DE RECIFE, IZIDORIO CAVALCANTI

A primeira linha sai da caixa de madeira, ele puxa até que ela se esgote, arrebentando. Depois, o vemos puxar deitado, sentado, de costas, de frente, tranquilo, às pressas, cansado, remando. O esgotar das linhas brancas, que por momentos se tornam invisíveis, é fim, claro.

A+ A-

Uma manifestação artística ao chegar, se chegar, ao público, tem diferentes formas de absorção. Uma performance como a de Izidorio Cavalcanti, Em busca da Linha, pode suscitar algumas tantas interpretações e sensações, porém não foge de seu mote: a busca. O cenário é simples. Uma lona preta cobrindo as paredes e sustentando a estrutura das linhas brancas (feitas com pote de comida para passarinhos), um tapete circular ao centro, uma escada branca, três luzes de cor azul e Izidorio, que entra com uma caixinha, vestido de azul e com um sapato de madeira.

À sucessão de fins, podemos sentir a própria finitude, a repetição das buscas que não se perpetuam, tal como o próprio ser humano, pois buscam. A roupa azul remete ao celestial, Nossa Senhora da Conceição, segundo o artista de Recife. Então, um indivíduo sacralizado frente às rupturas?

No site do artista, que tem todos os seus trabalhos desenvolvidos a partir de pesquisa, encontramos sobre Em busca da Linha: o uso do corpo como suporte para pertencer a uma mercadoria, um experimento, uma sentença da busca, que desenrola 100 novelos de linhas [em primeira execução da performance em um Teatro] remetendo “as repetições” da vida diária.

Izidorio possui 40% de audição, e isso não seria relevante caso seu trabalho não fosse ligado à música. Na performance, ao puxar das linhas, ouvimos a produção de um compasso, de um instante de pausa, da batida de seus sapatos de madeira, do ranger ao abrir e fechar a escada. O artista a executa sem seu aparelho de audição para que assim ele não converse com seu trabalho. A obra segue o risco da própria busca. Izidorio toca instrumentos desde muito novo, tem um piano e um violino, além de tocar violoncelo. Porém, frente à grande exigência da música, ao seu teor metódico, escolheu as Artes Visuais. Declarou-se, ao acabar a performance, “um músico frustrado”, mas não muito incomodado com isso, agregou as artes.

“Comecei em 1992, fazendo curso de desenho, pintando como qualquer artista sempre começa. Depois comecei com uma pesquisa isolada. Em seguida, entrei como ouvinte na Universidade Federal de Pernambuco, nas cadeiras de Educação Artística, e em paralelo a isso construí o meu trabalho, que é todo direcionado à pesquisa, não tenho um suporte só para trabalhar, trabalho com performance, objeto, fotografia, música.”

“Eu gosto de provocar situações. A busca é intrínseca a todo ser humano, mas você pode prever, provocar situações.”

Em seus trabalhos, Iziodorio costuma trabalhar com a questão central de “quanto tempo de vida temos aqui”. Em um vídeo feito para a disciplina de Sociologia da Arte, um peixe em um aquário que ia perdendo água, agonizava e “morria”. Mais tarde adaptou a linguagem para a performance, mas nunca conseguiu executá-la até o final. Quando o peixe desmaia, ele o pega na mão e o exibe para o público, se referindo ao seu poder sobre o outro. As pessoas se chocam com a situação, porém, na esquina do lado de fora, como disse Izidorio, um mendigo estava na esquina e, hipocritamente, ele era menos importante, menos visível que aquele peixe, um símbolo cristão. Nessa performance, o artista utiliza um metrônomo, aparelho ligado à música, para associar ao compasso do coração do peixe.

Em outros trabalhos, quebra vidros e os reconstrói, usa o coração de um animal e rasga-o com uma navalha para que seja costurado pelo público, ou um outro, onde um trabalhador de matadouro costura o seu coração. Izidorio, fascinado pelo uso de seu corpo e de corpos para a construção, a costura, de uma performance, quer provocar. Então, depois de tantas linhas desenroladas, depois de todo o espaço explorado através de seu corpo, de seu contato, nada mais a fazer do que juntar aqueles pontos de fim e início esparsos, colocá-los na inicial caixinha de madeira, juntá-la a si e sair. O fim definitivo.

www.izidoriocavalcanti.com


DE RECIFE, IZIDORIO CAVALCANTI,
pelo viés de Caren Rhoden

A fotografia é de Lucas Figueiredo Baisch, membro do Macondo Coletivo.

carenrhoden@gmail.com

Para ler mais reportagens acesse nosso Acervo.

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Print this pageEmail this to someone
  • http://cirandamultivoca.blogspot. Marcello M.

    A performance de fato foi de deixar tonto.
    O texto ficou fantástico. Também escrevi sobre ele no site do circus, mas não alcancei nem as sandálias do teu Viés.