SER FORA DO EIXO – PARTE II

Um agradável piquenique, com amigos comendo e bebendo, conversando e rindo acaba sendo interrompido por uma fumaça que começa a sair do meio das plantas, ao fundo. A partir dali a relação entre aqueles amigos parece mudar. Assim começa o vídeoarte Pik Nik, um dos que fazem parte do trabalho “Meus primeiros vídeos”, do artista […]

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Um agradável piquenique, com amigos comendo e bebendo, conversando e rindo acaba sendo interrompido por uma fumaça que começa a sair do meio das plantas, ao fundo. A partir dali a relação entre aqueles amigos parece mudar.

Assim começa o vídeoarte Pik Nik, um dos que fazem parte do trabalho “Meus primeiros vídeos”, do artista gaúcho Luiz Roque, apresentado no espaço da Sala Dobradiça, na quinta-feira (12).

Cerca de doze pessoas se esgueiravam pelo pequeno espaço da Sala Dobradiça, uma peça anexa ao Macondo Lugar, com as paredes pintadas de branco (por enquanto!) e que recebe os mais diversos tipos de produção de arte visual. Os cinco vídeos da noite (Estufa, Das Monster, Projeto Vermelho, Treinamento e Pik Nik) repetiam-se sem parar, para que aqueles que já tivessem assistido dessem lugar para outros que chegassem atrasados. E assim, entre pessoas passando na frente do projetor (que dava a impressão que ia cair de seu suporte a qualquer momento) para pegar as torradas localizadas do outro lado da sala e conversas informais, todos puderam apreciar o trabalho tão cheio de neblina e fumaça.

A Sala Dobradiça é um coletivo dentro de um coletivo dentro de um coletivo. Faz parte do Macondo Coletivo, que por sua vez integra o Fora do Eixo, a maior rede de cultura livre do país, que trabalha com a produção e distribuição de arte. Como já foi tratado na Parte I dessa matéria, o FdE surgiu há cinco anos voltado para a área musical, como forma de ajudar na circulação de bandas do interior do país e, com o seu crescimento, tornou-se inevitável que outras áreas artísticas fossem agregadas.

Foi assim que surgiram o Palco Fora do Eixo e a Sala Dobradiça.

Alessandra Giovanella tirando fotos durante o vídeo "Das Monster"

O núcleo de Artes Cênicas do Macondo Coletivo começou com apenas duas pessoas, Vanessa Giovanella e Cláudia Shultz. Hoje conta com aproximadamente vinte membros, integrantes da Cia. Teatro de Bolso, do Grupo Teatro Camaleão ou do Teatro Por que Não?. O Macondo Coletivo, juntamente com o Colméia Cultural e Enxame Coletivo, de São Paulo, formam hoje o Palco Fora do Eixo, uma rede que objetiva difundir e divulgar esses grupos locais que trabalham com o teatro.

A iniciativa surgiu quando o grupo daqui de Santa Maria criou, em setembro do ano passado, uma peça voltada para o público que ia assistir aos shows musicais do Festival Fora do Eixo, em São Paulo. Embora já tivessem entrado em contato através de e-mails com a organização do FdE, foi necessário que esses vissem a receptividade que as apresentações tiveram para que o assunto virasse pauta da reunião geral com os representantes dos coletivos e o Palco Fora do Eixo virasse realidade.

O Macondo Coletivo tem uma agenda de apresentações para todo o ano em diversos pontos da cidade. Embora utilize bastante o Theatro Treze de Maio, o grupo procura levar as peças para outros espaços mais alternativos, como o Espaço Cultural Victor Facin (TUI) e o Ateliê da Gare da Estação Férrea, onde ainda essa semana foi apresentado “O Afogado mais Bonito do Mundo”, de criação e atuação de André Galarça, do grupo Teatro Por que não?.

Apresentar as peças na praça Saldanha Marinho, como aconteceu no 3º FETISM (Festival de Teatro Independente de Santa Maria), realizado entre 10 e 19 de julho, alcança um público que por receio jamais iria ao Treze, mesmo em peças gratuitas. A receptividade é grande, e a cidade acaba percebendo os trabalhos que antes eram só divulgados em jornais, mas que ninguém via. O trabalho de agregação de público promete crescer mais ainda, visto que para o Festival do ano que vem já há um planejamento para levar as peças para bairros mais distantes do centro da cidade, como forma de democratizar a cultura da cidade.

