. Bem como cantaria Tom Zé (sem compromisso com o que defendo) “ com quantos quilos de medo se faz uma tradição?”. O grande medo é que se vá por terra tudo aquilo edificado e reste apenas uma grande complexidade sem parâmetro para o julgamento.

Ano passado, em 2009, fiz uma rápida entrevista com três meninos de Santa Maria, Rio Grande do Sul, sobre a sua prática. Eles colorem várias das paredes que vemos por aí, além de colocarem suas Tags (assinaturas), bem como fazia Jean-Michel Basquiat, artista estadunidense, grafiteiro que até hoje tem seus quadros e locais com a sua assinatura vendidos por muito dinheiro em leilões. Ele assinava SAMO (same old shit: a mesma merda de sempre), e dormiu por um grande período em uma caixa de papelão, viveu de 1960 a 1988 e teve ligação com artistas como Andy Wahrol. Atualmente, o inglês Banksy é reconhecido, porém não conhecido, pelos seus trabalhos com estêncil.

Os três meninos estudam Artes Visuais na Universidade Federal de Santa Maria, são eles Lov, Smog e Xurume. Lov, por exemplo, faz suas Pichações e Grafites há 10 anos. Começou influenciado pelo que via em revistas e em centros maiores, ao lado de Brasiliano e Pops, sendo Pops uma das únicas meninas na cidade até então e uma das poucas até hoje.  Smog pertencia a outro grupo e vendo o trabalho daqueles, iniciou também.

Os grupos começaram a surgir a partir do momento que as pessoas ligadas a essa cultura se conheceram. Eles fazem encontros no Parque Itaimbé para trocarem desenhos e acrescentarem outros aos seus cadernos, os Books. Esses desenhos variam em forma, cor e também tipo de letra. Normalmente, o Grafite pode ser reconhecido por cores e uma letra mais trabalhada; a Pichação, pela cor preta e letras retas; na união de ambos, surge o Grapixo; o lambe-lambe é colagem de papel na parede; também existe o trabalho com estêncil, além dos Bombs, que é o grafite feito rapidamente.

Em metrópoles existem grupos rivais, o que faz com que um pinte em algum lugar e outro venha e pinte por cima, talvez pela falta de espaço. Isso não é regra. Em Santa Maria, o fato não acontece de forma forte, já que parte desses artistas de rua procura respeitar a pintura do outro. E qualquer lugar é lugar. Lov, Smog e Xurume acham que todos os lugares são válidos, e não que todos são inválidos, talvez essa uma inversão que mora na consciência de quem rechaça esse tipo de manifestação. Xurume fala de cromofobia, um detalhe interessante da arte ocidental e das pessoas: o medo de ser contaminado ou corrompido pelas cores.

Em “paredes privadas” o legal é pedir autorização de seu dono para que seja jogada a tinta, porém, nas várias vezes que isso foi seguido, a resposta foi negativa. Em paredes descascando, sujas e sem vida, a lei é deixada de lado para ganhar uma significação. Por acaso isso lembra o ocorrido na Bienal de 2008, onde tentando manter o “nada” de nosso tempo, os organizadores deixaram um andar vazio, e como um grito, como um aviso, jovens rabiscaram exigindo e dando o seu significado, entre eles uma santamariense que foi presa.

O que isso nos traz? Algo muito simples que o mesmo cidadão que reclama da falta de segurança parece não querer ver: a falta dela. Como eles conseguem entrar assim, simplesmente? Como pessoas conseguem subir 10, 20 andares, postes de 14 metros, pintar prédios e até o Cristo Redentor sem nenhum impedimento? Cadê, onde estava a segurança? Isso é ou não é o que todo mundo pede e se pergunta todos os dias?

Pois é, esses artistas também se perguntam isso e se perguntam também onde está a justiça quando são apanhados pichando ou grafitando e sofrem agressões dos policiais. Crime ambiental, dizem. E foi por isso que o senhor ex-militar que pichou o Cristo Redentor vai ser penalizado,ou ao menos ia, por em algum momento ter tomado coragem, comprado um spray em “qualquer loja”, subido e pichado uma manifestação: “cadê a engenheira Patrícia?” (desaparecida em 2008 após passar por uma blitz da PM na Barra) e “quando os gatos saem, os ratos fazem a festa”.  Ele se entregou arrependido e pedindo que não o confundam com bandido e agora colabora com campanhas contra a Pichação, parceiro da Prefeitura de São Paulo (?).

Assim como em grandes cidades, em Santa Maria alguém conseguiu entrar na garagem do Hospital Caridade e pichar, sem problemas. E aí que eles dizem: também não é só a arte, mas a adrenalina, o prazer da rua, na madrugada e em lugares altos. Aí entra a aceitação. Para o final deste ano está planejada a I BIAR, Bienal Internacional de Arte de Rua, a realizar-se em São Paulo(assista: http://vimeo.com/7909955). O Macondo Lugar (espaço cultural de Santa Maria) também abriu espaço para essas manifestações, trazendo o artista Trampo: http://saladobradica.blogspot.com/2010/01/registros-sala-dobradica-no-macondo.html, durante o Festival Macondo Circus 2009 que tinha como tema Música e Cultura Urbana.

Em uma arte de Pichação reversa, Alexandre Orion, sai retirando das paredes a fuligem que vem de carros a cigarros. Ele desenha “a voz dos mortos”. Claro que a limpeza foi urgente e feita apenas nos locais onde havia manifestação artística. Veja o site: http://www.alexandreorion.com/ossario/textos.html.

A visão que se tem é de poluição, de morte, de uma estrutura urbana pálida. Sendo a arte da Pichação e do Grafite algo irremovível das manifestações de nosso tempo. Ela é algo que deve ser lido, bem como qualquer quadro de Delacroix ou urinol de Duchamp. A significação mostra uma vida que está ativa enquanto todos dormem para seguir a sua rotina no outro dia. Não deve ser menosprezada, deve ser aceita. Esse é o reflexo do devaneio social.

 

DEVANEIO URBANO, pelo viés de Caren Rhoden

carenrhoden@revistaovies.com


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