FUROR POLÍTICO

O trevo da Avenida Roraima, antes de chegar à Universidade Federal de Santa Maria, estava animado por bandeiras amarelas e vermelhas do PT. Eram 9 horas da manhã. Além de aproveitar para campanha política, comemorava-se a primeira vez que um presidente da república eleito democraticamente pisaria na Universidade Federal local, grande responsável pelo desenvolvimento da […]

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O trevo da Avenida Roraima, antes de chegar à Universidade Federal de Santa Maria, estava animado por bandeiras amarelas e vermelhas do PT. Eram 9 horas da manhã. Além de aproveitar para campanha política, comemorava-se a primeira vez que um presidente da república eleito democraticamente pisaria na Universidade Federal local, grande responsável pelo desenvolvimento da cidade e formadora de tantos profissionais mundo a fora.

O prédio 74 da UFSM expunha um clima diferente. Ali, berço socialista e de indignação contra qualquer tipo de opressão, encontravam-se parados ao lado da porta dois policiais bem armados, alguns da cavalaria sob capas de chuva ao redor, seguranças e mais seguranças (tranqüilos, simpáticos) e atiradores de elite (que só puderam ser vistos na saída do presidente) sobre o prédio da reitoria.

A cuia e a bomba, por favor, não serão aceitos. Era o aviso principal dos seguranças sorridentes para o público (gaúcho indignado com tal disparate) que esperava ansioso na fila. A garrafa d’água também não. O guarda-chuva tá liberado.

Após duas horas de público cruzando os detectores de metal, deixando suas cuias, bombas e garrafas d’água, deu-se início ao evento. Posicionou-se ao palco a primeira convidada. Era a intérprete de Libras que acompanharia os discursos.

Alguns componentes que se sentariam nas cadeiras sobre o palco subiram a escada lateral e posicionaram-se. O próximo convidado subia vagarosamente degrau por degrau após ter seu nome apresentado pela mestra de cerimônia. Surgia, da maioria das mais de três mil vozes que lá se encontravam, uma vaia viçosa, exuberantemente repleta. Ecoou pelo grande espaço sob uma lona branca que protegia o público da forte chuva que desabava sobre a cidade gaúcha. Do sorriso fez-se seriedade. Do abano jovial fez-se um rápido cumprimento no ar. Talvez o minguado e careca prefeito da cidade não idealizava que seria tão amistosamente embolsado pelos eleitores. A letra “u” fora repetida por alguns segundos.

Milhares de cabecinhas erguiam-se para talvez enxergar o astro da manhã. Não seria o sol, pois o clima era mais londrino do que carioca. Um mega telão mostrava cenas de outras três cidades onde os presentes também esperavam aflitos a presença (virtual) do homem.  Sobem ao palco várias autoridades, como reitores (através do telão, as autoridades das outras cidades simultaneamente faziam o mesmo), o ex-governador ovacionado Olívio Dutra, o Ministro da Educação Fernando Haddad e ele, Luis Inácio Lula da Silva. Para o grito de ordem da manhã, apenas “Lula”, “Lula”.

Foi ao púlpito para discorrer sobre as vitórias dos estudantes durante o governo Lula o estudante Pedro da Silveira, membro do Diretório Central dos Estudantes e 1º Diretor de Movimentos Sociais da UNE. De longas melenas, Pedrinho, como é localmente conhecido pela classe estudantil, afirmou que a luta atual dos estudantes é construir, junto ao governo, uma universidade que forme cidadãos, não apenas requerendo construções e melhorias, mas sim, um local acadêmico de qualidade. Pedrinho terminou o discurso e ganhou um abraço apertado do Sr. Presidente da República. Após as falas análogas dos três reitores e do triste e abatido discurso do prefeito local, discursou também o Ministro da Educação. Este tentou aliviar a tensão entre platéia e prefeito, afirmando que durante os mandatos de Schirmer como deputado, votou a favor do governo de Lula por duas vezes. Impressionantemente, a platéia não se contentou com as míseras duas vezes.

