UNIDOS NO DESEMPREGO

Como evidenciam estudiosos, filósofos, cientistas políticos, políticos e a sociedade brasileira, o capitalismo, sistema vigente no país, não contempla a todos com o emprego, que é o que move e aquece a própria economia lucrativa. Massas de brasileiros vivem atualmente categorizados como desempregados para o país. Segundo dados do IBGE, o Brasil tem 1,9 milhões […]

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Como evidenciam estudiosos, filósofos, cientistas políticos, políticos e a sociedade brasileira, o capitalismo, sistema vigente no país, não contempla a todos com o emprego, que é o que move e aquece a própria economia lucrativa. Massas de brasileiros vivem atualmente categorizados como desempregados para o país. Segundo dados do IBGE, o Brasil tem 1,9 milhões de inativos. Porém, são incluídos nesse número, profissionais liberais, sem carteira assinada, como camelôs, carroceiros e ambulantes.

Em Santa Maria (RS) o número de pessoas sem emprego ou com empregos informais seria de aproximadamente 28.000, segundo o vice-presidente da Associação Santa-Mariense de Profissionais Desempregados Paulo José Moraes da Silva. Para tentar vencer nesse mercado tão complicado, desde 2002 um grupo de desempregados da cidade procurava criar uma cooperativa para juntos tentarem ter voz. Na época, examinaram a burocracia e tarifas para executar o projeto e três meses depois, fizeram um curso sobre cooperativismo. O tempo corria contra a pressa dos desempregados e o plano desandou.

Após três anos, o grupo voltou a se encontrar. A circunstância continuava complicada. Ainda sem emprego, decidiram que criar uma associação e não uma cooperativa facilitaria os percalços burocráticos e o plano, enfim, pode ser executado. Porém, faz pouco tempo que a Associação Santa-Mariense de Profissionais Desempregados realmente se concretizou como projeto definitivo.

No dia 9 de novembro de 2009, foram eleitas 32 pessoas para a diretoria, tendo Erundina Machado como presidenta e Paulo José Moraes da Silva como vice, além de conselheiros fiscais, conselheiros deliberativos e chefes de departamentos. Essas pessoas administram a associação, que já alcançou o número de 1800 associados pelos mais variados bairros e distritos da cidade.

Como fora criado um cadastro com o nome, dados e área profissional de cada um dos 1800, a associação faz também o serviço de agência. Quando são procurados pelo setor empregatício a diretoria vai aos cadernos de cadastramento e procura o profissional mais indicado para o cargo. Caso seja aceito na vaga, informações sobre o novo emprego são arquivadas pelos administradores e o associado é desvinculado, mas continua no registro. Infelizmente a associação não consegue ainda empregar um número satisfatório de seus associados, não chegando a cinco por mês, porém os planos para o futuro são bem maiores. Com a vinda de empresas grandes para o parque industrial da cidade, a diretoria pretende solicitar ao poder público que exija que no mínimo 50 vagas por cada empresa sejam ocupadas por associados.

Para manterem os dados atualizados são realizadas visitas periódicas em 33 bairros, com reuniões nos núcleos, como chamam as casas dos associados. Nessas reuniões, além de serem definidas as metas e ações do grupo, averigua-se se realmente os integrantes da associação estão mesmo sem emprego, para evitar que pessoas que conseguiram se estabelecer recebam os auxílios que o grupo angaria para aqueles que estão passando por grandes necessidades.

Para Paulo José, vários são os fatores que contribuem para o alto número de desempregados. O primeiro deles seria a questão da documentação, visto que muitos dos associados não conseguem emprego por não terem ou por extraviarem seus documentos (carteira de trabalho, certidão de nascimento, RG, título de eleitor). Com a ajuda do cartório, grande parte do trabalho da associação é regularizar essas pessoas, tornando-as legalmente aptas para desempenharem suas funções.

Outro fator apontado pelo vice-presidente é a questão da idade. Muitos dos associados são jovens à procura do primeiro emprego ou então pessoas que não são mais consideradas tão jovens assim:

“Tem pessoas que não conseguem emprego por que já passou dos 35 anos. Então, entrou pra terceira idade, fica mais difícil.”, disse ele.

Um fato muito importante ressaltado por Paulo José é que 70% dos associados são do sexo feminino, faxineiras, professoras, enfermeiras, todas na fila do emprego.  Já a maioria dos homens está à procura de trabalhos braçais, principalmente na área da construção civil, a que mais emprega na cidade.

