A PERIFERIA QUE TEM VOZ

No trajeto de acesso ao pátio da Escola Estadual Rômulo Zanchi, a movimentação atípica para uma manhã de sábado já sinalizava um evento especial. Mais próximo ao portão, delineava-se no ar o som grave da música que vinha do interior da escola e o alvoroço indistinto de crianças. No saguão, bancas de oficinas, crianças e […]

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No trajeto de acesso ao pátio da Escola Estadual Rômulo Zanchi, a movimentação atípica para uma manhã de sábado já sinalizava um evento especial. Mais próximo ao portão, delineava-se no ar o som grave da música que vinha do interior da escola e o alvoroço indistinto de crianças. No saguão, bancas de oficinas, crianças e adolescentes e um palco, sobre o qual estavam as caixas de som, algumas pessoas e uma grande bandeira, com o nome do evento escrito em letras estilizadas: Guerrilha da Paz.

Criado pelo movimento Hip Hop santa-mariense, o Guerrilha da Paz é um projeto voltado para as comunidades periféricas de Santa Maria. Justamente por isso, transita entre os diferentes bairros e vilas da cidade. A quinta edição, realizada no sábado, 16 de outubro, teve como sede a Escola Rômulo Zanchi, localizada na Vila Schirmer.

A preocupação do projeto com a periferia não é em vão: três de seus principais organizadores têm suas raízes nos bairros mais afastados do centro de Santa Maria. São eles Igor da Rosa Gomes, conhecido como Igor Magrão, morador há 16 anos do Alto da Boa Vista, Flávia Sortica Giacomini, a Flavinha Manda Rima, e Gabriela Painnes da Silva, a Gabit Box, ambas moradoras do bairro Tancredo Neves. Os três também são parte do Coletivo de Resistência Artística Periférica (CO-RAP), iniciativa que envolve diversos artistas santa-marienses que têm na relação entre a arte e a periferia sua forma de resistência e identidade.

O Guerrilha da Paz utiliza as diversas expressões artísticas do Hip Hop para atingir os jovens das regiões periféricas da cidade, aproveitando-se da linguagem que é compartilhada por ambos. Além de demonstrações e shows, a participação de movimentos sociais parceiros enriquece e diversifica a gama de oficinas ministradas a quem quiser participar. Igor Magrão, que é MC do grupo Consciência Periférica e um dos principais articuladores do Guerrilha da Paz, explica a principal finalidade do evento: “O intuito do Guerrilha da Paz é estar à margem do centro e valorizar o que vem da periferia, tentar trazer a sua identidade e, ao mesmo tempo, elevar a auto-estima dela. É a valorização da música rap, da periferia e da negritude”.

Se hoje parte do Hip Hop parece ter perdido um pouco de seu caráter de movimento social, por uma série de fatores como a crescente individualização de seus elementos primordiais – MCs, DJs, B.Boys e grafiteiros – e a busca por espaço e reconhecimento no mercado fonográfico, é possível dizer que esta não é uma via de mão única. No Guerrilha da Paz, o aspecto social do Hip Hop é tão importante quanto seu caráter artístico. Mais do que isso, ambas as dimensões se complementam nas oficinas e ações realizadas. “A questão é apresentar para os jovens uma outra opção, fazer a comunidade se envolver”, afirma Magrão.

As religiões e tradições de matriz africana têm um espaço respeitável e tão importante para o Guerrilha da Paz quanto o próprio Hip Hop. Pai Ricardo, um dos representantes da religião afro-brasileira e responsável pela oficina de dança afro no Guerrilha, diz que a cultura de raiz africana na cidade depende das suas próprias iniciativas. Na luta por espaço e contra o preconceito, a parceria com o pessoal do Hip Hop foi natural. “O Hip Hop, por ser uma cultura de origem negra, tem uma ligação forte com a dança afro. Buscamos resgatar com essa gurizada um pouco da cultura afro, das raízes africanas. Não temos tido espaço em nenhum outro lugar. Se não criamos os espaços, não temos lugar [em Santa Maria]”.

A realização de oficinas, principal ponto da edição realizada na Escola Rômulo Zanchi, só começou a aparecer a partir da segunda edição do Guerrilha da Paz. Flavinha Manda Rima, que é MC, estudante de Pedagogia na UFSM e articuladora do movimento Hip Hop de Santa Maria conta que a primeira edição do Guerrilha, realizada em abril de 2009, teve um caráter mais assistencial. A ideia surgiu da demanda por um lugar para que o público do rap pudesse se reunir, conforme complementa Igor Magrão. Segundo ele, o público do rap nas comunidades cresceu após o início do programa Rádio Perifa, transmitido na rádio comunitária Nova Santa Marta FM.

A primeira edição foi realizada no Ginásio Oreco e organizada em parceria com a Associação Comunitária da Cohab Tancredo Neves. Na entrada, quem pudesse contribuía com um quilo de alimentos, posteriormente revertidos para uma creche no Alto da Boa vista. No primeiro Guerrilha, aconteceram shows e a reunião de diversos grupos de Santa Maria e de outras cidades. Era o primeiro passo do diálogo que o Hip Hop estabelecia com as comunidades periféricas da cidade.

