APANHADOR SÓ NA CASA VERDE

fotografia de Liana Coll

Fila na casa verde. Noite e neblina na Santa Maria de ontem, dia 26 de junho. Uma nuvem cinza de umidade se espalha, mas não repele os frequentadores do Macondo Lugar, casa de shows e movimentação cultural da cidade. Ontem, a noite era da banda porto-alegrense Apanhador Só continuar a turnê de divulgação do primeiro álbum, lançado em abril. Rock, música popular brasileira, tango. Instrumentos usuais numa banda e outros nada convencionais. Publico atraído pela sonoridade, pelas composições e melodias – e por algumas outras coisas que talvez não se saibam explicar ao certo. Nem sempre é fácil encontrar um destaque e, no caso da Apanhador, leigos e entendedores concordam que os experimentalismos fazem dela um.

Iniciando a noite, subiu ao palco a banda Wannabe Jalva, também da capital gaúcha. O palco e o público seriam os primeiros da história recente da banda. É o show “first one”. Nós soltamos o nosso som faz pouco tempo. A banda tá no start, a gente tá bem a fim de subir ali e tocar muito. Faz um mês que a gente soltou as músicas no MySpace. A ligação entre a Wannabe e a Apanhador Só, esperado show da madrugada, passava do acordo entre a produção. Rafa Rocha, integrante da banda que abriria a noite é o responsável pela arte da capa do CD homônimo: Apanhador Só – bem recebida pela crítica.

Banda Wannabe Jalva, foto de Liana Coll

Depois da apresentação da Wannabe, o público esperou por poucos minutos, enquanto uma pequena bicicleta vermelha era carregada para o palco. Fios, botões; instrumentos desciam, outros subiam; um tambor era posicionado no palco. A Apanhador Só dava os primeiros acordes.

Apanhador Só no Macondo Lugar, foto de Liana Coll

Não era a primeira vez da banda em Santa Maria. Já haviam tocado outra vez no Macondo Lugar e outra no Macondo Circus, quando este era realizado num sítio em Itaara.

A banda teve início no pátio da escola. Eram feitos covers de bandas de rock e algumas versões de músicas populares brasileiras, entre elas, Chico Buarque.  Era um Power Trio tocando. Baixo, guitarra e bateria dando uma adaptada com a guitarra das músicas feitas no violão. Na verdade a gente não ousava com as músicas, era mais uma coisa de tocar com o instrumento que tinha. Não ficava tão diferente nem tão bom. Agora, por exemplo, a gente brinca com umas do Tom Zé, aí é diferente, tem um trabalho sobre a música. Antes não era uma piração no arranjo como a feita na música do Tom Zé. Era um grande remendo. Era um embrião do que fazemos hoje. Alguns integrantes saíram e outros chegaram. E assim a banda tomou sua forma. A formação atual tem Alexandre Kunpinski  (vocal e guitarra),  Felipe Zancaro (guitarra), Fernão Agra (baixo) e Martin Estevez (bateria).

Apanhador Só no Macondo, foto de Liana Coll

O primeiro trabalho de gravação foi realizado em 2006, através de um “Extended Play”. Outro EP foi lançado em 2008. Neste, já havia músicas que estão hoje no álbum. Naturalmente, esses EPs fizeram com que a gente amadurecesse muito pra chegar no disco depois. Acho que esse disco não poderia ter acontecido em outro momento no passado. Ele veio em boa hora. A gente demorou até um pouco mais do que pretendia, mas veio em muito boa hora pelo momento que a banda tá, tanto na relação entre os integrantes como na questão banda mesmo, em cima do palco, a tranquilidade que a gente tem hoje, que a gente não tinha tanto… questão de maturidade mesmo.

A maturidade foi vista por todos durante o show. Harmônicos e seguros. O público ouviu o que o CD já prometia. É o melhor momento da banda em cima do palco. Tivemos momentos bons antes, mas agora, por ter show seguidos, viajar bastante (a gente fez 4 shows em dois dias), então deu uma canja de palco, uma tranquilidade para a gente poder brincar com as músicas, experimentar. O fato de o lançamento do disco tá massa por ter o retorno do público. O pessoal no show cantando as letras é uma experiência muito nova para a gente, estamos aprendendo a lidar com a galera cantando e a gente tendo que responder a isso. É bastante emocionante. Agora temos uma coisa mais concreta, mais palpável. A gente tem a banda há muitos anos e antes aconteciam coisas legais, mas a banda era mais sozinha, sabe? Tipo, ganhamos o Festival de Bandas Universitárias…mas depois voltava a ser uma banda que tocava na garagem e tal. Agora, depois do disco, parece que as coisas estão se encaixando. A gente tá se amarrando, tá muito legal. Isso dá uma sustentação. A gente tá no melhor momento com certeza.

