A GALINHA O BICHO COME, A MULHER DÁ O QUE FALAR*

* quadra popular da época: “A mulher e a galinha/ não se deixa passear:/a galinha o bicho come/ a mulher dá o que falar”. a Revolução de 30 no país e na Paraíba a de Anayde Beiriz O presidente paulista Washington Luis indica Julio Prestes no lugar de um mineiro, rompendo a regra da política […]

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* quadra popular da época: “A mulher e a galinha/ não se deixa passear:/a galinha o bicho come/ a mulher dá o que falar”.

a Revolução de 30 no país

e na Paraíba

a de Anayde Beiriz

O presidente paulista Washington Luis indica Julio Prestes no lugar de um mineiro, rompendo a regra da política Café com Leite. É 1929 e Minas Gerais se une ao Rio Grande do Sul que tinha candidato presidenciável Getulio Vargas, pela Aliança Liberal. Na Paraíba o governador é João Pessoa que nega apoio a Julio Prestes e, chamado por aquela Aliança, entra na chapa como vice-presidente de Getúlio Vargas.

Dentro da Paraíba (na época Parahyba) um contraponto a idéia de João Pessoa: Zé Pereira, coronel em defesa de seus próprios interesses, além de parceiro de Lampião e, por isso, com um punhado de cangaceiros na sua defesa, recebia apoio material de Washington Luis, lá do Palácio do Catete para o apoio a Julio Prestes (que seria, então, o último presidente da República Velha e nem chegaria a assumir, deposto pela Revolução de 30).

Zé Pereira tinha o apoio de mais uma homem: João Dantas, futuro assassino de João Pessoa, o quase vice-presidente que seria enterrado deixando a bandeira da Paraíba com a palavra “NEGO” e trocando o nome da capital do estado de Cidade da Parahyba para João Pessoa.

 

Anayde Beiriz nasceu em 18 de fevereiro de 1905 na Cidade da Parahyba. Formou-se professora aos 17 anos de idade e chamou a atenção pelo excelente desempenho. Então, era 1922 e no Brasil a Semana de Arte Moderna se iniciava. Na Paraíba tudo se mantinha: mulheres em casa e homens na rua. Lá, por exemplo, existia uma praça que comportava de cada lado oposto um colégio: um lado meninas, outro meninos. Alguém de ordem pudica implantou uma linha imaginária e pôs um guarda a vigiar aqueles que se deixassem levar pelas paixões; se alguém atravessasse: morte. Dessa forma perdeu-se ao menos um casal de jovens enamorados. Ele não respeitou e tomou um tiro mortal, ela se matou depois. Além desse preceito sexista, existia o preceito racial. Outro casal se perdia: uma jovem negra e um menino abastado branco. A alfabetização era parca, grande parte da população não reconhecia as regras da escrita e da leitura: 77,7% em 1927 (analfabetos).

Formada, a jovem começa a dar aulas a pessoas de idade avançada, iniciando aquilo que é hoje o supletivo. Não precisamos lembrar que o sonho de toda boa moça era casar, ter filhos e etecetera e tal. Enquanto isso, Anayde se tornava mulher e recebia olhares desconfiados daquelas pessoas. Usava batom, fumava, usava decote, cabelo à la garçonne (bastante curto, moda dos anos 20, mas não na Paraíba) e escrevia poesias.

Anayde foi influenciada pelo movimento modernista e este é um dos poemas que ela declamou durante reunião de intelectuais da/na Paraíba:

“Nasci

Nasceu

Cresceu

Namorou

Noivou

Casou

Noite nupcial

As telhas viram tudo

Se as moças fossem telhas não se casariam…”

