AGRADÁVEL COMO TANGO

Como nos grandes centros, pessoas vêm e vão e o barulho fica. Passos, conversas, portas, anúncios, vendedores ambulantes, ambulâncias. No centro nem tão nervoso de  Santa Maria (RS), senhores exaltados comentam o jogo do Uruguai, o sorveteiro vende num inverno que ainda não deu as caras. Em frente a uma galeria nominada de shopping, a […]

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Como nos grandes centros, pessoas vêm e vão e o barulho fica. Passos, conversas, portas, anúncios, vendedores ambulantes, ambulâncias. No centro nem tão nervoso de  Santa Maria (RS), senhores exaltados comentam o jogo do Uruguai, o sorveteiro vende num inverno que ainda não deu as caras. Em frente a uma galeria nominada de shopping, a juventude emo se emociona. Celulares ligados a todo volume tocando qualquer melodia incompreensível. Seguindo pela calçada, que toma todo o espaço da rua, após uma porta de vidro e o sorriso de uma bela loira, o ambiente parece mudar historicamente e sonoramente. Tranquilidade e aroma primoroso. Adentrou-se a Confeitaria Copacabana.

O nome é de praia fluminense mas a culinária ganhou alguns trejeitos portenhos. Sobre as paredes espelhadas, há aproximadamente vinte imagens da Santa Maria em tempos longínquos, tempos como o que o recém pintado painel da Biblioteca Pública da cidade explora. Uma Santa Maria de transeuntes vestidos impecavelmente e de arranha-céus que ainda não surgiram. Assim parece sentirem-se os apreciadores das iguarias na Copacabana do século XXI.

Um relógio cuco avisa a hora. Outro, pendurado acima do caixa registrador, relembra as avenidas antigas. Pelas paredes, mais retratos. Manuela e brasileiros conhecidos do grande público como Renato Borghetti. Três grandes lustres trazidos especialmente de Buenos Aires suspensos no teto. Uma luz tênue aprazível para lanchar. Lá fora, a balbúrdia. Lá dentro, sente-se estar num grande aquário pacífico.

Manuela Segala é a atual chef confeiteira da Copacabana. Quando saindo do ensino médio disse ao pai que faria a faculdade de Nutrição, o também confeiteiro da mesma casa colocou na filha a ideia de, quem sabe, Gastronomia poderia ser uma opção mais atraente. “Foi que foi que ele mudou minhas ideias”.

A chef então começou uma grande pesquisa para analisar qual instituição de ensino satisfaria mais as esperanças do futuro curso. Em São Paulo havia cursos pequenos e rápidos. Outras cidades não agradaram. A pesquisa aponta então para a província de Buenos Aires, exatamente na cidade de Vicente López. Curso de cinco meses que, junto à Pós-Graduação, fez Manuela viver por um ano na região. “Cheguei assustada, meus pais foram comigo mas depois fiquei sozinha, vivendo na casa de uma família. Vicente López é diferente que a capital, é meio vazio, não tem quase ninguém mas tem a Instituição”.

Antes disso a chef confeiteira não sabia cozinhar nada. “Eu não sabia nem o que era o banho-maria (alternativa culinária de submergir o alimento em uma panela com água em fogo baixo). Cheguei a fazer um curso em Livramento (fronteira com o Uruguai) que ensinava mais sobre folhados. A língua também dificultava um pouco no início. Eu não sabia que “cacerola” era panela, eles pediam e eu ficava ‘boiando’”. A turma era mista. Havia uma colombiana, uma estadunidense, uma mexicana e vários outros países. Na escola, Manuela passava por uma prova a cada semana, teórica e prática.

Manuela cresceu no ambiente da Copacabana. Seu pai e seu avô trabalharam com os salgados, doces, sucos e afins.  O prédio ainda preserva na fachada o “Segala” como antiga denominação da confeitaria. A atenção que Manuela dedica ao público faz com que reconheça rostos de frequentadores da casa. “Tem um senhor que eu me lembro desde quando era pequena”. Na cozinha permanece pai, filha e funcionários trabalhando desde às seis horas da manhã. Idealizada pela família de Manuela, a confeitaria passou algum tempo sendo administrada por um espanhol. Durante essa administração o pai de Manuela continuou trabalhando no espaço, cozinhando aquilo que aprendera com seu pai, avô da chef.

Para definir o que mantém a fama da Copacabana santa-mariense, Manuela ressalta a qualidade no trabalho com os doces e salgados. O local também. Recentemente o piso, o balcão do caixa e as mesas foram trocados.

Os doces da “Copa” são considerados um patrimônio de Santa Maria. Nas lembranças dos viajantes que vinham ou ainda vêm à cidade, a massa folhada doce permanece. Santa Maria é o centro geográfico do estado do Rio Grande do Sul e tem uma importância regional, tanto na educação, por abrigar a primeira universidade federal do interior do país, quanto na parte de serviços, com um comércio forte. São por esses motivos que as ruas estão cheias de andarilhos. Na hora do lanche da tarde, o salão retangular da confeitaria lota e os doces viajam pelas mesas. O doce do “Louvre”, o salgado da empada de palmito, o chocolate do “Alexandra”, receita da chef, e a massa folhada branca, seu predileto, fazem a fila crescer sob o diploma de Manuela pendurado na parede.

Senhoras e senhores de todas as idades, crianças, famílias, estudantes.  De camisas listradas nas cores azul e branco, os funcionários correm para atender a tanto pedido. O cuco marrom ao lado da porta avisa o horário do café da tarde. O jazz, a bossa e o blues seguem tocando nas caixas de som. Visitantes, moradores, quem seja. Para muitos, passeio no calçadão é sinônimo de Copacabana.

As fotos são de Liana Coll.

AGRADÁVEL COMO TANGO, pelo viés de Bibiano Girard

bibianogirard@revistaovies.com

Para ler mais reportagens acesse nosso Acervo.

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  • Paulo Roberto

    A leitura foi como se estivesse sentado às novas e melhores mesas da Copacabana comendo camaféu, papo-de-anjo, empada e bebendo uma ciryllinha (que não encontro mais por lá).

  • Paulo Roberto

    Ah! Copiei as fotos.

  • Ana

    A história do tal “espanhol” que “passou algum tempo administrando a confeitaria” é muito interessante. Além do mais, foi em sua fase que a confeitaria ganhou destaque na cidade. Vale a pena apurar.

  • Camila

    Olá!Eu adoro a copacabana.Frequento desde quando eu era pequena!Eu estou adorando a nova geração,eu achei que ficou bem melhor o ambiente,o atendimento,tudo.Agora sim está melhor.
    um abraço para todos da copacabana

  • Manuela

    Oi!Adorei a reportagem de vcs,ficou maravilhosa.Eu imprimi e irei colocar na confeitaria.Eu so tenho a agradecer….muit obrigada.E nunca deixem de frequentar nosso ambiente.
    um gradne abraço manuela segala