O MERCADO CENTRAL E O MERCADO DA EXCLUSÃO

Uma reforma e algumas controvérsias Estamos no centro histórico da cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul. Ao redor da Praça Coronel Pedro Osório, prédios reformados, cheirando a tinta fresca. Outros tantos prédios ostentam placas de projetos de recuperação. Muitas obras em andamento: preservação do patrimônio. Entretanto, o Mercado Central, um dos prédios mais […]

A+ A-

Uma reforma e algumas controvérsias

Estamos no centro histórico da cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul. Ao redor da Praça Coronel Pedro Osório, prédios reformados, cheirando a tinta fresca. Outros tantos prédios ostentam placas de projetos de recuperação. Muitas obras em andamento: preservação do patrimônio. Entretanto, o Mercado Central, um dos prédios mais lembrados quando o assunto é Pelotas, sustenta uma grande polêmica em torno de sua reforma.

Há quase um ano começaram as restaurações do mercado. Em setembro de 2009, mais de 40 lojistas deixaram o prédio para que a reestruturação tivesse início. Aprovadas por programa do Ministério da Cultura, o Programa Monumenta, as obras prevém a preservação de áreas prioritárias do patrimônio histórico e artístico urbano e (devem) estimular ações que aumentem a consciência da população sobre a importância de se preservar o acervo existente. São 2,269 bilhões de verba federal investida, e R$340 mil municipal. A reforma, tão esperada e sonhada pelos habitantes e pelos comerciantes, transformou-se, para parte destes, em uma grande ameaça.

Uma das exigências do Monumenta é que, depois das obras apoiadas por ele, o patrimônio reformado tenha capacidade de sustentar as reformas posteriores às quais precise passar. Simples se aí não fosse encontrado motivo para a expulsão de muitos comerciantes. Alega-se que o setor calçadista, principalmente, não gera os tributos necessáros para o cumprimento de tal requisito. A solução encontrada pela a prefeitura, a partir desse ponto de vista, foi a remoção dessas pessoas do local. E o pior é que ninguém comunica os comerciantes se, de fato,  terão de deixar definitivamente o Mercado Central.

Eduardo Saccol de Sá trabalha no Mercado Central há 20 anos. Eu me criei ali dentro. Desde os oito anos eu vivia ali dentro ou pela volta, até que eu consegui comprar meu negócio.  Foi uma vida ali… Desde que foi obrigado a sair, divide um espaço um tanto quanto apertado com os outros calçadistas na travessa Conde de Piratini, uma espécie de beco que atravessa uma das ruas do calçadão pelotense. No espaço, recebe bem menos movimento do que  de antes, no Mercado Central. A diminuição no número de funcionário foi inevitável. Eu tinha sete funcionários trabalhando comigo. Agora eu tô sozinho aqui.

Silvana do Rosário, outra propritária de banca calçadista, também viu-se obrigada a dispensar um funcionário. Eu tinha duas funcionárias, agora é a Renata (Renata Moreira, funcionária) e só. A banca de Silvana fica em uma das pontas do “corredor” de lojinhas. No dia 13 de julho, frio de 12ºC  e sensação térmica de 4ºC. Sob um vento encanado que adentra o corredor e chega com toda força nas bancas das extremidades, a solução era se encolher dentro da banca e esperar que o movimento trouxesse calor humano.

O prefeito Fetter Júnior e as autoridades admnistrativas do município notificaram os comerciantes da saída obrigatória em pouco tempo. O jeito foi juntar as mercadorias e se acomodar na estrutura nova. Depois da mudança, por falhas de comunicação, má vontade ou por medo de desagradar os eleitores, nenhuma notifcação a respeito do rumo dos comerciantes foi realizada. Não nos procuravam pra nada, só nos procuraram quando foi pra nos retirar de lá mesmo. Em menos de uma semana eles nos retiraram de lá. Botaram até auxiliares pra nos tirar de lá, em compensação a gente veio pra cá… Eles não vêm aqui. Olha o resultado que tá isso daqui. E essa minha nem tá tão.. tem o de uma moça ali que ta caindo o teto ,e eles nunca mais vieram, a não ser pra entregar os boletos do aluguel… Simplesmente nos atiraram aqui e ‘azar é o de vocês’. Seu Eduardo, voz de indignação, não esconde o ceticismo: Eles dizem que é provisório. Agora, o provisório deles não se sabe até quando é… Já vai fazer um ano agora em setembro.

A previsão é que as obras terminem em dezembro. A proximidade da data parece não ser lembrada pela prefeitura. Os comerciantes, no entanto, sentem bem o tempo passar. Poucos ainda acham que o a passagem dos meses é como um nó se desfazendo. As esperanças de voltar a ter um negócio mais estruturado e rentável tornam-se, aos poucos, mais rarefeitas entre as opiniões dos comerciantes. Frases como: Parece que vão sortear quatro daqui para poderem voltar a trabalhar no Mercado ou É, eu não sei, não sei mesmo o que vai acontecer circulam quando o assunto é levntado.

Outro ponto que assusta é a informação estranhamente enquadrada à qual a população pelotense tem acesso. Eduardo de Sá parece desconfiado quando a imprensa o procura. É… é bom que se divulgue como nós estamos, porque sabe… os outros vêm aqui, mas o jornal é deles né… (refere-se ao jornal com maior tiragem e circulação na cidade, Diário Popular, o qual pertece à família do atual prefeito, Adolfo Fetter Júnior).

A incerteza e os rumores. Os péssimos rumores. Notícias “não oficiais” que circulam, informações que não chegam. Assim o corredor da travessa Conde de Piratini se preenche. O pouco movimento assusta.  As contradições de um sistema que se diz justo e possível de abrigar a todos, mas que na verdade não oferece oportunidades e chances iguais. O descaso fere e condena a glória de alguns em sacrifício de outros.

O MERCADO CENTRAL E O MERCADO DA EXCLUSÃO, pelo viés de Liana Coll

lianacoll@revistaovies.com

Para ler mais reportagens acesse nosso Acervo.

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Print this pageEmail this to someone