TRAGÉDIA

Ao redor do palco estão posicionados quatro longos bancos, de forma que o público rodeia as duas mulheres sentadas ao centro, sob uma luz fraca, que lhes torna o rosto uma grande sombra. As pessoas vão se acomodando aos poucos, deixando marcas de All Star na areia que reveste o palco.

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“Nada – angústia, infortúnio, humilhação, desonra – não há mal que eu não veja cair sobre ti, sobre mim.”

Já na entrada, a quebra.

O público vai entrando, a cada quatro pessoas, e é guiado por um homem careca para outros cantos da sala de teatro, que não a habitual arquibancada da platéia. Ao redor do palco estão posicionados quatro longos bancos, de forma que o público rodeia as duas mulheres sentadas ao centro, sob uma luz fraca, que lhes torna o rosto uma grande sombra.

As pessoas vão se acomodando aos poucos, deixando marcas de tênis na areia que reveste o palco. Ao fundo, o som do mar quebrando em alguma imaginária rocha. Areia e mar, os elementos mais atemporais possíveis para ambientar a tragédia que desde 441 a.C teima em cair sobre Antígona e Ismene.

“Mostrarás agora se és nobre, ou se, embora filha de nobres, és vil.”

Filhas do rei Édipo e Jocasta (sua esposa e mãe), ambas veem o pai arrancar os olhos e a mãe matar-se pendurada em uma corda, ao descobrirem sua relação incestuosa. Logo após, seus irmãos varões, Etéocles e Polinice, matam-se pelo trono vazio. Sobe então ao poder Creonte, irmão de Jocasta, que ordena que Etéocles tenha um funeral de rei e que Polinice continue insepulto, sendo alvo fácil para as aves de rapina.

A partir daí desenvolve-se o drama de Antígona. Ela apenas quer sepultar o irmão, mesmo que para isso precise ir contra a tirania do tio, contra a vontade de sua covarde irmã Ismene.

“Põe na cabeça isso, somos mulheres, não podemos lutar contra os homens.”

A peça é “La Tragedia”, em espanhol, sim, pois o grupo é argentino, da cidade de Sierra Bayas, na província de Chubut. Esta é a primeira vez que o espetáculo do Grupo de Teatro Independiente La Escalera é apresentado no Brasil. Em junho deste ano o grupo viria apresentar a peça em junho no Festival de Teatro Independente de Santa Maria, o FETISM, porém um pouco antes de embarcar na Argentina, foi assaltado no aeroporto, tendo até seus documentos levados. A ausência no FETISM só aumentou a expectativa do público santa-mariense em relação à apresentação na cidade, que finalmente ocorreu devido ao Macondo Circus, maior festival de cultura independente da cidade.

“La Tragédia” foi apresentado na quarta-feira (24) à noite, no Espaço Cultural Victor Faccin, ou Teatro Universitário Independente. O TUI, como é chamado, fica no bairro do Rosário, depois de uma série de ruas que se bifurcam, o que fez com que o público menos atento acabasse se perdendo, até chegar ao local.

“Não fui criada para odiar, mas para amar.”

A aparelhagem ainda precária do TUI não diminuiu a beleza e potência do espetáculo, uma versão contemporânea de “Antígona”, uma das tragédias mais conhecidas de Sófocles. Do texto original, várias mudanças, a começar pela principal delas: a presença de apenas duas personagens. Creonte, Corifeu, Tirésias, Hemon e as outras personagens todas foram retiradas da peça, que ficou centrada na batalha de consciência das duas irmãs.

Na parte técnica, o diretor optou pela quebra. No ápice de cada cena, as luzes se apagam e a trilha se interrompe com um estalo, para depois de alguns segundos se ligarem e encontrar as personagens em lugares totalmente diferentes do palco. Em determinado momento, a trilha muda radicalmente para um som feito por guitarras, o que parece deslocar a idéia de temporalidade da peça, passada pelas vestimentas antigas das personagens. No final, porém, a quebra finalmente se dá por completo: a luz, até então amarelada, torna-se vermelha; a voz, que até ali havia sido gritada, sussurrada ou falada pelas atrizes, sai das caixas de som. Depois de se emocionar com o realismo das atuações, o espectador é relembrado de que aquilo é uma peça e que está tentando passar uma mensagem. As luzes se apagam, por fim, e quando se acendem as personagens já não estão mais ali, tendo deixado a todos sem saber quais foram os seus destinos.

O grupo La Escalera, que tem mais de vinte anos de existência, criou “La Tragedia” em 2008 e de lá para cá já o apresentou diversas vezes e para diversos públicos. Desde o público adulto, como ocorreu em Santa Maria, ao adolescente, nas diversas escolas pelas quais passaram.

“Apresentamos muitas vezes em escolas secundaristas, adolescentes. No final da peça os alunos vinham nos perguntar: O que aconteceu? Como continua a vida de Ismene, de Antígona?”, relata o diretor Carlos Maria Rios.

Carlos é casado com Maribel Bordenave, a expressiva Antígona. O filho dessa união, Lautaro, faz parte do grupo e os acompanha nas viagens, fazendo a operação técnica das peças. O casal, junto com outras duas pessoas que formam o núcleo fixo do La Escalera, mantém também a Escola de Teatro Independiente La Escalera, pela qual já passaram mais de 400 alunos das mais diversas idades.

Entre elas, Cristina Busto, a Ismene. Para ela é um desafio interpretar uma personagem com um pensamento tão diferente do seu. Um desafio que ela consegue transportar muito bem. Embora seu rosto não seja tão expressivo quanto o de Maribel, Cristina consegue passar através dos olhos toda a angústia de sua personagem, e ver a lágrima descer naturalmente dos seus olhos, enquanto ela lhe encara, é um dos mais belos efeitos proporcionados pela disposição da platéia ao redor do palco.

E a interação com o público não se dá apenas através do olhar. Por duas vezes as personagens se dirigem diretamente a mulheres da platéia, tratando-as como se fossem a irmã. O toque e o olho no olho parecem retirar o espectador do lugar de observador passivo diante da peça. Antígona e Ismene, cada uma à sua maneira, parecem querer nos tirar também do lugar de espectador passivo da vida. Não dizem, mas insinuam, que também nós podemos nos levantar contra a opressão que seguidamente nos bate à porta.

“Pode ser que eu pareça louca, aos olhos de um louco.”

TRAGÉDIA, pelo viés de Felipe Severo

felipesevero@revistaovies.com

Para ler outros artigos acesse nosso Acervo.

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