"SOCIALISTA E COERENTE" – A FESTA DE 80 ANOS DE PLÍNIO DE ARRUDA SAMPAIO

O centro de São Paulo é sempre perigoso em um sábado à noite, ainda mais quando se vai a um lugar nunca antes visitado. Pelo caminho se encontra de tudo. A cada esquina se vê alguém fumando crack. Mas sábado passado, dia 24, guardava uma ocasião tão única que fazia valer à pena a viagem: […]

A+ A-

O centro de São Paulo é sempre perigoso em um sábado à noite, ainda mais quando se vai a um lugar nunca antes visitado. Pelo caminho se encontra de tudo. A cada esquina se vê alguém fumando crack. Mas sábado passado, dia 24, guardava uma ocasião tão única que fazia valer à pena a viagem: a festa do aniversário de 80 anos de Plínio de Arruda Sampaio, candidato do PSOL à presidência do Brasil.

No local marcado, um estranhamento. Na porta do Spasso Buffet, luzes de neon confundiam os militantes e simpatizantes de Plínio, que pareciam ter julgado que o aniversário seria em um estabelecimento um pouco mais formal. Mas ao subir a escada, os familiares adesivos no peito e barba no rosto tranqüilizavam a todos, e davam a certeza de que se havia chegado ao lugar certo.

O salão tinha as mesas dispostas para um jantar, as quais levavam toalhas brancas e mostravam algumas latas de cerveja já vazias. As paredes eram de tijolo exposto. No mezanino estava disposta uma enorme faixa com os dizeres “Presidente é Plínio”. Ao lado das mesas havia um farto e saboroso buffet. No cardápio, nada de criancinhas. O prato preferido dos socialistas do século XXI era o pastel de queijo.

Todos que chegavam eram recebidos pela jornalista carioca Luciana, que cuida da difícil tarefa de assessorar Plínio. “Ele já está chegando” dizia ela aos impacientes que queriam cumprimentar o aniversariante. Rapidamente o salão e o mezanino lotaram, e o buffet foi atacado pelos presentes. Tudo que se ouvia era o barulho de muitas conversas. Na contramão da realidade atual brasileira, o tema era política.

Jantando naquela casa noturna paulistana se encontravam importantes lideranças da esquerda. O argentino Pedro Fuentes, o deputado federal Ivan Valente, João Machado, o deputado estadual Raul Marcelo e o ex-deputado federal Babá eram alguns dos que prestigiavam a festa de Plínio. “Eu vim visitar um irmão meu em Jacareí, aí não dava pra perder a festa aqui em São Paulo” falou o alegre Babá, dono de uma já famosa (e vasta) cabeleira negra.

Com um blazer sobre uma blusa cinza, característica de um senhor de sua idade, Plínio chega à sua festa. Vem caminhando lentamente, acompanhado de sua esposa, Marieta, e de seu vice, Hamilton Assis. Hamilton, por sinal, chama tanta atenção quanto Plínio, pois veste uma túnica baiana e um cachecol rastafári. O aniversariante faz questão de cumprimentar a todos os que estão no local, e durante sua caminhada angaria presentes, os quais vai levando embaixo do braço. A cada passo do candidato, um flash. Mas nada de grande mídia. “Posso tirar uma foto com o senhor?” diziam os mais simples militantes e simpatizantes do socialista, que logo saiam com uma recordação da noite na memória de suas câmeras fotográficas.

Plínio é um senhor um tanto quanto inusitado. Poucos são aqueles que comemoram oito décadas de vida em meio a uma campanha política desgastante, de nível nacional. São mais raros ainda os que se dispõe a essa maratona de viagens para defender um projeto de sociedade que a maioria da população ou desconhece ou considera impossível de se realizar. Logo ele se senta em um palco armado para um DJ, e ali janta com sua família e amigos mais próximos.

Alguns minutos depois, o microfone é ligado. Vicente, filho caçula de Plínio, faz um emocionado e introspectivo discurso. Critica o sistema capitalista e elogia a vontade do pai em melhorar a condição de vidas pessoas. Em seguida um vídeo que conta a história do aniversariante a partir das palavras da mulher, Marieta, é exibido. Plínio agradece muito à mulher e apresenta seu vice aos presentes.

Hamilton faz um discurso inflamado: “pela primeira vez na história desse país um negro não estará nas eleições apenas para ganhar votos do povo pobre!”. O aniversariante prefere não discursar. Diz que está cansado de mais um dia de campanha, mas agradece a presença de todos, enquanto conta algumas piadas. Plínio e a esposa se retiram da festa em meio a um uníssono parabéns pra você, seguido de um “é socialista, é coerente, Plínio presidente”.

Um globo de discoteca substitui as lâmpadas e o DJ faz os presentes se levantarem para dançar disco-music. A alegria é visível no rosto de todos. Afinal, não é todo dia que um senhor de 80 anos se dispõe a percorrer o Brasil para explicar o socialismo. Só alguém com muita convicção de seus ideais faria isso.

“SOCIALISTA E COERENTE” – A FESTA DE 80 ANOS DE PLÍNIO DE ARRUDA SAMPAIO, pelo viés de Mathias Rodrigues

mathiasrodrigues@revistaovies.com

Para ler mais reportagens acesse nosso Acervo.

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Print this pageEmail this to someone
  • http://silvanadalmaso.blogspot.com Silvana

    Aspectos pessoais. Detalhes. E aí? Socialista e coerente…Integrante de um partido político que almeja o poder num regime democrático e capitalista. Um partido em consonância com um sistema puramente representacional. Socialismo?
    Um partido tão corporativista quanto outros partidos. Qual é o grande diferencial do PSOL? Ser só uma oposição cega não basta, acredito.

  • jlzasso

    Sem polemizar, embora concorde muito com a Silvana…

    O Plinio é um cara de uma trajetória política bastante singular e muito representativa e também muito coerente com as suas convicções, desde a JUC, a AP, como deputado pelo PDC e relator da proposta de reforma agrária do governo Jango e depois na esquerda do MDB quando articulou a candidatura de Fernando Henrique ao senado federal e a formação de um novo partido (que acabou não se concretizando naquele momento, e Plínio foi para o PT)…

    Porém Plinio talvez seja o protagonista do maior erro estratégico da esquerda brasileira no período recente, a sua saída do PT durante o segundo turno do processo eleitoral do partido em 2005, onde a esquerda do PT perdeu por menos de 3% dos votos, votos que Plinio levou com ele na saída para o PSOL.