A partir de então começaram a acontecer oficinas durante o evento e sua dimensão foi se ampliando, indo do assistencialismo para a formação. Depois da primeira edição na Cohab Tancredo Neves, o Guerrilha da Paz foi para a Escola Marista do bairro Santa Marta, com a intenção de levar a cultura de rua para dentro da escola. A terceira edição ocorreu em dezembro de 2009 na Associação Comunitária do bairro Cipriano da Rocha, para comemorar o aniversário de um ano do loteamento. As oficinas e shows seguiram e havia uma banca de saúde pública, para “comemorar um ano de Cipriano, levar informação, orientar as pessoas e fazer barulho”, como relatam Flavinha e Pai Ricardo, morador do bairro Cipriano da Rocha. A quarta edição – a maior até agora – ocorreu já em 2010 e reuniu cerca de 500 pessoas nos dois dias de evento.

Na tarde do sábado, enquanto as oficinas aconteciam e as crianças se dividiam entre as atividades, a professora Jane Zorzi observava e deixava, vez que outra, transparecer um sorriso no rosto. Ela trabalha há 24 anos na Escola Rômulo Zanchi e lá coordena o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid) da Pedagogia, do qual Flavinha participa. A professora Jane foi quem sugeriu que a quinta edição do Guerrilha da Paz fosse realizada no colégio, depois de conhecer o projeto no bairro Santa Marta. “Eu queria algo que se aproximasse mais da realidade dos alunos e sabia que a Flávia, vindo para cá, conseguiria fazer algumas coisas diferentes e mexer com essa gurizada”. Jane acredita que iniciativas como o Guerrilha ajudem a atrair e dialogar com os alunos. “A vida da escola está em atividades como esta, em conseguir ter um olhar diferenciado. Os alunos estão encantados. Olha a tranquilidade que está aqui hoje”.

De fato, era possível perceber um clima descontraído na escola. Nada do silêncio das salas de aula ou da bagunça de um recreio. No geral, a participação foi ampla e interessada. Durante a manhã, enquanto alguns aproveitavam para aprender a andar de skate no chão liso do saguão, cerca de dez crianças montavam seus fanzines e elaboravam ideias a partir de palavras e imagens recortadas, sempre incentivadas por Gabit Box. Outro grupo ocupava uma sala de aula para escrever as primeiras rimas e ter algumas noções de ritmo e estilo com Flavinha Manda Rima. Aconteciam ainda as oficinas de meta-arte (arte a partir de lixo reciclado) e dança afro. Pela tarde, além dos garotos que seguiram andando de skate, tiveram lugar as oficinas de estêncil, de grafite, de samba e de capoeira. Vico, responsável pela oficina de grafite e também membro do CO-RAP, comentou satisfeito ao fim do dia que das diversas pinturas espalhadas pelo pátio da escola, somente uma tinha sido feita por ele – todas as outras eram de alunos.

E não eram só os alunos que estavam envolvidos em oficinas. Em uma das salas, os professores da Escola Rômulo Zanchi estavam reunidos para a oficina de “Educação para as relações étnico-raciais”. Ministrada pela professora Carmen Deleacil Ribeiro Nassar, coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB) da UFSM, a oficina foi um convite dos organizadores do Guerrilha da Paz para que se conversasse com os professores sobre a Lei 10.639, a qual institui o a obrigatoriedade do ensino da História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nas escolas do país. “Acho muito bom que isso esteja acontecendo dentro da escola, pois para que a Lei 10.639 se concretize, os professores têm que entrar em contato com a cultura negra, tem que conhecê-la”, afirma a professora Carmen, que destaca ainda a importância da Universidade sair do círculo acadêmico e voltar-se mais à comunidade.

Durante o dia de sábado, era possível identificar membros de diversos movimentos sociais presentes no Guerrilha da Paz, muitos dos quais contribuindo com oficinas ou, no caso da ONG Life (grupo pela livre expressão sexual), distribuindo material informativo sobre DSTs. O Diretório Central do Estudantes (DCE) da UFSM, a Casa de Matriz Africana Ilê Axé Ossanha Águe, o Movimento Negro de Santa Maria, o NEAB e o Levante Popular da Juventude são alguns dos grupos que marcaram presença.

Conforme relata Igor Corrêa Pereira, membro da União da Juventude Socialista e blogueiro atuante que atualmente reside em Porto Alegre, a primeira vez que o Hip Hop teve visibilidade em Santa Maria como um dos principais movimentos de juventude da cidade foi na Conferência Municipal de Juventude, em 2007. Ele participou da organização da primeira edição do Guerrilha da Paz e acredita que uma das principais características do Hip Hop seja justamente a sua capacidade de agregar diferentes grupos. “O movimento de juventude mais expressivo da cidade é o Hip Hop, porque ele acaba congregando uma série de outros movimentos em torno da sua pauta. O mérito disso é da organização deles”.