A banda está alcançando uma repercussão grande. No Macondo, o espaço ficou lotado. Sobre continuar fazendo shows em casas de pequeno e médio porte, a banda diz que esses são os melhores locais. Na real, a gente costuma tocar em casas desse tamanho (do Macondo). Em lugares grandes foram muito poucas vezes. As vezes em lugares grandes foram em teatros. A distância entre a banda e a galera em teatros é o mais estranho. Aqui a galera tá perto, na festa, com cerveja. A gente está ali, fazendo festa com o pessoal como fosse só uma extensão do momento. No caso dos teatros o público está lá e a gente está aqui. Tu quase não tem o feedback se o público tá gostando, o que está rolando e tal.

Integrantes da Wannabe Jalva e da Apanhador Só, foto de Liana Coll

Uma experiência grandiosa de apresentação em teatro ocorreu no lançamento do disco, no Teatro Renascença, em Porto Alegre. Foi uma noite especial, tinha muita gente, tivemos que fazer duas sessões. Estava um clima de confraternização, de aceitação. Foi uma coisa estranha, a gente colocou o CD para download dez dias antes. Era muito recente e tinha muita gente sabendo a letra. Tinha muita gente querendo ver o show porque tinha gostado do disco. Isso foi um teste para nós. A maior parte do público, ontem, também só conhecia a banda e as músicas pela disponibilização das faixas do álbum na internet. Isso não impediu que a maioria das letras fosse cantada em coro.

“Maria Augusta” empolgou. A quarta faixa do CD tem um quê de cantiga popular. A influência musical popular, no entanto, não foi intencional. A banda, já há alguns anos, tinha um show marcado para uma sexta-feira. Queriam compor uma letra para encaixar em uma melodia na qual estavam trabalhando. Era terça-feira. Alexandre, Drusco e Fernão escreveram, riram e pensaram: ah, pra sexta-feira tá bom. Não sei de onde veio, foi uma brincadeira mesmo… nem a gente acreditava nessa letra e quando a gente tocou no show a gente viu que as pessoas gostavam. Como foi meio despretensioso e saiu muito naturalmente, acabava que as pessoas também recebiam muito naturalmente. Essa coisa do ‘Se por acaso tu disser que não me quiser, eu vou correndo arranjar outra mulher’ acho que é algo do comportamento moderno. O resultado foi, mesmo ao acaso, uma música daquelas que, por ritmo e letra, parecem ser cantadas por uma roda de música. No Macondo, pessoas em roda ou umas ao lado das outras simbolizaram esse círculo de integração musical.

Apanhador Só no Macondo, foto de Liana Coll

Os métodos de composição das letras da banda não têm um ritual programado. Alexandre Kumpinski, vocalista e guitarrista da banda, é quem compõe a maior parte das letras. Sobre o processo de produção, comenta: É caótico. Tem compositores que sempre fazem a letra antes ou depois da música. Mas a gente…às vezes metade de uma música a letra veio antes, a outra metade depois da melodia ou harmonia antes de melodia. Não tem um padrão. Antigamente as musicas saiam prontas. Agora e não sei por quê – pode ser por estarmos mais críticos, ou porque as cabeças mudaram. Normalmente, agora, eu fico lapidando as músicas por um tempo. Tem casos como o do “Prédio”, escrita pelo Diego e por mim… a gente terminou a letra um dia antes de gravar. A música já existia há mais de um ano, mas a letra nós terminamos um dia antes de gravar. Eu cantava letras temporárias, então paramos um dia cerebralmente e escrevemos “Prédio”.

