NEGOCIANDO O DIREITO DE IR E VIR, parte II

leia também a PARTE 1 Na última segunda-feira, dia 18, a reunião dos conselheiros foi realocada duas vezes. Enquanto os estudantes esperavam pelo início da reunião no local previamente marcado, os conselheiros subiam para uma sala no 5º andar da prefeitura. Como os estudantes conseguiram mais uma vez impedir que a reunião acontecesse a portas […]

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Na última segunda-feira, dia 18, a reunião dos conselheiros foi realocada duas vezes. Enquanto os estudantes esperavam pelo início da reunião no local previamente marcado, os conselheiros subiam para uma sala no 5º andar da prefeitura. Como os estudantes conseguiram mais uma vez impedir que a reunião acontecesse a portas fechadas, o Conselho foi novamente remarcado para a sede do SEST/SENAT no mesmo dia.

Os estudantes continuaram a moblização e caminharam por vias importantes da cidade até o novo local do conselho, no bairro Nossa Senhora de Lourdes.

Esperando pelos manifestantes, um portão fechado e 40 policiais escoltando 15 conselheiros. Impedidos de entrar no Conselho, os manifestantes aguardavam pelo resultado do lado de fora. Representando os estudantes, apenas os membros do DCE, um representante de diretório acadêmico e dois estudantes de jornalismo da UFSM. No local, ao redor dos conselheiros, trabalhadores de transporte. Durante a sessão, dos 15 conselheiros, 5 votaram contra o aumento para R$2,30 e 10, a favor. Os cinco representantes que votaram contra o aumento representavam a UFSM, DCE, OAB, USE e o Sindicato dos Trabalhadores Urbanos. A favor da proposta do aumento votaram os representantes da CACISM, da ATU, da Prefeitura Municipal e seus conselheiros, do Sindicato dos Contadores, empresas inter-distritais de transporte coletivo, Sitracover, SindiTáxi e Sindicato dos Trabalhadores Rurais. A decisão saiu cerca de duas horas após o início da sessão. Logo após a notícia do aumento, os estudantes organizaram novos atos [leia mais sobre o relato do Conselho no texto “Contra o Aumento da Passagem“].

Na manhã de quarta-feira, menos de 48 horas depois da decisão do Conselho, o prefeito Schirmer sancionou o valor para R$2,20. No jornal A Razão de sexta-feira Schirmer argumentou a favor do aumento: “A passagem de Santa Maria ainda é a mais barata do Estado”.

O maior ato organizado pelos estudantes aconteceu na manhã de quinta-feira e reuniu aproximadamente 500 pessoas no Calçadão Salvador Isaia e na Praça Saldanha Marinho, região central da cidade. Próximo às 11h da manhã, representantes de movimentos sociais, estudantes e população em geral, caminharam em direção à prefeitura para protestar contra o aumento. Lá, os estudantes bloquearam a rua Venâncio Aires e a saída do estacionamento da prefeitura como forma de pressionar o prefeito a recebê-los. A bandeira do município desceu o mastro dando lugar à alaranjada do Diretório Central dos Estudantes. O motivo da reunião entre o poder público e o movimento popular era de marcar uma audiência pública aberta na Câmara dos Vereadores.

Má vontade e mãos amarradas – assim esperavam os representantes públicos de dentro de suas salas com ar condicionado e medo de aparecer à janela. Onde estavam os trabalhadores? Trabalhando. Mantendo a cidade, exercendo o esforço. O senhor do posto de gasolina, a atendente da padaria, a avó transeunte, o casal do bar. Todos agradecendo aos estudantes pelo ato, pedindo que se continue a gritar. “Esse prefeito não dá mais”.

Em apenas dois momentos de tensão manifestantes e policiais se confrontaram. Alguns manifestantes foram atingidos por spray de pimenta logo na chegada. Em um segundo momento, o Tenente Coronel Vargas, que viria a conciliar as partes conflituosas horas depois, empurrou um jovem contra o chão.

Depois de nove horas cansativas de espera, a manifestação não recuava. Sentados ao sol, bradando palavras de ordem, dividindo-se em tarefas, alimentando-se em conjunto, o movimento enfim recebeu uma carta, escrita à mão pelo prefeito Cezar Schirmer. Na carta, o prefeito se comprometia em se reunir com a população em data estabelecida entre manifestantes e a Câmara dos Vereadores. No documento, Schirmer argumentava que o seu comprometimento era fruto da preocupação com o “direito de ir e vir” da população – por considerar danoso o bloqueio na rua Venâncio Aires, em frente à prefeitura. Às 18h30min, os manifestantes souberam que a prefeitura já acionava judicialmente a reabertura da rua, que deveria ser realizada  pela Brigada Militar. Ao saber da decisão, os manifestantes sentaram no asfalto. Dessa maneira, o Tenente Coronel Vargas, que comandava o Batalhão de Operações Especiais no local, preferiu argumentar com o prefeito contra a ação e conciliou o conflito para uma decisão pacífica – no caso, o compromisso do prefeito em receber a população em Audiência Pública.

Até o fechamento desta edição, a Câmara dos Vereadores comprometeu-se em realizar uma Audiência Pública agendada para às 19 horas da segunda-feira, dia 25. O prefeito, ao contrário do definido na própria carta assinada por ele, já deixou claro que não comparecerá na data. Argumentando que essas manifestações teriam caráter eleitoreiro, Schirmer disse que só poderá se reunir com os manifestantes e com a população depois do dia 31 de outubro, mais de uma semana após a nova tarifa entrar em vigor.

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Qunita-feira, 21 de outubro, 19 horas. A Venâncio Aires, Praça Saldanha Marinho e o Calçadão entram em festa. Contando com a palavra do prefeito, descumprida horas depois, manifestantes gritavam extasiados ao ritmo de galões, garrafas e latas de tinta improvisados como tambores. A vitória, mesmo que momentânea, estava nos rostos daqueles que cederam horas de seu tempo para se manifestar contra um aumento até agora mal explicado. Os cantos, antes tortos e roucos, agora ganhavam tons de carnaval. A manifestação tinha dado resultado.

Não por muito tempo. Só o necessário para recobrar o corpo para continuar lutando.

NEGOCIANDO O DIREITO DE IR E VIR, pelo viés da Redação

As fotografias são de autoria da Redação e da colaboradora Nathália Schneider

ocorreio@revistaovies.com

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