Era chegada a hora de vir a frente e segurar o microfone um dos presidentes mais bem avaliados da história nacional. De camisa branca e uma barriga de vovô surgindo, a presença de Lula em pé fez a lona tremer, as cadeiras balançarem e os flashes reluzirem. Gritos de “Lula” surgiam por todos os lados e o povo inteiro logo aprendia o ritmo. Palmas e sorrisos, abanicos do presidente.

Lula soube falar exatamente o necessário em uma ordem que levava a mente do ouvinte a conclusões por Lula já premeditadas. Falou da força feminina. As mulheres não estão aqui de passagem, nem nas universidades, nem na política. A idéia de sexo fraco é uma mentira de um machismo já antiquo. Dilma, Dilma! A reposta satisfatória para o professor da oratória.

Vão inventar uma máquina de ressonância magnética que identifique o preconceito do cidadão. E aí vão dar uma injeção no cérebro pra retirar o preconceito. A fala indignada e teatral de Lula.

Com veemente sinceridade, falou da sua incompreensão sobre o medo de autoridades para com autoridades de nível inferior. Por que ter medo de reitor? Por que ter medo de prefeito? Contou suas façanhas democráticas, exemplificadas por aqueles cidadãos comuns que pisaram no Palácio do Planalto. O que antes era para reis, rainhas e tal e coisa, passou a ser do povo.

O investimento em educação foi ressaltado. Lula disse ter proibido em reuniões que se tratasse como gasto aquilo que era investimento. Além de exportarmos laranjas e café, vamos exportar conhecimento. Não poupou em gestos e em gritos a la esquerda. Falou como noutros tempos. Ficamos com uma pergunta, uma pergunta de quem se hipnotizou pela capacidade oratória do presidente: como é que a grande mídia consegue dar tanta atenção a gafes com um gênio da política em sua frente? Isso não reduz as questões sobre o governo. Talvez o negócio seja não ter medo, mesmo. Dilma está garantida. O povo deu um olé e ligou a televisão para aquário. Ou a imprensa, um tiro no  pé, mostrou o queria ser visto: o risível. Gravatas, adiós!

FUROR POLÍTICO, pelo viés de Caren Rhoden e Bibiano Girard.

carenrhoden@revistaovies.com

bibianogirard@revistaovies.com

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  • http://www.saladobradica.blogspot.com Elias Maroso

    Ótima matéria! Adorei!
    Parabéns pela revista!

  • José Luís

    Bah, galera…

    eu até cumprimentei o Bibs pela matéria ontem e esqueci de falar o mesmo pra Caren, afinal ficou muito boa…

    Mas me permitam patrulhar um pouquinho, hehehe…
    galera, o 74 não é berço de nada, é um prédio inaugurado em 2005, por coincidência no governo Lula e com recursos de uma emenda parlamentar conjunta da bancada gaúcha na Câmara dos Deputados. O prédio da Antiga Reitoria é que tem bonitas histórias de “indignação contra qualquer tipo de opressão”, como a criação do DLD (Diretório Livre do Direito), o próprio prédio 20 (não o 21) e a história da primeira “sala” do DACOM também pode ser outro exemplo…

  • http://catherinedejupiter.wordpress.com júlia

    Bastante legal de ler o texto, pela forma como foi escrita e pelo conteúdo. Obviamente não podemos cair na tentação de explicar a popularidade do presidente através do argumento do carisma individual. Isso seria um erro.

    Uma colaboração à fala do Zasso: o prédio 74 somente foi ocupado pelos cursos no início do ano de 2006, na volta de uma greve que durou quase 4 meses. E acredito que o antigo hospital universitário, hoje ”lar” de iniciativas de ouro da extensão universitária, também seja um exemplo de iniciativa e crítica.

  • http://silvanadalmaso.blogspot.com Silvana

    Adorei o texto. Parabéns aos autores. Deu pra ter uma boa ideia de como foi a vinda do Lula. Gostei das fotos também. E o DLD, Zasso, hoje não tem qualquer traço de indignação ou opressão; como tu mencionaste, essa história do Diretório é passado mesmo.