NELCI FOI PROS BAMBAS

Nelci mudou de Escola. Agora vai desfilar nos Bambas.

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Nelci é uma senhora nascida no ano de 1953 e que atualmente não pesa mais que 50 quilos. A pele é tão negra que quando o suor escorre pelos ossos do rosto espelha a luz solar em pequenas gotículas límpidas transparentes que desaparecem a cada passada das mãos nas têmporas. “Negro não envelhece”, sempre me disseram, e com Nelci a minha frente tal provérbio ganhava crédito. Apenas um ou outro fio branco nos cabelos enrolados quase na altura do couro, a pele sem manchas e as palmas das mãos lisinhas a acariciar meus braços.

Sol à pino, uma cigarra canta até explodir. Nelci veste uma blusa branca e suas pernas finas à mostra se rebelam a cada nova história contada entre verdades, meias-verdades e pedidos de café com salame. Um par de chinelos lilases é colocado em frente à conversa e os pés de unhas amareladas descansam como os de um guri de sete anos sobre um degrau da calçada. Nelci quer saber minha idade. Respondo.

Como uma “negra velha, guri, eu esqueço muito fácil das coisas, sabe, menino?” Mas tem coisas que eu não esqueço. Não esqueço teu aniversário, não esqueço nem quando eu te cuidava e tu não me dizia nome feio. Só que eu te mandava dizer nome feio pra outra gringa aquela que trabalhava aqui na tua casa e teu pai nos xingava. Tu só não dizia nome feio pra mim. Não esqueço também que esse ano a “Vim pra ficar” não vai sair no carnaval. Deu problema com o pessoal lá e parece que esse ano não sai. Mas eu como uma macaca “véia”, já pulei de galho e me encontrei.

Nelci ri e aponta para todos os lados como se o mundo fosse todo engraçado, finalizando os gestos de euforia com o rosto entre as pernas a balançar a cabeça como num sinal de negação. Sabe por que a escola não sai, guri? Sabe a Vera, a loira, aquela, que botou um monte de guampa no marido? Mas a sem-vergonha veio me chamar de nega desgraçada no meio do desfile e eu mandei ela tomar no… Ai, não vou nem falar aonde. Mas tu sabe, guri, que no meio do desfile eu e a Jaiane olhamos pro lado do Alegrete e eu disse Jaiane vai vim coisa feia pros nossos lados. Daí tava passando “Os praianos” e logo era nós, eu já calçando a minha sapatilha, que é prateada. Quando a gente entrou desceu tanta água que a nega “véia” aqui nem agüentou e escorregou no asfalto. Na hora rasguei minha sapatilha e segui dançando, só cuidando de revesgueio a mal-tratada da Vera que me chamou de nega suja, que era eu que atrapalhava o desfile. Na hora deu dor aqui, oh, na bacia, mas “nêgo” que é “nêgo” não mostra que tá batido. Mas eu só cuidava das alas, nem perto da Vera ficava e eu avisei pr’aquela mulher que se ela me aparecesse perto eu me fazia que era de desengano e passava a perna na frente dela pr’ela “caí” duma vez.

Mas tu sabe, guri, que esse ano a “Vim pra ficar” não sai, né. Daí eu já me decidi: vou sair na “Bambas da Orgia”. Esses dias nós “tava” lá pra ver a escolha das “rainha” da escola do carnaval desse ano e eu chamei a Jaiane perto e disse pra Jaiane: Jaiane, tu não me dá vergonha, nega suja, se tu me perde a rainha pr’aquela branca sujismunda tu não vai querer nem ver. Mas e a guria me entra no salão e ganha, guri! Samba que tu nem enxerga.

Daí ficou faltando a fantasia porque a Jaiane não tem fantasia, né? Daí esses dias eu andava aqui p’ros lado dos “Praianos” e fui falar com a Teresinha da Sinhá. Aí a Teresinha me lembrou da fantasia da rainha do ano passado, pra ver se ela não vendia. Fumo atrás da guria e a guria queria nos cobrá 300 pila só pela fantasia.