O Guerrilha da Paz foi idealizado como um evento em que os jovens da periferia da cidade pudessem se reconhecer, ter uma identificação e um espaço para se expressar. E como, nas palavras de Magrão, o rap é um estilo musical genuinamente periférico, nada mais certo que as caixas de som rolassem rap o dia inteiro. O saguão da Escola Rômulo Zanchi foi inundado pelo rap nacional autêntico. De DMN a Emicida, a trilha sonora que embalou as oficinas e as pessoas que circulavam pela escola ia do som pesado e clássico da velha escola do Hip Hop nacional ao inovador som de artistas e vertentes mais recentes do Rap nacional, sem preconceitos. O importante era que fosse o rap, consciente, periférico e sem vergonha de se afirmar.

Quando cessaram as oficinas, perto do fim da tarde, foi o momento dos grupos santa-marienses subirem ao palco e mostrarem um pouco de sua arte. Assim, a primeira apresentação foi da banda de rock Variantes. Em seguida, o rap tomou conta de novo do evento. O grupo Conexão Zona Oeste (C.Z.O.), do bairro Santa Marta, cantou algumas de suas letras e mostrou intimidade com o microfone e o palco. Jean, um dos MC’s do grupo, era também responsável pela oficina de skate, e no intervalo comentava com orgulho os resultados das oficinas: “legal ver a gurizada aprendendo, legal mesmo. A elite nos abafa, mas nós sabemos um pouco e vamos transmitindo o que podemos”.

Na sequência, apresentou-se o grupo Rima Suprema, da Zona Leste, que estava literalmente em casa. Os MC’s do grupo já haviam mostrado a sua habilidade antes, do lado de fora, em uma improvisação feita sem titubear sobre o beat box bem timbrado de B.Negão, que depois subiu ao palco para contribuir com seus bumbos e caixas feitos com a boca e chegou a dividir a percussão com a bateria “de verdade” da banda Variantes.

O Rima Suprema, assim como o grupo C.Z.O., é formado por dois MC’s masculinos e uma vocal feminina. Inclusive, uma das características do evento foi o espaço ocupado pelas mulheres. Em um movimento que muitas vezes reflete atitudes machistas e é taxado como tal, praticamente todos os grupos tinham pelo menos uma representante do sexo feminino. Flavinha Manda Rima, por exemplo, se apresentou sozinha e com o grupo Admiráveis Minas Rap, do qual a outra integrante é Gabit Box. Gabi integra também, junto com Magrão, o grupo Consciência Periférica, que foi um dos que se apresentaram durante a tarde. O espaço democrático deixou o palco para a dupla adolescente Romantics, que cantou um Rap/RnB cuja temática já é expressa no nome do grupo. Ainda houve tempo para uma roda de break que arrancou aplausos dos presentes e espaço para que os participantes da oficina de rimas pudessem mandar seus versos, agora à frente da plateia.

A maioria das rimas e letras impressionava pela consciência social e abordava ou pelo menos era tangenciada por temas como exclusão social, preconceito e repressão; funcionava como o grito indignado e ao mesmo tempo motivador da periferia. Se algumas rimas podiam parecer clichê ou demasiado cruas, pode-se dizer também que soavam sinceras e até viscerais. Boa parte dos grupos utilizava como base para sua música batidas baixadas da internet. Segundo Magrão, tudo que a maioria dos grupos de rap de Santa Maria têm é “um mic [abreviação de microfone], um computador e a vontade de se expressar”.

O V Guerrilha da Paz não foi tão grande em termos de público quanto a edição anterior, mas conforme a avaliação dos envolvidos, a estrutura e a organização do evento têm progredido de maneira contínua. Ao fim do dia, o orgulho de ter superado mais uma vez o descaso por parte do poder público municipal. “Não dá para ver que o poder público não está nem aí pra nós, que não quer mesmo que o povo tenha o conhecimento, e ficar de braços cruzados”, afirma Gabi. Ela ressalta o motivo do intuito da rotatividade do Guerrilha: “a gente tenta fazer com que cada comunidade procure caminhar com as próprias pernas. Damos o primeiro passo, depois a ideia é que prossiga”.

Se as questões do mercado podem resultar em algumas rupturas no aspecto social do movimento Hip Hop, eis aqui uma ironia: o instrumental da última faixa de um dos discos mais vendidos da história do rap – o álbum Chronic 2001, de Dr. Dre – serviu como base para a estreia das rimas de Letelier, um dos garotos participantes da oficina de rimas, e Stéfane, outra garota que venceu a inibição e subiu ao palco para rimar.

Igor Magrão, experiente na arte de mesclar a reflexão e a revolta, não cansa de exaltar o valor que o Hip Hop tem para as comunidades. “Nunca foi nenhum assistente social lá em casa, não foi ninguém lá me dizer o que fazer, qual caminho seguir. Pra alguns pode ser só música, mas para a periferia, é uma formação”. E conclui a ideia depois, no palco, com o mic na mão, sintetizando para a plateia a motivação e o caráter do evento: “o rap já salvou muito mais gente do que qualquer projeto social”

A PERIFERIA QUE TEM VOZ, pelo viés de Tiago Miotto

tiagomiotto@revistaovies.com

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