ALEGRIA, ALEGRIA

Alegria, Como um raio de vida Alegria, De uma drag a gritar Alegria, Ouço um jovem cantando Sua triste pena, serena Só por sua forma de amar Alegria, O palhaço até chora Alegria, Por trás da tinta há história Alegria, Da menina que dança E carrega a esperança De um dia poder amar quem quiser […]

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Alegria,

Como um raio de vida

Alegria,

De uma drag a gritar

Alegria,

Ouço um jovem cantando

Sua triste pena, serena

Só por sua forma de amar

Alegria,

O palhaço até chora

Alegria,

Por trás da tinta há história

Alegria,

Da menina que dança

E carrega a esperança

De um dia poder amar quem quiser

Alegria,

Por trás do grito, um pedido

Alegria,

Um sopro de liberdade

Alegria,

Nossa prisão não tem grades

É triste a pena, serena

Por nossa forma de amar

Essa foi a música tema da X Parada GLBT de Pelotas, realizada no dia 17 de outubro, e que reuniu mais de 20.000 pessoas. Já eram 15h quando a transformista Gisele Gaultier alçou vôo no palco montado na Praça Dom Antonio Zatera ao som de Alegria, música de um dos espetáculos mais famosos do Cirque Du Soleil, dando início à festa.

Famílias inteiras se reuniram para ver as atrações da tarde. Além das performances e shows no palco, havia uma feira de artesanato e culinária, uma pista de skate e um pequeno parque de diversões infantil (com direito até a uma mini roda-gigante). Se a pessoa caminhasse mais um pouco ainda cruzaria por um pônei carregando alguma criança e mais um pouco adiante por um grupo de jovens tocando samba, ali aonde a música eletrônica do palco não chegava.

Aquele já era o terceiro dia de eventos da Semana da Parada. Nos dois dias anteriores realizaram-se seminários sobre os direitos civis e políticas públicas LGBTs. Além da diversão, o evento tinha caráter político.

Nos primeiros quatro anos, a Parada era chamada Avenida da Diversidade, e era de responsabilidade do grupo Também Pelotas, criado em 2001 por professores preocupados com a questão do preconceito sexual na cidade. Na quinta edição a prefeitura assumiu a responsabilidade da organização do evento. Maurício Paz, membro do grupo Também, comenta:

“A gente realizou quatro edições da Avenida da Diversidade, mas depois esse movimento infelizmente foi tomado pela prefeitura. A gente está aqui, sempre apoiando o movimento homossexual, seja a tendência que for, mas a gente protesta contra isto: a gente tem aqui um movimento social conduzido pela prefeitura da cidade, o que na prática não é um movimento social.”

O grupo ministra oficinas em universidades e escolas sobre o direito à livre expressão sexual. Além disso, os ativistas fazem panfletagem em festas LGBT e trabalham em parceria com ONGs e com a Secretaria de Saúde do Município, em programas como o DST/HIV/AIDS.

Porém nessa edição da Parada o grupo Também teve problemas com a organização, visto que no início do evento seu banner fora retirado do palco. A prefeitura alegou a atitude como uma punição pelo grupo ter participado pouco da organização e por ter protestado contra a troca de data da realização do evento, programado inicialmente para setembro. O informativo distribuído pelos membros traz a seguinte reclamação:

“Denunciamos a manipulação da Prefeitura para o adiamento da Parada por razões exclusivamente políticas: o temor da projeção que o evento daria a certos candidatos em detrimento daqueles candidatos apoiados pelo poder instituído!”

Renata Medeiros é travesti, casada há 12 anos e eleita 1ª Prenda Gay do Estado. Atua como 2ª Secretária da Associação LGBT de Pelotas e foi uma das organizadoras das palestras dos dias anteriores. A respeito da mudança de datas, diz que a prefeitura alegou falta de recursos devido à realização das Semanas do Idoso, do Trânsito e Farroupilha, no mês anterior.

Em uma tenda ao lado do palco, Renata estava recebendo as doações de alimento não-perecíveis. Cada pessoa que doasse um quilo de alimento recebia um ticket para concorrer a uma bicicleta elétrica. A vencedora do sorteio foi Cátia Moura, mas quem mais ganhou foram as entidades ajudadas pela Associação LGBT, que receberão as quase duas toneladas de doações arrecadadas.

Antes do início das apresentações, entre a tenda de doações e o palco, estavam postadas as vencedoras do concurso do Carnaval Gay desse ano: a 2ª princesa Lavínia Vlasack, a 1ª princesa Paola Farias e a rainha Lilian Bittencourt.

“Travesti não tem que trabalhar em esquina. Todo travesti tem que ter sua profissão. A gente sofre preconceito, mata um leão por dia, mas consegue”, garante Paola, que além de estar concluindo o curso de Matemática, dá aulas em séries iniciais. Lilian e Lavínia concordam com a amiga. A primeira, vinda diretamente de Pedro Osório para a festa, é estudante de Turismo e a segunda trabalha como cabeleireira.

Desiree concorda. Travesti casada há sete anos e formada em Ciências da Computação ela diz: “Infelizmente ainda é raro ver uma travesti com curso superior.”. Exibindo os 1000ml de silicone distribuídos entre os dois peitos, ela veio de Porto Alegre acompanhada de Tessy Monteiro, Marcela e Fred exclusivamente para acompanhar a Parada de Pelotas. “Onde tem uma Parada Gay a gente está”.

No palco, ao lado de Savana, travesti que apresenta o evento pelo segundo ano consecutivo, uma inovação: Veridiana, que com seu terno preto e gravata rosa, tornou-se a primeira apresentadora lésbica da Parada. Foram as duas que chamaram as quase 40 atrações artísticas da tarde. A principal era o vencedor do 1º Big Brother Brasil, Kléber BamBam.

