PURRRPURINA

A semana da diversidade sexual em Santa Maria começou no dia 23 de agosto. Muito bem transferida para domingo ensolarado do dia 4, a Parada Livre coloriu a decrépita, nem por isso menos bela, Gare da Estação Férrea. O tema foi “Livre Orientação Sexual é Direitos Humanos”. Ao chegar no horário marcado, mais parecia comício. […]

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A semana da diversidade sexual em Santa Maria começou no dia 23 de agosto. Muito bem transferida para domingo ensolarado do dia 4, a Parada Livre coloriu a decrépita, nem por isso menos bela, Gare da Estação Férrea. O tema foi “Livre Orientação Sexual é Direitos Humanos”.

Ao chegar no horário marcado, mais parecia comício. Bandeiras de partidos políticos da direita para a esquerda. Poucas pessoas e a espera. Mas claro que ninguém iria acordar às duas horas da tarde de um domingo, lembrava a organizadora. O palco cheio de balões começava a preparar a festa com um DJ tocando os sons das divas. Devagarzinho, plumas cor-de-rosa e piercings no umbigo. Casais de meninas e casais de meninos. Família, vó, vô, cão…

Espetinho, refrigerantes, cervejinhas; Hellen Byanchini surgiu em cima de uma camionete abanando luxuosa que só ela. A cabeleireira e maquiadora trazendo seus quarenta títulos de beleza em uma simpatia de dar gosto. Quase não dava pra acreditar que aquela mulher era travesti. Aos 18 anos saiu de um bolo em uma festa surpresa. Nunca mais voltou. Fez cirurgias plásticas, é casada há cinco anos, tem 16 cachorrros e vive em uma chácara em Santa Maria. Guarda 163 vestidos de gala, o que permitiu que ela trocasse duas vezes de roupa durante o dia. Tirou muitas fotos e discursou defendendo a liberdade de si, não ter preconceito consigo, ela disse.

Iam chegando a pé também. Além da cidade, havia meninas de Cruz Alta, cansadas pela festa da noite anterior, onde escolheram, entro outros, o Mister Simpatia Diversidade. Passeando por ali, acima de nossas cabeças, o casal pernas-de-pau do Teatro Universitário Independente (TUI), dando mais cores e um tom circense à Parada.

E circense foi a chegada das três caricatas. Também na camionete, as três quase não cabiam. Muitas plumas, penduricalhos e um cajado de balões. Na hora de sair quase um tombo. Sapatos altíssimos e detalhados por girassóis. As Drags Caricatas (leia no texto “A ordem é reinventar” sobre isso) eram Lulu Boquete de Veludo e Weruska Gamela. Lulu tem 52 anos e é acompanhante de idosos. Já foi casada com uma mulher pelo Candomblé e tem um filho que não conhece. Avisa que está solteiríssima. Lulu mora com Weruska que namora há 11 anos. O namorado dela é quem protege elas quando a coisa aperta. Weruska tem 40 anos e na Parada usava um ornamento na cabeça de uns 5 quilos. Na roupa, conchinhas penduradas. Ela é pai de santo.

Weruska e Lulu comentaram sobre outros tempos onde AIDS não era uma doença tão disseminada; contaram da dificuldade, quase impossibilidade, de agir e vestir da forma como hoje pela forte repressão. Lulu falou que casamento gay e filhos para esses casais sempre foi fora da lei e nem por isso menos praticado. Criticaram também a Prefeitura atual (Cezar Schirmer – PMDB), disseram que com Valdeci Oliveira (PT) conseguiam organizar seus eventos, tinham possibilidade de diálogo e eram mais respeitadas.

As crianças olhavam deslumbradas e sem compreender muito, pais e mães tomavam seu chimarrão e acompanhavam o momento dos shows. Algumas cantaram e dançaram, algumas que há alguns anos não compareciam, como Cilene Rossi, outras fazendo a sua primeira apresentação pública. Cileni trabalha como Profissional do Sexo. Por dez anos encontrou seus clientes na Presidente Vargas. O pior eram os playboys de carro atirando ovos na gente, contou. Hoje marca por telefone, tem fregueses fixos. Vive com a mãe. Cileni disse ter se descoberto cedo adorando os astros homens da televisão; aos 12 anos escreveu uma carta de amor para um colega e a escola a mandou para um psicólogo. Com ele, descobriu o desconforto de práticas sexuais com alguém que não tinha esse direito, tampouco dever. Hoje isso seria crime, diz ela. Fato que provavelmente segue acontecendo em alguns consultórios. Nas mãos dela, o troféu de Orgulho GLBTT.

Stelle também é Profissional do Sexo. Foi a primeira a anunciar no jornal em Santa Maria, além de o fazer na internet também. Por um tempo trabalhou na Presidente Vargas e lembrou que às vezes “a polícia chegava batendo a maior rebordosa”. Casou com um michê, porém continuou trabalhando e sem querer sustentar mais ninguém voltou a ficar sozinha. Stelle foi quem deu mais detalhes. De 10 homens com os quais sai, nove são casados e oito querem que ela seja a ativa. Fazendo uma análise do freguês, cobra de 60 a 100 reais. Não roda mais pelas ruas a não ser para ver homes diferentes. “É dinheiro fácil”, falou ela com o que concorda Cilene. Stelle, hoje com 32 anos, aos 6 foi comprar cebola e encontrou seu primo que ofereceu uma moeda de cinqüenta cruzeiros para ela “dar para ele”. Bem, foi assim. “A representação das profissionais do sexo no cinema e na televisão é mais fantasiosa”. Na vida real, as coisas acontecem naturalmente.

Com essa naturalidade a Parada Livre reuniu naquela tarde pessoas de todos os tipos. Elas eram vistas por muitos como personagens risíveis, estranhos, efêmeros. Como se existissem no momento da diversão, ou no momento de serem reportadas por olhares meramente curiosos e depois desaparecessem. Passear pela rua da cidade das mesmas pessoas que ali se portavam respeitosas poderia significar um esfrangalhar-se emocional. Ali, conversando com elas, sacando pelas palavras a complexidade humana que mora em todo o indivíduo, abriram-se muitas cervejas e comeu-se alguns pastéis. Não foi preciso a naturalidade de fingir que já conhecemos, que compreendemos;  interessante mesmo foi ver que é reconhecível e compreensível. Natural. Glamour de placo. Reinvenção.

PURRRPURINA, pelo viés de Caren Rhoden.

Repórteres:  Bibiano Girard e Caren Rhoden.

bibianogirard@revistaovies.com

carenrhoden@revistaovies.com

Para ler mais reportagens acesse nosso Acervo.

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  • http://catherinedejupiter.wordpress.com júlia schnorr

    Acompanho a Parada Livre (que não é só gay) há três anos e percebi esse declínio que uma das entrevistadas enfoca. Meu cabeleireiro passou a reclamar que as ”bibas” se dividiram e brigaram em 2009..e de fato a parada desse ano foi sem brilho. Por trás da cortina de purpurina e glamour, as pessoas só desejam livre orientação (e não opção) sexual e respeito. Acredito que a parada livre seja o ápice da semana da diversidade sexual, onde várias pessoas debatem temas que são relacionados ..como políticas públicas e sexualidade. Legal ler sobre esse tema no Viés..sempre com temas interessantes :)

  • hellen byanchini

    adorei a reportagem e voces tbem. obrigada e que deus os abençoe!!!