A ORDEM É REINVENTAR

a ordem é glamour

 

Os anos 70 já estavam desligados da sexualidade tradicional. O Glam Rock inglês montava o visual purpurinesco e Ziggy Stardust e Ney Matogrosso colocavam as asinhas de fora. Esse visual não era de todo abandonado, se adaptava e junto da cultura dos anos 50, os anos 80 criavam uma forma. Bem, esses anos 80 guardavam as estadunidenses Madonna e Cindy Lauper. O novo desbunde disseminava para o resto do mundo as drag queens e a moda livre. Clubes, tanto em Nova York, como Londres, como São Paulo, recebiam transvestidos que recepcionavam e dançavam vestidos de maneira espalhafatosa, trazendo o burlesco e as boates cinquentistas de Elvis Presley, além de circularem pelas ruas próximas aos clubes.

Para a origem do termo drag queen existem várias possibilidades. O provável é que era uma gíria usada no século XIX pelo teatro e pelo universo gay. Drag como vestir de forma generalizada, ou ainda abreviação de dressed as girl, vestido como menina, que teria drab em outra ponta significando dressed as boy, vestida como menino. Porém, a idéia de drag estar relacionada ao arrastar de vestidos pesados próprios da época no palco por atores transvestidos é a mais plausível. Aí Drag Queen, vestido como rainha e Drag King, vestida como rei.

 

Ser Drag Queen não está relacionado diretamente com opção sexual. Apesar de habitualmente colocadas no universo gay, muitas são heterossexuais, andróginas, hermafroditas e seja lá mais o que estiver às margens das definições seguras de homem e mulher. Esse modo pode ser ou não constante, normalmente ele se aproxima de uma manifestação artística onde o indivíduo se transforma para shows em boates, recepções, performances em jantares e encontros (de família também). Realmente, são a parte que mais varia de ambiente já que são divertidas e precisam apenas que seus espectadores tenham humor.

A ordem é glamour. Maquiagens exageram todos os traços e as aproximam do risível. As roupas precisam de brilho e cores, bem como rainhas. Existe um próprio tipo de música que é drag music, de batida eletrônica e vozes fortes (com I Will Survive, como hino). Como elas dizem, não basta glitter, plumas, paetês e cílios postiços, é ser divertida sem causar repulsa, não perder a pose, não descer do salto alto e assumir-se uma palhaça.

É inegável esse traço de aproximação com o teatro. Na busca de uma “vida verdadeira inventada” desconsideram opção sexual e maniqueísmos. Lançam-se como seres sem enquadramento, que querem disseminar riso. No Brasil dos anos noventa, elas começaram a aparecer em novelas, programações de TV e filmes, ou seja, passaram a chamar a atenção do grande público pela excentricidade que o mundo gay trazia ao mundo… heterossexual?

Questionamentos surgem por parte de teóricos sobre essa cultura no Brasil. Já que a origem (quanto cultura de massa) é estadunidense, por isso hegemônica e mercadológica, a pergunta é se essa manifestação seria subversiva ou conformista. Bem, podemos dizer que existe, sim, uma forte influência por parte de uma “potência”, porém, isso não retira ou faz esquecer o caráter artístico, que se liberta desses enquadramentos políticos e as coloca como indivíduos – a denominação do quanto o grupo é ou não subversivo complica. E, além do mais, antes dessa cultura espraiar-se a partir de 1990 no Brasil e na grande mídia, por aqui existia as espoletas Caricatas.

 

a ordem é escracho

No Rio de Janeiro personagens semelhantes às drag queens faziam risos. Carnavalescas, as Caricatas era um tipo sem glamour, sem humor elegante. Elas eram bem oitentistas, década que antecede a chegada da cultura popular chiquérrima drag dos EUA. Veiculadas como anarquistas por causa da liberdade e do descompromisso, as Caricatas estavam totalmente associadas ao homossexualismo e uma forma bizarra de assumir a opção.

Também cobertas de plumas e paetês, eram menos sofisticadas. Faziam da imagem feminina  exacerbação e sátira. Não à toa eram caricatas, caricaturas. Do local, com o tempo, a imagem se adaptou à globalização, optando pelo nome estrangeiro drag queen. Sobreviveu também a drag caricata, que uniu os dois perfis sem perder a onda.

Suzy Brasil (do Rio de Janeiro) é uma drag caricata. Antes de ela se apresentar, pinta os dois dentes da frente dando a impressão de que eles não estão ali. Pura finesse. Essas moças optam por roupas mais baratas e nem por isso menos arranjadas. Suzy Brasil é um professor de ensino médio, pode ser conhecido pelo documentário “Suzy Brasil – A Deusa da Penha Circular”, se você clicar vai direto para o youtube, ou assista aqui em baixo. Nesse site você tem os dados da produção.

Suzy Brasil – A Deusa da Penha Circular, parte I

Suzy Brasil – A Deusa da Penha Circular, parte II

 

Pois bem, essa pequena matéria é uma preliminar para a da semana que vem. Em Santa Maria acontecerá a Parada Livre e o Viés vai cobrir esse escândalo de cores. Voltaremos com fotos e, esperamos, alguns perfis de dentro desse mundo cômico profissional. Sabendo agora de onde vem e como vem, podemos falar das dimensões  da cultura pop e agregações.

Leia a reportagem sobre a Parada Livre em Santa Maria, PURRRPURINA

 

 

 

A ORDEM É REINVENTAR, pelo viés de Caren Rhoden

carenrhoden@revistaovies.com

 

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