AS (MAIS QUE) RUÍNAS DE QUILMES

“Cortaron el árbol al ras del suelo, pero se olvidaron de sacar la raiz! y es la que está resurgiendo con mucha fuerza.” (Cortaram a árvore no nível do solo, mas se esqueceram de cortar a raiz! E eis que ela está ressurgindo com muita força).

Saindo da capital da província de Tucumán, na Argentina, em direção ao norte, mudam algumas paisagens. A capital é a única cidade grande da província e acumula uma população numerosa se comparada à extensão de território. É a cidade que mais cresce no norte da Argentina:  abriga quase 20% do total da população nortenha do país. Quase um milhão de habitantes em uma cidade com área de 90 km². Em volta de San Miguel, as cidades são pequenas e a área rural predomina no cenário. Cana de açúcar é o principal cultivo. Porém, em Amaicha, uma cidadezinha de poucos habitantes, há algo que se desprende dos atrativos econômicos e edificados. Lá estão as ruínas de uma parte da urbe da tribo Quilme, esta integrante do povoado dos Vales Calchaquíes.

Nos quedamos un poco acá, chicos. Quiero cuentearles un poco de la historia para que ustedes entren allá con otros ojos… (Paramos um pouco aqui, pessoal. Quero contar a vocês um pouco da história pra que vocês entrem lá com outros olhos…)

Sebastian pára o seu jeep, que está mais na frente. Atrás, pára outro jeep e um carro. Todos descem em um ponto da estrada que liga  a cidade de Amaicha às ruínas.

Hay árboles, siéntense. Acomodense. Quien no quisiera oír, por favor, aguanta un rato para que los otros oygan. (Tem troncos aí, se acomodem. Quem não quiser ouvir, por favor, aguente um pouco para que nos outros ouçam)

De fato, dos vinte e poucos turistas, digamos que metade ouve com atenção a Sebastian. Passa talvez meia hora de explicações acerca dos Quilmes. A fala impressiona pela quantidade de informaçoes e pela tonalidade com a qual é falada. Sebastian tem sangue quilme.

Quiero que ustedes conozcan lo que llamo de ‘la otra historia’. No es aquella que los libros cuentan, es la que el pueblo quilme cuenta. (Quero que vocês conheçam o que eu chamo de “a outra história”. Não é aquela que os livros contam, é a que o povo quilme conta.)

Quilmes: uma tribo pré-hispânico e pré-incaico. Habitavam o que hoje corresponde aos arredores de Amaicha. Faziam parte de um povo maior, o dos Vales Calchaquíes (região de montanhas e vales ao longo do norte andino da Argentina), os quais estavam espalhados entre as províncias de Tucumán, Salta e Catamarca. Estima-se que, na época de pico de população, chegaram entre sete e 10 mil habitantes. Perto da cidadezinha de Amaicha está parte do local onde moraram.

A cidade está a dois mil metros de altitude. Os cerros Calchaquíes dalí chegam a três mil metros. Quando se sobe, a respiração dificulta. E, hoje, se sobe para conhecer, sem muita pressa. O povo Quilme, quando em perigo, subia às pressas, com abastecimento de água e comida aos que estavam nos pontos de refúgio nas partes altas das montanhas. Ao pé dos vales se travavam as lutas entre os invasores e o povoado. De cima dos morros, mulheres e crianças, principalmente, assistiam aos combates sem poder fazer muita coisa.

Ah, mas eles deviam é tacar muita pedra daqui de cima, né… A imaginação, ao longo da subida, vai criando cenas e mais cenas da vida ali.

As primeiras invasões aos Calchaquíes aconteceram com a expansão incaica. Os incas expansidiram-se ao território quilme em 1480 e permaneceram até a chegada do espanhol. A conquista de terra no Império Incaico justificava-se pela necessidade de cada novo imperador renegar o que havia feito o anterior. Havia que criar suas próprias glórias e conquistas. Além disso, à expansão também se dá pelo fator de disseminação de uma ideologia, a incaica, tida como mais avançada em relaçao a outros povos andinos. Exércitos e sistemas complexos de administração política e econômica levaram adiante tal concepção.

