SIMOCA: TRÊS SÉCULOS E AINDA BEM VIVA

Há coisas que atravessam a existência humana. Cruzam e saem para além da vida. O homem, quando muito, beira a uma centena de anos. Para além dessa margem de vida, ficam os costumes e as tradições. Constroem-se estes. Então, certas instituições ou acontecimentos  tornam-se pedaços vivos, órgãos epicentro de milhares de existências e histórias. Descida […]

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Há coisas que atravessam a existência humana. Cruzam e saem para além da vida. O homem, quando muito, beira a uma centena de anos. Para além dessa margem de vida, ficam os costumes e as tradições. Constroem-se estes. Então, certas instituições ou acontecimentos  tornam-se pedaços vivos, órgãos epicentro de milhares de existências e histórias.

Descida do ônibus San Miguel-Simoca: cena de cidade interiorana. O município de fato é uma pequena cidade no interior do norte argentino. Há que se ir no sábado para presenciar a feira que, neste ano, completou 300 anos de existência. Na aridez de agosto, as árvores secas dão o tom para a localidade. A terra do solo se mistura a pessoas, objetos, construção. As bancas da feira se traduzem em pessoas, tradições e costumes.

¿Una empanadita? (Uma empanadinha?)

Nélida trabalha na feira há mais de duas décadas. Vende doces e empanadas (espécie de pastel assado  que se como muito no norte argentino e que pode ser recheado com diversos sabores). Rindo, vai entregando provas e  explicando o que é cada recheio.

¿Bueno, no? Este relleno es hecho de una fruta parecida con  la sandia. (Bom, né? Esse recheio é feito com uma fruta parecida com a melancia). Aponta para a fruta, que está disposta entre outras na tenda ao lado.

Tres por cinco pesos, llama tus amigos después para probar. (Três por cinco pesos – aproximadamente R$2,20 -, chama teus amigos depois para provar).

A Feira de Simoca reúne pequenos produtores, artesãos e agricultores.  Ter moeda não é uma regra no comércio praticado ali. A troca persiste uma constante, mesmo depois do fenômeno do mercado ‘dinheiro’ ter sido consolidado.  Daí que, se um “trocador” se interessa por uma coisa do outro e vice-versa, é simples: troca-se. Verdureiros podem fornecer produtos e trocar por comidas prontas. Comidas prontas podem ser trocadas por uma artesania. E assim vai… A troca, ainda que mais presente entre os próprios feirantes, também é aberta às ofertas de quem visita.

Conforme diz a história, a Feira de Simoca começou com a chegada de padres franciscanos à região. As missas realizas por eles atraiam muita gente dos arredores. Como as vias para se chegar ali não eram boas, ou eram quase inexistentes, as pessoas costumavam chegar um dia antes (sábado) e esperar a missa de domingo. No lugar onde ficavam, armavam tendas e fogos de chão, para fazer comida, e se punham a cantar. Nesse meio é que teria surgido o início da troca de produtos.

Há quem se choque um pouco quando entra no espaço da feira. Nas bancas iniciais, muitos animais mortos já sem couro estão pendurados. Dependendo do momento, se pode presenciar também um grito de porco ou de cabrito.  Talvez se presencie também estes sendo arrastados para abatedouro. Em Simoca, parece que o abate ainda é simplesmente para consumo próprio , troca e sobrevivência.  A venda não tem contornos de acúmulo ganancioso de dinheiro. Cada comerciante que vende um couro ou alguma iguaria feita com carne, parece estar passando adiante o conhecimento de hábitos que atravessaram séculos.

Entre as tendas, há as tais comidas feitas com carne, além de couros e queijos. Não há uma disposição certa, mas pode-se dizer que,  mais adiante, começam as tendas de verduras, frutas, doces. Logo, vêm aquelas com artesanatos e roupas.  No meio destas, está John e uma amiga. O rapaz já viveu no norte do Brasil por alguns anos, mas é nativo desse outro norte: o norte argentino.Ele e a companheira montam a banca de miudezas e bijuterias todas as ssemanas. 

Yo vivo en San Miguel, pero todos los sabados estoy aqui con mi banca. (Eu vivo em San Miguel mas todos os sábados estou aqui com minha banca.)

John não é velho. Em Simoca, conservar costumes não é tarefa relegada aos mais idosos. As únicas bancas que cortam esse todo de tradição podem ser ouvidas de longe. Um som portátil toca músicas da moda tucumana e indica que ali se vendem Cd’s e Dvd’s.  Quase em frente destas, um senhor gordinho e simpático sorri. Ramón está em frente a sua banca, conversando com amigos e clientes.

Mira, puedo te explicar todo lo que se pasa en la feria. Hace años trabajo aqui. Conozco bien. (Olha, posso te explicar como funciona a feira. Faz anos que trabalho aqui. Conheço bem.)

Ramón começa a apontar para lugares ao longo do espaço da feira. Tal espaço corresponde a, mais ou menos, seis quadras. Bem no fundo está a área onde ocorre, em julho, a festa anual da Feira de Simoca. Em tal ocasião se oferece passeios de sulky, espécies de carruagens de duas rodas muito tradicionais na cidade e  se presencia apresentações de cantos e danças folclóricas. Em Simoca, com seus cerca de 4000 habitantes, parece se ter sempre algum motivo para festejar, rir e conversar.

Paralelo aos corredores da feira comercial, se estendem bolichos. São bares-restaurantes que oferecem comidas típicas. Empanadas, assados, locro, tamales e humita. Mas entre as mesas se acha algo tão típico quanto o cardápio. Grupos de senhores unem as suas e sentam-se em volta delas. Violões, bombos e vozes enchem o ambiente. Canções tradicionais, tons graves, olhos expressivos. Quando a feira vai chegando ao fim, as garrafas de cerveja e vinho já estão em bom número, vazias, pelas mesas. Ouvem-se também explicações sobre o momento:

Esto se llama el “después”. (Esse -momento- se chama o “depois”)

Depois do “depois” e durante o “depois”, as barracas começam a ser desarmadas. As mercadorias são recolhidas. É como um fim de festa, término de ritual. A feira de sábado, que começa por volta das 8h, finda às 16h30 aproximadamente. Os comerciantes, ainda trabalhando no desmonte, olham os visitantes entrando nos ônibus. Fica um ar de mais um dia cumprido, mais algumas horas de resgate e afirmação da feira.

A poeira começa a baixar, os comerciantes se retiram, os donos dos bolichos ainda ficam atendendo os últimos fregueses. Enfraquece o sol. Se vão os últimos. Visitantes e turistas deixam Simoca. Levam, no contato com o diferente, impressões e experiências. E Simoca… Simoca permanece o chão firme, a mistura de rito, tradição e costume.

SIMOCA: TRÊS SÉCULOS E AINDA BEM VIVA, pelo viés de Liana Coll
lianacoll@revistaovies.com

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