Para se apresentar em lugares tão diferentes como o Theatro Treze de Maio e um bairro afastado, é necessário recriar os espaços, e essa é uma das propostas do grupo, fazendo com que as peças se apresentem também fora dos palcos italianos, em que a platéia e o público ficam em níveis diferentes, o que dá outra dinâmica a uma peça. “A gente começou a recriar os espaços. O Palco Fora do eixo vem com essa proposta de ir pros festivais de música e recriar uma sala de espetáculos. Não uma sala, um espaço físico, mas um espaço psicológico para essa sala, fazer aquilo ali virar uma sala de espetáculos. Pode ser na rua, dentro de um pavilhão, na praça, dentro de um bar, na Gare, em qualquer lugar”, diz Vanessa Giovanella.

Ter que repensar seus espetáculos a cada nova apresentação, seja pelo material, pelas coxias ou pela iluminação, acaba se tornando uma ótima experiência para o grupo, que conta com profissionais formados assim como acadêmicos do início da faculdade. Essa mistura saudável e construtiva serviu também para acabar com as pequenas rivalidades entre os grupos da cidade, que não iam apreciar o trabalho dos colegas, e com isso criou uma força conjunta de trabalho nas artes cênicas dentro da cidade.

Para mais informações sobre o Palco Fora do Eixo, dá para acessar o informativo, o Palco de Papel, disponível no site do grupo.

Vanessa e Alessandra assistindo a "Pik Nik"

A Sala Dobradiça, por sua vez, é o grupo responsável pelas manifestações das Artes Visuais do Macondo Coletivo. O espaço surgiu há um ano e meio, idéia dos artistas plásticos Alessandra Giovanella e Elias Maroso e hoje agrega pessoas de várias áreas, tais como psicologia, arquitetura, história e comunicação, para fazer uma arte mais ampla, que pensada em diversos vieses.

“Começamos com essa sala há um ano, um ano e meio, e o trabalho foi crescendo. A gente começou com exposições mensais, sem nunca deixar de lado nosso trabalho como artistas plásticos, artistas visuais. E pensamos as exposições com curadoria conceitual, também, não só escolhendo trabalhos pra se colocar numa parede, mas voltando a sala pra que se tenha nela um trabalho feito próprio pra ela. Ela é pra que os artistas façam um trabalho para o lugar, serve de suporte. Assim como quem trabalha com desenho ou pintura tem a tela ou o papel, a sala é o suporte do artista.”, diz Alessandra.

A Sala deixou de ser um espaço apenas para exposições e se transformou em um grupo que também cria. É o exemplo do “Itinerário SD 0.5”, trabalho da Sala Dobradiça exibido na semana anterior à “Meus Primeiros Vídeos”, de Luiz Roque, nas Sessões de Videoarte

Nessa obra o grupo brinca com a questão da apropriação do território pela arte, ao montar uma estrutura com os formatos da Sala, mas com metade das proporções, em lugares entre Santa Maria e Porto Alegre. Das fotos e vídeos feitos da montagem, surgiu o vídeo que foi primeiramente apresentado na Semana Experimental Urbana de Porto Alegre.

O grupo também faz estudos conjuntos sobre arte contemporânea, com leituras e debates, para pensar a arte, e não transformá-la em um mero objeto curioso com que se “esbarra” em um bar.

O contato com os artistas se dá mais pelos contatos criados na época da faculdade e por outras que se aproximam, por se interessarem também na difusão de seus trabalhos, não só em exposições individuais, que alcançam pouca visibilidade.

Para se pensar como grupo, foi realizado um exercício em que cada membro escreveu no papel qual era a sua idéia de Sala Dobradiça. A partir da consolidação de uma idéia central de qual é o objetivo em comum, a Sala pretende partir em breve para o próximo passo, que é a busca por novas parcerias, como já ocorreu com o núcleo de Artes Visuais.

Como havia pouco espaço na cidade para e exposição que não fosse voltado para a arte comercial, de desenhos de flores e naturezas mortas, e a produção da faculdade de Artes Visuais da UFSM muitas vezes acaba se resumindo a pequenas apresentações que não alcançam muita visibilidade, o exemplo da Sala Dobradiça serve como estímulo para que outras iniciativas do tipo surjam na cidade e assim fomentem a criação local.

E agregando trabalhos nas áreas culturais da música, artes visuais e artes cênicas, o Macondo Coletivo torna-se o  grupo que mais trabalha com artes integradas no país, mostrando que esse trabalho, ao mesmo tempo que é prazeroso, necessita de muito empenho e seriedade.

Entrevista na íntegra com Alessandra e Vanessa Giovanella

Leia a Parte I dessa matéria

SER FORA DO EIXO – PARTE II, pelo viés de Felipe Severo

felipesevero@revistaovies.com

Para ler mais reportagens acesse nosso Acervo.

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