(Los Quilmes) no eran politeístas. (Adoraban) sobre todo los astros y por supuesto la Pachamama (que es una adoración de todas las comunidades alto andinas que recorren todo los andes). Si antes eran sociedades matriarcales y uno de los principales dioses era la luna, el inca introduce lo patriarcal e introduce como un dios supremo Tata Inti. El idioma fue algo fuerte de introducir. La lengua originaria de los Calchaquíes fue el kakan. El inca introduce el quechua como así el trabajo de la metalurgia. Se pierde la libertad de trabajo, parte de cosecha y todo tipo de producción iba ya a un impero, a un rey, a un inca. (Não eram politeístas, adoravam sobretudo aos astros e acima de tudo à Pachamama – que é uma adoração de todas as comunidas alto-andinas  e que acontece em todos os Andes. Se antes eram sociedades matriarcais e um dos principais deuses era a Lua, o inca introduz o sistema patriarcal e introduz um deus pnrincipal, o Tata Inti. O idioma foi algo forte e com resistência de introduzir. A língua original dos Calchaquíes foi o kakan. Os incas introduzem o idioma quéchua assim como o trabalho de metalurgia. Se perde a liberdade de trabalho, parte da tradição de colheita e todo tipo de produção ia a um império, a um deus, a um inca.)

Antes da chegada dos espanhóis, como se nota, já havia conflitos entre os próprios povos originários. Houve sobreposição, mescla e hibridização de culturas. E, ainda antes dos incas, os próprios povos já haviam travado conflitos. Algumas etnias são reconhecidas, através de trabalhos arqueológicos, por um poder essencialmente bélico. O Estado Tawantinsuyu, por exemplo, chegou a um grau de complexidade e abrangência tão grande, que estudos arqueológicos e antropológicos dizem que ele foi uma espécie de modelo ao Império Incaico. Já havia um território amplo (abrangia grande parte do Peru, Bolívia e partes do Chile e Equador), uma ideologia política, justificada por aspectos religiosos, uma população densa, um território grande, espaços para cultivos e desenvolvimento econômico, e aparato bélico de coerção, caso houvesse revoltas. Estas só ocorreriam em grande proporção na fase final do Estado de Tiwantinsuyo, já que antes a religião acabava acalmando a população: havia o pensamento de que tudo o que entregava aos governantes era em troca de uma aproximação aos deuses. Os governantes eram a ponte de ligação entre a terra e as divindades.

Os conflitos andinos, no entanto, eram locais e centravam-se em torno de problemas e modos de vidas semelhantes. Quando os espanhóis chegam ao território onde os Quilmes viviam, a imposição foi evidentemente de proporção maiores. A cultura européia gritava a superioridade e usava como bandeira o falso pretexto de missão civilizatória.

Las primera invasión a los Calchaquies fue la del inca, entro a esta región en el año 1480 y duro 50 años aproximadamente hasta la entrada del español en el año 1534 y desde ahí viene la resistencia por más de 130 años con el español. (A primeira invasão inca aos Calchaquíes foi a do inca. Os incas entraram nesta região nos anos 1480 y os 50 anos depois foram duros. Então entraram os espanhóis nos anos 1534 e aí vem por mais de 130 anos a resistência a essa entrada.)

Sebastian, sempre em frente do grupo na subida ao cerro, pára em vários momentos para explicar um pouco do que se passou naquele chão. O ponto mais incrível, por estranho que se pareça, é quando ele pede um minuto de silêncio. Quando se chega ao ponto máximo da “trilha”, sentamos nas montanhas, sobre as pedras e, a pedido de Sebastian, ficamos em silêncio. O vento gelado bate nos rostos e o silêncio começa a gritar. Calmo, um grito calmo. São pássaros e gemidos de ar. Aí que Sebastian conta das crenças do povo sobrevivente às invasões. Dizem que, lá em cima, quando em silêncio, se ouve no canto dos pássaros, no barulho de qualquer outro animal e em qualquer evento da natureza, a manifestação dos Quilmes que morreram batalhando.

O povoado Quilme se consiste, hoje, em 60 famílias. La vida es de un estilo de auto consumo. Aparte de artesanos son agricultores y pastores de cabras y ovejas. Todo lo que se produce es para auto suficiencia. Son muy buenos artesanos en cerámicas y tejidos. (A vida é de um estilo de autoconsumo. Além de artesãos, são agricultores e pastores de cabras e ovelhas. Tudo o que se produz é para autosuficiência. São ótimos artesãos em cerâmicas e tecidos).

Entrando na casa de uma dessas famílias: mesas com cerâmicas em cima. Algumas recém terminadas, outras recém começadas. Os desenhos são símbolos dos povos indígenas andinos. Um deles é o suri, uma espécie de avestruz que tinha como habitat a região, mas que hoje está quase extinto pela caça. A cerâmica é de argila e os tijolos da casa são de adobe.