Alexandre Kunpinski, vocalista e guitarrista da Apanhador Só, foto de Liana Coll

A mistura de ritmos nas músicas acontece também por acaso algumas vezes. Essas misturas iam surgindo no meio dos ensaios…os cacarecos que tinham na casa do Alexandre. Um belo dia a gente decidiu começar a brincar com esses negócios e virou som. Junto com a Carina Levitan (ex-integrante) quando ela entrou na banda. Ela cuidava dessa percussão-sucata. Ela foi num ensaio nosso e foi nesse ensaio que surgiu meio que espontaneamente e também pela vontade que a gente tinha, os interesses em relação ao uso de percussão-sucata na música brasileira. A introdução e mistura de elementos incomuns na música brasileira é, sem dúvida, uma característica do baiano Tom Zé. O músico que, nas palavras da banda tocava enceradeira e máquinas de construção, é uma referência para a Apanhador Só, assim como Hermeto Pascoal.

Na música “Balão-de-vira-mundo”, os ouvidos se despertam para um tango, inserido levemente em alguns trechos. É uma mistura não-convencional, sonoramente agradável e, talvez por isso, contribui para que ela seja muito bem recebida pelos ouvintes. No caso do tango, a ideia não foi conjunta, foi uma dica do produtor. Houve conversas com os integrantes, que aceitaram a ideia. Mas a maior parte dos novos arranjos surge durante os ensaios: Surge a vontade de trocar, colocar um reggae, por exemplo, como em uma parte de “Prédio”.

Apanhador Só no Macondo, foto de Liana Coll

Não há medo por parte da Apanhador Só quanto às vendas dos CDs, já que o conteúdo deles pode ser acessado por qualquer um. O CD se tornou um suvenir. É uma coisa da banda que quem ouve quer ter em casa. Vale a pena ter uma arte massa, vale estudar o projeto gráfico. Quando o CD ficou pronto e foi disponibilizado para download dez dias antes do show no Teatro Renascença, a repercussão realmente surpreendeu. A quantidade de downloads cresceu e alcançou bons parâmetros em pouquíssimo tempo para uma banda recente.

Os integrantes dizem que esperavam, tendo como base de comparação outras bandas da cena do rock independente brasileiro, a divulgação que acontece com a maioria. Porém, rapidamente o episódio de disponibilizar o CD ocasionou num consentimento da distinção do disco por um novo público. Pode-se dizer que a aceitação e divulgação superaram as expectativas. Os ouvintes se ampliaram e assim foi se espalhando o sucesso da banda. Para o CD somou um pessoal que não conhecia, está conhecendo, gostando e indo aos shows.

Foi isso que ocorreu na casa verde na noite de ontem. Espaço lotado, público participando e banda tocando com a mesma qualidade das músicas gravadas.

Para acessar outras fotos da entrevista e do show, clique AQUI!

APANHADOR SÓ NA CASA VERDE, pelo viés de Bibiano Girard e Liana Coll.

bibianogirard@revistaovies.com

lianacoll@revistaovies.com

Para ler mais reportagens acesse nosso Acervo.

O álbum da Apanhador Só pode ser baixado aqui.

[Na entrevista com a Apanhador Só, também participaram Bianca Villanova, Sarah Quines e Marcelo De Franceschi (todos para a rádio-web do Macondo)]

4 comentários em “APANHADOR SÓ NA CASA VERDE

  1. Grande matéria, em extensão e em qualidade. Sacanagem não comentar né? Por mais inútil, um comentariozinho sempre salva o dia do autor. Ok, sem exageros então.
    Enfim, foi sem dúvida um grande show, legal que o pessoal d’O Viés não deixou escapar.
    Sobre a banda, achei que ao vivo tornou-se muito melhor. Acho que pra quem escuta ao vivo é mais fácil entender e passar a gostar daquilo que está gravado. Nesse cenário é muito fácil achar bandas simpáticas, bonitinhas, com um som bom de se ouvir. O pessoal da Apanhador Só é mais que isso, chega a ser interessante.

  2. Muito boa banda! Ouço todos os dias…não consigo parar de escutar!!!
    Agora sabendo que o shows deles é bom, dá + vontade ainda que eles venham pra BH!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

xxn xnnx hindi bf xnxxx junge nackte frauen

Posts Relacionados

Comece a digitar sua pesquisa acima e pressione Enter para pesquisar. Pressione ESC para cancelar.