Simples como os modernistas em uma cidade não propícia, o poema é bastante polêmico. Que mulher ousava, em 1920, romper com uma cultura que até hoje a aponta como vil? Ela teve, então, um caso com Heriberto Paiva, – moço loiro, olhos azuis, família rica – que foi ao Rio de Janeiro estudar Medicina. Anayde, além de morena, com “olhos de pantera dormente”, como chamada por alguns, era filha de um tipógrafo do jornal A União e de uma dona de casa. Ainda assim, manteve contato com aquele que não era o último e, provavelmente, nem o primeiro, e que esperava de Anayde uma atitude retraída como lemos em epístolas dela para ele (para quem se interessar, clique):

Cartas de Anayde a Heriberto Paiva:

Não me creias uma mulher romântica, piedosa, dessas que ama

pacífica e sinceramente, mas sem intensidade e sem ardor, essas

mulheres que sabem ser esposas, sabem ser mães, mas não

sabem ser amantes. Talvez preferisses que eu fosse desse

número e se eu o quisesse poderia parecer-te sempre assim,

mas eu não desejo enganar-te. Se chegar algum dia a ser tua,

encontrará em mim, a esposa, a mãe, a amiga, a irmã e, mais

que isso, encontrará a amante, a mulher. Sei que não é bonito

isso que te estou a dizer, mas a confiança que tenho em ti leva-

me a falar-te deste modo.

(Parahyba, 29 de Setembro de 1925)

[…] eu possuo essa impetuosidade despreocupada e

desinteressada dessa raça mestiça de que descende minha

família paterna, também possuo, num grão tão alto como

ninguém talvez suponha a altivez e o orgulho dessa raça de

sertanejos a que pertence minha mãe.

( Parahyba, 31 de Janeiro de 1926)

Crêem elles que eu sou trágica, que gosto desse amor que

queima, dessa paixão que devora, dessa febre amorosa que

mata.

(07 de março de 1926)

Anayde publicou crônicas em revistas, pequenos contos que faziam menção a imoralidades, ou seja, seus casos descompromissados socialmente. Falava de si em um tom ingênuo-sonhador, mas não desorientado: Por que você escreve?

Eu escrevo para criar um mundo no qual possa viver.

Procuro criar um mundo como se cria um determina-

do clima, uma atmosfera onde eu pudesse respirar.

Devemos conquistar nossa força e edificar nossos valo-

res com base no desenvolvimento pessoal e na desco-

berta de nós mesmos. Contra as desigualdades, as in-

justiças […].

As buscas políticas de Anayde não eram voltadas às causas partidárias, senão de um posicionamento independente. Diferente do que fazia a paulistana Patrícia Galvão, a Pagu, que era militante partidária. Anayde defendia o voto feminino: “… convidemo-la [a mulher] a colaborar com o homem na oficina da política. Que perigo pode vir daí?”. Talvez com mais experiência se tornasse participante do meio científico da política, porém, acabou de um lado bastante estranho e diverso de seu comportamento livre, aquele que a fez escrever a Heriberto Paiva de uma maneira forte, não resignada e abusar de sua sensualidade feminina.

Em 1928 Anayde conheceu João Dantas. Homem mais velho, de 40 anos. Anayde seria sempre chamada de amante daquele homem:

De uma carta que te escrevi e não te enviei

(as partes em colchetes estão danificadas no material origem)

Não Eu não hei de chorar […]

Tu me conheces bem pouco. Por isto é que me falas em lágrimas.

Só os desesperados é que choram e eu continuo a esperar […]

Pouco se me dá saber da tua nova paixão […]

É tão vulgar a existência de outra mulher no destino do homem que a gente deseja […]

E, bem sabes, no amor, como em tudo, apenas me seduz a originalidade […]

A razão por que gostei de ti?

Porque pensei que tu eras louco […]

Tive sempre a extravagância de achar deliciosos os loucos que julgam ter juízo […]

Desiludiste-me afina!

[…] E é tão desinteressante um homem ajuizado que finge de louco […]

Dizes que me procurarás esquecer. Ingênuo!

Desafio-te a que o consigas […]

As marcas das minhas carícias não foram feitas para desaparecer facilmente […]

Mil outros lábios que se incrustarem na tua boca não arrancarão de lá a lembrança

da minha […]

Mas, se ainda assim, o conseguires, a tua vitória não será duradoura.

