A TENTATIVA DE UM PERFIL DO COLETIVO

“Tinha gente falando de VHS e outros de hardware hacking. Tinha gente falando em monarquia. Tinha gente trabalhando com argila. Tinha gente pintando as paredes. Tinha gente batucando nas paredes.”

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Lá de cima, se tivesse um helicóptero, teria visto tudo numa coisa só. Uma massa uniforme que sacolejava conforme a cadência mandava. Ora para um lado. Ora para outro. Ora para todos. Ora para lugar algum. O fato é que aquelas pedras, que forram o chão da velha estação férrea, aquelas pedras que podem contar a história de Santa Maria, aquelas pedras nunca foram tão bem tratadas. O bailado informal, sem escola e sem amarras, fazia carinho ao chão que, no século passado, abrigou tantas pessoas que pela primeira vez chegavam à Santa Maria.

Santa Maria é assim; tem gente que diz que “nem planta nasce em Santa Maria, elas vem de outras cidades”. Não é bem assim. Mas é um pouco. E o julgamento lá de cima, se soubesse dessa máxima popular, talvez não estivesse tão equivocado.

Naquele momento só existia uma coisa que homogeneizava aquela massa: o ritmo.

De resto era uma mistura louca, uma batida eletrônica de pandeiro com pedal de distorção, o que em princípio pode parecer indigesto, mas não o é. Da mesma maneira se misturava o refrigerante 2 litros com a cachaça brazuca. Mas o gelo tinha sido levado pelos argentinos e quem geralmente fazia a mistura era o capixaba. “Sabe como é né meu, a grana tá curta e a paulada pega mais rápido”. Depois do quinto ou sexto copo, que passava de mão em mão, os sotaques estavam mais salientes ainda. O curioso é que agora eles trocavam de interlocutor como se quisessem fugir do assassinato da língua materna de cada um. Ora ou outra o brasileiro se enrolava tentando no portunhol convencer o vizinho latino. Esse por sua vez justificava que se “quiser falar português talvez eu entenda melhor”.

Realmente foram dias de muita mistura. De dentro do Brasil vieram pessoas de todos os cantos. Por parte dos estrangeiros até os Sicílianos se chegaram. A galera ficou meio tensa. Passado o susto tudo ocorreu tranquilamente, eram mafiosos recifenses e todos bem vindos.

Aos mais curiosos era necessário ter um perfil daquele público, mesmo que esse fosse amplo. Então que numa tentativa desesperada de encontrar o que era aquela massa, de onde ela veio, para onde ela vai, trouxeram até a cartografia. Tentaram fazer um mapa, identificar os pontos e chegar a uma resolução final. Impossível. Em uma parede coberta de bilhetes amarelos dizia: “Rizoma”. Ciente de que fazia parte de um todo, mas não o todo, a referência estava lá.

Esqueci, a cartografia era aberta e queria que vivêssemos juntos.

Tinha gente falando de VHS e outros de hardware hacking. Tinha gente falando em monarquia. Tinha gente trabalhando com argila. Tinha gente pintando as paredes. Tinha gente batucando nas paredes. Tinha quatro paredes e tinha ateliê a céu aberto. Tinha bicho. Tinha gente sozinha e gente em coletivo.

Aparentemente todo mundo hipnotizado pelo que via e ouvia.

Então que, como se não bastasse a mistura mais que explícita, sobe alguém ao palco e grita: “Boraimbola?”. Mais do que já está? Sinceramente, não sei como fazer isso. Felizmente eles sabiam.

No último momento daquilo que ninguém queria que acabasse literalmente surgiu de tudo. Tinha trompete e guitarra funk, uma percussão cubana e abrasileirada. Tinha batida de rock, samba, ska e tudo o que se quisesse. Cuspiram fogo e balançaram em faixas de tecido que desciam do teto. Alguém comentou “circo é circo em qualquer lugar do mundo, né?”.

Aquela mistura, no palco e no asfalto, derrubou todas as fronteiras. Aí ninguém mais sabia o que era. De nada se tinha ciência. Aquela não era música enlatada. Não era samba pra gringo, nem cúmbia pop. Tampouco era forró universitário ou o folk do burguês arrependido.

Dançava-se com todo mundo, fazendo ciranda e passos indecifráveis. Dançava-se da maneira que se aprendeu na cidade natal e do jeito que se quis e inventou na hora. Todas cabiam no mesmo ritmo. Nesse momento o tudo virou todos e vice e versa. No final lavou-se a alma.

Assim todos que estavam ali, mesmo vindos de cantos diferentes, sentiram-se moradores dessa aldeia local global que esperamos que dure 100 anos. O helicóptero imaginário via de longe, mas também era parte da aldeia.

No final ouviu-se: “Vida longa ao Macondo Circus”. Dispensou-se a tradução. A mensagem gritada estava muito além da esfera das palavras.

A TENTATIVA DE UM PERFIL DO COLETIVO, pelo viés de Rafael Balbueno

As fotos são de Marcelo de Franceschi

rafaelbalbueno@revistaovies.com

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