O quilme artesao descendente parece acostumado com o turismo. Porém, quando é abordado com um interesse mais profundo sobre a questão povo-cultura, toma um brilho nos olhos e desenvolve uma conversa sobre tradições e história que transcendem o ‘contar’. Falar sobre o quilme, além de falar sobre o passado, é falar sobre o quanto é duro (e ao mesmo tempo questão de orgulho e adaptação) continuar resistindo, depois da derrota contra os espanhóis, a um tempo de mudanças climáticas onde os povos andinos são os mais afetados. Eles dependes, ainda, da natureza, são excluídos socialmente do mundo urbanizado e não podem compreender como as evoluções tecnológicas podem agredir cada vez mais à Pachamama – a mãe terra.

Sobre o material das moradias, Sebastian diz que (Adobe es) una construcción térmica, fácil de conseguir tierra y más fácil de trabajarlo. (Adobe é uma construção térmica – é feita de terra e folhas – é fácil de conseguir material e é fácil de trabalhar-lha.)

Antes, as construções dos Calchaquies eram somente de pedra. Uma encaixada sobre a outra, em um trabalho minucioso e demorado. Quando se vêm de perto, os encaixes não possuem uma falha sequer. Algumas são polidas e formam encaixes perfeitos, indicando métodos avançados para uma época remota. Outras, gigantes, formando muralhas nas alturas dos cerros, sugerem esforço e trabalho. Proteção, prevenção. Há ‘peças’ que parecem feitas de lego gigante. Ao pé do cerro, eram moradias, a parte urbana. Ao longo dele, muros de proteção e observação, paredes e caminhos.

Subiendo al pucara, la montaña, son refugios. (Subindo aos pontos mais altos, as montanhas são refúgios.)

Las construcciones arqueologicas eran solo de piedras, PIRCAS. Piedra sobre piedra. Es la tecnica ancestral. (A construções arqueológicas eran feitas só de pedras, as “pircas”. Pedra sobre pedra. É a técnica ancestral.)

Refúgios, resistência. O povo quilme, quando da chegada espanhola, lutou o que pode na defesa de sua terra e sua cultura. Foi uma resistência perduradora, mas, quando o maior número de contingente e a mais “avançada tecnologia em armamentos” venceu, a amargura de um quase fim foi enorme. A população daquele lugar foi obrigada a marchar a uma região perto de Buenos Aires (hoje uma cidade chamada “Quilmes”, uma homenagem nada compensadora) e a outros locais. Na marcha a Quilmes, mais da metade dos indígenas morreram, vítima da caminhada longa (são mais de 1000 quilômetros), falta de comida e de descanso e, sobretudo, de desgosto. Muitos, ao chegar, juraram não ter filhos, para que os descendentes não vivessem em uma terra que gritava a crueldade de uma sobreposição.

Hoje, as famílias que ainda vivem na região original da tribo Quilme tentam contar a história do povo de uma maneira menos turística e “fabulística” e mais real e crítica. E como diz Sebastian, o guia que, mais que um guia tem no sangue a a cultura quilme de resistência, de  aprendizado e adaptaçao pela derrota , a história oficial

No es la única, la del famoso dicho: “historia la escriben los que ganan”. Y la mía es la del vencido la que no es escrita, la que es la de al transmisión oral, los archivos de indias y los nuevos estudios arqueológicos. Es suministrar la otra campana, porque siempre nos dieron una sola, por lo menos en mi escuela. Siempre pondo de ejemplo esto: recibo gente de todas partes del mundo a diario y yo nunca fui a Quilmes. Estoy a 20 minutos del ese lugar, y se más de Egipto, Grecia , Roma y México que de mi propia cultura, con eso imagínate nomas lo que aprendemos en nuestra escuela… (Não é a única, a do famoso dito “a história escrevem os que ganham”. E a minha é a do vencido, a que não é escrita, a que é de transmissão oral, dos arquivos de índios e dos novos estudos arqueológicos. É fornecer o outro lado, porque sempre nos deram um só lado, ao menos na minha escola. Sempre coloco de exemplo: recebo gente de todos o lugares do mundo diariamente que nunca ouviram falar de quilmes. Sabemos mais do Egito, Grécia, Roma e México do que da nossa própria cultura. Com isso imagina o que mais temos aprendemos em nossa escola…

AS (MAIS QUE) RUÍNAS DE QUILMES, pelo viés de Liana Coll
lianacoll@revistaovies.com

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