Logo após subir ao palco e arrancar gritos e coraçõezinhos com as mãos de fãs na platéia, o dançarino começou a mostrar toda a sua sabedoria:

“E aí, Pelotas! Fiquei sabendo que a cidade tá crescendo. Ontem estive em Barreto e fiquei sabendo que tá crescendo também. O povo faz o que quer. É isso aí, o importante é ser feliz”.

Após chamar uma moça ao palco para dançar com ele, BamBam ainda diz:

“DJ, toca Pa-Panamericano. Paraí! E o DJ, é homem ou é mulher? Não sei mais nada. A banana tá comendo o macaco e o poste tá mijando no cachorro. Tá tudo errado!”

Após declarações como essa, em que confundia brincadeiras com preconceitos e mostrava pouco saber do evento (“Essa é a primeira Parada Gay da cidade?”), um jovem ativista da platéia reclamou:

“Por que chamaram esse cara? Ele não tem nada a ver com nosso movimento!”

Mesmo assim a maioria da platéia se divertiu com as peripécias do ex-BBB. Mas ele não foi o único a levar o público feminino e gay ao delírio. Outro exemplo foi o grupo Os Tigrões do Funk, de Viamão, que chamou a atenção com seus cabelos pintados de cor-de-rosa e pelas suas danças ousadas.

Formado por Grécio, Maninho, Vavá e Dinho (há apenas cinco dias no grupo), os rapazes se apresentavam pelo segundo ano consecutivo na Parada. “No ano passado nos apresentamos no Trio, e na descida a polícia teve que nos ajudar, porque a mulherada tava louca.”, conta um deles.

Os Tigrões do Funk são agenciados pela Tia do Funk, mãe de Grécio. Ela faz a divulgação do CD da banda, Crack nem pensar, e deixa bem clara a sua posição: “Sou contra qualquer tipo de apologia. No grupo ninguém bebe e ninguém fuma. Nem eu. Depois me vêem bebendo e saem por aí dizendo: ‘Olha, os Tigrões cantam uma coisa, mas a Tia do Funk ta lá bebendo’, então não bebo e não deixo eles beberem.”, conta ela.

A fórmula parece estar dando certo. O grupo, que antes tinha o cabelo verde, já se apresentou no Programa da Márcia, no Patrola, no Cidadão Legal e no Pampa Meio-Dia. A grande quantidade de moças que os abraçam e pedem fotos e autógrafos parece comprovar o sucesso.

Três vendedores ambulantes caminhavam entre o povo, vendendo bandeiras, gravatas e pulseiras coloridas. Eram Alex Fabiano, Paulo Laranjeira e Paulo Rocha. Viajando de Porto Alegre para Pelotas no mínimo duas vezes por semana (sempre que há jogo de algum dos dois grandes times da cidade, o Brasil e o Pelotas), os três conseguem tirar o sustento de suas andanças pelo estado. Para a Parada eles trouxeram 110 bandeiras coloridas, vendidas a R$ 10,00 cada, e dezenas de pulseirinhas feitas pro Paulo Laranjeira.

Alex, 37 anos, casado, com dois filhos e três enteados diz:

“A gente não tem preconceito, afinal a gente já tá no século XX, isso é normal. Claro que às vezes a gente passa um constrangimento, mas nada demais. Agora, mesmo, chegaram duas moças de mãos dadas aqui pra comprar uma bandeira. Fui alcançar pra elas e uma delas disse: ‘Só a bandeira, sem o pau! Se a gente quisesse pau não estaria aqui na Parada.’. A gente fica sem saber o que falar, mas entende. Já estamos no século XX!” [sic]

O clima de alegria se prolongou pela tarde, quando representantes de todas as opções sexuais desfilariam depois em trios pela Avenida Bento Gonçalves, e pela noite, quando foi realizada uma grande festa pós-parada.

Lilian Bittencourt, Paola Farias, Lavínia Vlasack, Tessy Monteiro, Desiree, Marcela, Renata Medeiros, Gisele Gaultier, Veridiana, Savana, Mikaela, Maureen, Antonella, Guta Tramontina, Luma, e tantas outras devem estar até hoje cansadas de tantas poses e de tantos flashes. Se no dia-a-dia elas precisam “matar um leão por dia” e enfrentar o preconceito que ainda impera, naquele dia 17 foram aplaudidas como artistas e como pessoas, mostrando que o respeito e a admiração são possíveis.

A mensagem era clara: ALEGRIA, ALEGRIA!

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ALEGRIA, ALEGRIA, pelo viés de Felipe Severo

felipesevero@revistaovies.com

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  • tessy moreno

    ALEGRIA……………
    ……………ALEGRIA, É TERMOS UM FELIPE SEVERO NOS NOSSO CONVIVIO DOMINGO 17 EM PELOTAS, ALEGRIA UM QUASE MENINO EXPRESSAR TANTAS PALAVRAS BONITAS CARINHOSAS E VERDADEIRAS, NUMA PEQUENA POESIA, EM POUCAS PALAVRAS, QUE BOM , TENHO CERTEZA, EXISTEM OUTROS FELIPES PELO MUNDO, QUE CERTAMENTE..FARÃO UM MUNDO COM MAIS……….
    A
    L
    E
    G
    R
    I
    A —————-XUXXEXXO SEMPRE A VOCE FELIPE, EM NOME DE TESSY MORENO, (A WILMA FLINSTONS) E O AMADO ANÃO, (FRED) ,
    BJKS

  • Rubiane

    Felipe

    Parabéns pelo artigo. Sucesso.