Aí eu disse “ah, mas vocês tão brincando com a gente”, peguei a Jaiane, menino, e saímo de lá direto pros Bambas pra contar que a outra rainha queria vender a fantasia por 300 pila. Mas tu sabe, guri, que a Escola prometeu que 100 pila dava pra fantasia, os outro 200 a gente ia tê que achá.

Escuta, guri, não tem café com salame?

Nelci viaja com os olhos por algum pássaro ou algo que lhe prende a atenção. Na verdade, Nelci olha para o nada, com os olhos a ver para dentro do pensamento. O coração bate pensando em algo, pensando se um dia sua sapatilha prateada ficará pronta para o próximo desfile.

– Qual Sinhá tu estás falando?

A Sinhá aqui da beira da praia, mãe da Teresinha que bota carta.

– Ah, sim, a Sinhá. A Sinhá é viva?

A Sinhá morreu faz uns três anos. Olha, entrou em janeiro e em janeiro mesmo morreu. Daí ficou a Teresinha e a Roxana agora. Não sei se foi em janeiro que a Sinhá morreu, me parece que foi em fevereiro, minha Iemanjá me ajuda, meu Deus, quando é que a Sinhá morreu? Mas não vou me lembrar. Mas acho que foi perto de 2 de fevereiro, se não me engano, minha Iemanjá.

Do outro lado da rua, coincidentemente, cruza Roxana, a filha de Teresinha, e seus quase 1,70 comendo um salgadinho, reluzindo o brilho do pacote ao sol.

Roxana, “comoé” que tá, Roxana? E a mãe? Tá bem? Diz pra tua mãe que qualquer dia desses eu passo lá.

Mas tu sabe, guri, que agora eu trabalho lá na Ângelus.

No que tu trabalhas lá?

Nelci se enche de risos e dá corda às pernas que sacolejam de tanto rir.

Eu faço de tudo, menino. Hoje morreu pai e filho no acidente ali na faixa, não sei de onde vinham, mas eram de Santa Catarina. Imagina, vieram morrer aqui só pra dar trabalho. Mas esses quem pegou foi a Jardim das Acácias, que aí é bem bom. Bom por que quando tem que levá o corpo longe assim tem que ser dois caixão. Um é de lata, assim, brilha, que é pra não escorrer nada, daí depois vem o de madeira, lacrado. Entendeu? Coloca o corpo no primeiro, de lata, que segura se escorrer alguma coisa, e depois vem o de madeira, que é pra ficar bonito.

Mas então chegando ao velório nem pode abrir?

Capaz, guri, sai fechadinho daqui, se abrir lá tá tudo escorrendo. Daí faz velório de caixão fechado. E a mulher que tá na UTI e nem sabe ainda? Coitada, né?

Mas, guri, não tem um cafezinho aí, um salame, umas bolacha?

Mas tu sabe, esses dias morreu a mãe do Renato ali do posto, e o corpo foi lá pra nós. Daí me ligaram. Às vezes me ligam e eu atendo, às vezes eu me faço de loca e não atendo. Dessa vez eu fui. Daí nós fomos lá na salinha lá embaixo arrumar o corpo. Daí eles deram banho e começaram a pintar a mulher. Pra que pintar a mulher se vai pra baixo, me diz pra quê? Daí tinha que tirar o cheiro e começaram a perfumar a mulher e eu “dei em grito” perguntando pra que aquela gastança com perfume pra morto? Pedi pro seu Antônio dinheiro e saí pra rua. Voltei com quatro daqueles coisinha que fica jogando perfume na sala, sabe?

Nelci gargalha olhando para o céu.

Coloquei cada um em cada canto da sala velatória e dei risada deles.