Recentemente, o camelô de Santa Maria, que estava instalado na Avenida Rio Branco, uma das principais da cidade, foi realocado para o prédio do antigo Cine Independência. Como o sorteio das bancas feito pela prefeitura não concedeu o direito para todos de receber um espaço, muitos camelôs procuraram a Associação, já que a venda de produtos na rua foi proibida. Com isso, alguns foram encaminhados para um primeiro emprego com carteira assinada e outros para serviços gerais, obrigando-os a mudar de profissão.

Portanto, surge a dúvida de qual a diferença entre a Associação e agências de emprego, como o SINE. Paulo José explica que o diferencial ainda a ser implantado são os cursos de capacitação que em parceria com a prefeitura, Universidade Federal de Santa Maria e a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural, EMATER (RS) seriam oferecidos aos membros. Há uma busca por parcerias com órgãos públicos para a promoção de cursos de capacitação nas áreas de costura, padaria e cultivo de hortifrutigranjeiros e a aquisição de equipamentos, tais como máquinas de costura e fornos. Segue como diferencial da associação a distribuição de doações feitas pelo setor público para alguns dos associados mais necessitados, o que geralmente as agências não propiciam.

Como não há cobrança de mensalidade para os associados e também não há ajuda financeira do setor privado a associação fica dependente de doações dos governos, nos níveis federal, estadual ou municipal.

“As últimas doações ocorreram mais pela situação de miserabilidade que vive o país. Há uma cota onde nós somos cadastrados, e lá empresários e produtores calculam e liberam certas quantias para entidades. Santa Maria, através da associação, foi lembrada. Duas vezes pelo Comitê de Ação Solidária do governo estadual com alimentos, roupas e calçados, e uma vez do governo federal. Porém, recebemos esse último e por ser ano eleitoral está tudo cancelado”.

Paulo José expõe: “o que os associados necessitam, na verdade, é de trabalho. Tem que comer, tem que viver, mas com trabalho”. Outra reivindicação diária que a administração recebe é por medicamentos. Remédios de tratamento prolongado nem sempre são encontrados na rede pública da cidade. Com isso, são procurados representantes de laboratórios para tentar conseguir a medicação por meio de doação. Geralmente, a espera é de dez a quinze dias e o medicamento é doado.

Associados também pedem por atendimento clínico especializado. Marcar consulta pelo sistema público de saúde demora e às vezes ocorre morte de pacientes na espera. O que a associação faz é procurar diretamente o secretário de saúde da cidade. Depois de uma visita in loco de profissionais da saúde, dependendo da necessidade, a consulta é agilizada.

A ideia de associação de desempregados surgiu em Santa Maria, mas o exemplo ocasionou interesse de profissionais de outras cidades gaúchas como Porto Alegre, Caxias do Sul e Pelotas. A associação enviou aos interessados o estilo de estatuto e procedimentos pelos quais passaram.

Como já foi dito, a Associação Santa-Mariense de Profissionais Desempregados ainda não possui uma sede, mas já planeja requerer uma ao poder público no Centro da cidade, para propiciar reuniões maiores e para armazenar as doações recebidas. Além desse espaço, a diretoria está solicitando um estabelecimento rural com o intuito duplo: ensinar aos associados o manejo com hortifrutigranjeiros e com animais e reverter para os próprios membros da associação tudo o que for produzido.

A associação busca diálogo com outros setores organizados da sociedade. “Conversamos com movimentos sociais para criar esse vínculo entre a associação e a população. Muitas vezes os clubes de mães, pais e mestres, moradores, sabem melhor dos problemas e nos contatam. Ocorre de cair um poste, perder um documento, pedido de eliminação de taxas, e aí os movimentos nos procuram para tentarmos resolver, já que a associação está sempre perto do poder público no centro”.

A associação sabe de seus problemas e dos problemas do sistema. Por mês, três a quatro trabalhadores profissionais associados conseguem emergir e alcançar um emprego estável. Se fosse calculado, com os 1800 associados e quatro contratados por mês, seriam necessários 37 anos para empregar todo mundo. Sem contar os possíveis novos associados. Esse cálculo é desnecessário, porém, serve como um pensamento matemático para a sociedade analisar formas de mudar a situação e eliminar a exclusão. Lembrando, como disse Paulo José, estamos em ano de eleição.

UNIDOS NO DESEMPREGO, pelo viés de Bibiano Girard e Felipe Severo

bibianogirard@revistaovies.com

felipesevero@revistaovies.com

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