Não há vantagem em esquecermos hoje o que temos de lembrar amanhã […]

Apraz-te que eu guarde os meus beijos […]

Guarda-los-ei, por enquanto.

Advirto-te, porém, que os beijos são como os vinhos raros, quanto mais velhos,

Melhor embriagam […]

Enganas-te se pensas que entre nós dois tudo está terminado […]

Se agora é que começou […]

A nossa história, hoje, está bem mais interessante […]

E tu fizeste para mim, muito mais desejado […]

Porque tenho que te arrancar do domínio de outra mulher […]

No entanto, eu já não te amo […]

Admiro os homens fortes e tu és um covarde:

Tens medo do meu amor. Receias o delírio febril do meu desejo,

a exaltação diabólica do meu sensualismo,

a impetuosidade selvagem da minha volúpia […]

Sonhar um afeto simples, monótono, banal […]

Um afeto que toda mulher pode dar […]

Tu, um artista!

Fazes bem em procurá-lo distante de mim

O meu amor é bem diferente: é impulsivo, torturante, estranho, infernal […]

Ouve, contudo, o que te digo: hás de experimentá-lo ainda uma vez […]

Então veremos quem de nós dois chorará […]

(Publicado na Revista Ilustração em 1938)

Com relevância, a política aparece entre os dois só em 1929. João Dantas era contrário a João Pessoa e Anayde expressava, em sua escrita não alienada, uma discordância com as idéias de João Dantas, bem como se mostra no filme Parahyba, mulher macho.

Em 1º de Março de 1930 as eleições colocam Julio Prestes no poder; o movimento revolucionário a partir dos liberalistas começa; Em maio, João Dantas foge para Recife, Pernambuco, por causa das pressões políticas. A mando de João Pessoa, o apartamento na Paraíba de João Dantas é invadido e revirado, móveis e documentos são queimados em uma grande fogueira ateada na rua. As cartas que trocava com Anayde e escritos íntimos são levados ao jornal A União e em 23 de julho é publicado sobre o conteúdo imoral, sujo e degradante encontrado no apartamento de João Dantas. Além de o diário de Dantas circular entre os governantes da Paraíba, todas as cartas estavam à disposição de quem as quisesse ver, na delegacia de polícia. A partir daí, Anayde seria conhecida como a prostituta do assassino de João Pessoa.

João Pessoa vai a Recife e na confeitaria “A Glória” é encontrado por João Dantas que, enfurecido pela moral e honra feridos, mata a tiros o governador da Paraíba. Preso em flagrante, João Dantas conversa com Anayde Beiriz, que foi para Recife, e pede um bisturi com o qual colocaria fim a sua vida e a de seu cunhado, Augusto Caldas, preso junto dele; o medo era a tortura. Diz-se que se suicidaram, mas existe a possibilidade de terem sido degolados.

Anayde Beiriz passa a ser perseguida. Ainda que magoada não pode descansar, pois corria riscos. No dia 22 de outubro de 1930, Anayde dá entrada no asilo Bom Pastor, Recife, vomitando. Mesmo amparada pelas freiras acabou morrendo: envenenamento. Suicídio ou não, foi sepultada como indigente aos 25 anos.

Fontes de pesquisa:

Anayde Beiriz, paixão e morte na Revolução de 30, de José Joffily;

Filme: Parahyba, Mulher Macho;

Tecitura epistolar: Leitura e confissões de amor (cartas trocadas entre Anayde e Heriberto Paiva);

Trocando idéias: em vista a Anayde Beiriz – peregrina da liberdade.

A GALINHA O BICHO COME, A MULHER DÁ  O QUE FALAR, pelo viés de Caren Rhoden

carenrhoden@revistaovies.com

Para ler mais reportagens acesse nosso Acervo.

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  • sanvilela

    Texto muito bom, parabéns.