Às vezes o morto é conhecido, daí eu já avisei pra nem me chamarem mais. Às vezes eu dô uns tapinha nas mãos dos pobre desgraçado, xingando, onde já seu viu i embora tão cedo, né?

Daí eu fico lá, sirvo chá, café, limpo o chão, às vezes. Mas deixa eu te contar. Daí da mãe do Renato tinha filho longe e queria que o enterro fosse n’outro dia de manhã mas o Antônio avisou que não dava, que não segurava, era câncer, sabe? Daí fizemo o guri corrê lá e deu tempo, enterramos antes das oito e meia.

E esses dias, guri, eu não queria trabalhar e me tranquei no banheiro. Fiz o sinal da cruz e esperei que alguma coisa acontecesse. Não sei, mas aquele dia eu não ouvi nada atrás de mim, nenhum passo, fiquei lá no banheiro por um bom tempo, quando saí já tavam levando o pobre coitado.

Enquanto Nelci contava as histórias numa velocidade surpreendente e com vais-e-vens de atrapalhar qualquer noção temporal, suas mãos seguravam bem fortes as minhas.

Mas deixa eu te continuar a história do carnaval. A Vera veio me dizer que esse ano eu ia desfilar de alpargata. Alpargata vai desfila tua bunda jogada no chão, gringa azeda, gritei pra ela, eu vou com a minha sapatilha prateada e não quero nem saber, vou arrumando as alas.

Mas nisso tudo a Jaiane tava sem a fantasia ainda, né. Daí ei lembrei do padrinho dela lá da Ana Luíza. Daí eu falei pra Jaiane: Jaiane, minha filha, eu tenho um jeito bem bom de nós resolvê esse problema logo. Vamo fazê um apresentação pro teu padrinho lá e se tu sambar bem te garanto que ele te dá um dinheiro bom pra fantasia. E não é que deu certo? O home deu 100 real pra fantasia da guria. Daí, até agora, a gente tinha 200, né? Eu disse sabe duma coisa? Vamo lá oferece esses 200 e pronto. A guria se fez se fez, eu falei que por mais caro a fantasia ia mofar e acabamos levando. Eu e a Jaiane saímos bem faceira, agora é só arrumar os tamanho.

E essa aliança aqui nesse dedo?

Ah, essa eu entro no carnaval. Na última noite, saio tranqüila com aliança até nos dedo dos pé.

Nelci nunca teve filhos, nem muitos empregos fixos. Praticamente quase toda a cidade a conhece. Conversamos exatamente por duas horas sentados sob o sol do segundo dia de verão de 2010. As complicações que fazia entre uma história e outra atrapalhavam a situação de repórter na qual me coloquei, entretanto, contar as histórias sem nem eu quase perguntar, era uma alegria para ela. Nelci hoje era personagem de uma reportagem quase conto que dedico a ela.

No fim, Nelci calçou os chinelos lilases, olhou-me, fitou-me e me disse: tu não vai casar tão cedo. Eu já sei. Eu já vi.

OBS:

1. Apenas os nomes Vera, Renato, Jaiane e Antônio são fictícios, entretanto, as personagens são baseadas na realidade. Sinhá morrera há três anos e era uma daquelas senhoras que muitos moradores de Rosário do Sul conheciam. Andava sempre com um pano atado na cabeça e um sorriso no rosto. Teresinha, sua filha, é viva e ainda vive na mesma casa onde a mãe viveu, agora com a filha Roxana.

2. Com licença às regras gramaticais e à Língua Portuguesa Culta, o texto foi escrito assim como foi falado para preservar o imaginário do leitor sobre a personagem.

NELCI FOI PROS BAMBAS, pelo viés de Bibiano Girard

bibianogirard@revistaovies.com

Para ler mais reportagens acesse nosso Acervo.

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  • Paulo Roberto

    Bibiano, que lindo encontro para esse belo texto.
    Abraço

  • Juliane Aldrighi

    Grandes figuras rosarienses…Adorei.