O EIXO DO FESTMALTA

Três dias de mato, música e integração. Isso talvez resuma o que foi o clima do V Festmalta, festival realizado em janeiro na área rural de Ibarama, município da região Centro-Serra do Rio Grande do Sul. A partir deste ano, o festival passou a integrar o Circuito Fora do Eixo e culminou na formação de um coletivo com as bandas locais.

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Primeiro dia de Festmalta. Foto: Nathália Schneider

Três dias de mato, música e integração. Isso talvez resuma o que foi o clima do V Festmalta, festival realizado durante os dias 21, 22 e 23 de janeiro na área rural de Ibarama, município da região Centro-Serra do Rio Grande do Sul. O balneário Lindos Lírios, ao qual se chega depois de sete quilômetros estrada de chão adentro, compensa aos que vieram de mais longe pela beleza natural. Embora houvesse muitos, entre os remanescentes das edições anteriores do Festmalta, que perguntavam pela cascatinha, local onde foram realizadas as quatro edições anteriores, não houve quem não se rendesse à beleza do local.

O festival, que na edição de 2011 se consagrou como um dos importantes festivais independentes da Região Sul, surgiu de forma descomprometida, em comemoração ao aniversário de sete anos da banda Flor de Malta, de Ibarama. “O primeiro Festmalta teve seis bandas e foi em cima de uma Rural. A estrutura de som era simples, não tinha alimentação, só tinha pastel. Era, na verdade, uma festa de amigos”, relata Tuito, tecladista da banda Xispa Divina, que participa ativamente do evento desde o primeiro Festmalta.

À medida que os comentários sobre a festa foram se espalhando na região, o Festmalta foi crescendo naturalmente, adquirindo as dimensões de um festival. A naturalidade na evolução do evento, inclusive, é um dos pilares da sua consolidação. Nos anos seguintes, o Festmalta passou a ser um dos poucos espaços que os jovens da região tinham para curtir música à vontade, sem as restrições que os costumes herméticos da sociedade dos pequenos municípios costumam impor a qualquer coisa que fuja do padrão. Eis outro aspecto do festival: ao mesmo tempo que é ruptura, pelo caráter independente e pela atitude do rock, o Festmalta, por se realizar na região rural, é também raiz.

Apresentação da banda Lombra. Foto: Nathália Schneider

Na sexta-feira à tardinha, enquanto o sol descia em direção aos morros e parte do público organizava suas barracas no acampamento, a banda Lombra, de Sobradinho, subiu ao palco. Com RATM, Planet Hemp e Charlie Brown Jr. no repertório, abriu o festival de forma enérgica, “para descabaçar o Festmalta”, nas palavras do vocalista Cássio, veterano do evento. À medida que o brilho das estrelas tomava o lugar do sol, o público em frente ao palco aumentava. A diversidade que marcaria o festival já era perceptível na primeira noite: houve espaço para o rock clássico no repertório de Leprechaun (Salto do Jacuí) e Quarto Ácido (Panambí), o hardcore da banda Yesomar (PoA), a matiz de soul no show da Agranel (Cachoeira do Sul) – um dos que mais agitou o público –, o rock rural de influência setentista da Xispa Divina, de Sobradinho, o heavy metal de Deep Sky (Candelária) e Metal Latex (Vera Cruz) e ainda as bandas Avalanche, de Santa Cruz do Sul e, no fim da noite, Práticos e Delirantes, de Sobradinho.

Preparação da banda Xispa Divina e o mascote Bigode. Foto: Nathália Schneider

A quinta edição do Festmalta, depois de quatro anos sendo realizado na paradisíaca cascatinha, apresentou outras mudanças além do local que serviu de sede. A partir deste ano, o festival passou a integrar o Circuito Fora do Eixo, referência no cenário cultural independente em todo o Brasil e que congrega mais de 70 coletivos pelo país. (saiba mais nas matérias Ser fora do Eixo I e II, de Felipe Severo) Ediberto Patta, ex-membro da banda que originou o festival e organizador do evento, conta que a integração se consolidou no Congresso Fora do Eixo da regional Sul, sediado em Santa Maria pelo Macondo Coletivo, e o princípio segue sendo expandir os horizontes: “essa é a ideia do festival: movimentar. Artes, agentes, bandas, público, produtoras, tornar tudo uma coisa só”. Outra novidade é o surgimento de um coletivo, o Revirado, que agrega bandas de Sobradinho, Cachoeira do Sul e Santa Cruz do Sul.

O coletivo ainda está em estágio embrionário, mas Patta é bastante otimista sobre as perspectivas do grupo que reúne as bandas Superfusa (da qual faz parte), Agranel, Chá das Cinco, Cinzeiro e Vinho Tinto e Xispa Divina. A intenção é que os coletivos culturais do sul, puxados pelo recém-formado Revirado, se integrem cada vez mais à realização do Festmalta. Neste ano, por exemplo, a organização contou com o apoio do Macondo Coletivo, que realizou a cobertura do evento e na maior parte do tempo também cuidou do som mecânico nos intervalos dos shows.

A mesa redonda de sábado. Foto: Nathália Schneider

O sábado foi marcado por dois eventos inéditos no Festmalta. O primeiro deles, antes do início dos shows, foi uma mesa redonda sobre redes colaborativas, a nova cena independente no Brasil e coletivos culturais, mediada por Atílio Alencar e Paulo Noronha, ambos do Macondo Coletivo. O interesse das cerca de 30 pessoas presentes pelo tema foi avaliado como bastante positivo, como afirma Atílio: “teve muita gente disposta a participar, num momento em que talvez fosse mais interessante estar ouvindo música ou em uma piscina. Foi muito bacana”.

Para Atílio, promover discussões deste tipo é imprescindível para ajudar a esclarecer e propagar a ideia do que são os coletivos e o que representa o colaborativismo no contexto atual da produção cultural no Brasil. “O Sul é com certeza a região menos ativa, ainda, dentro desse quadro. Até por uma certa tradição histórica nossa, que dificulta um pouco a formação de coletivos, que é uma certa ilusão de auto-suficiência”, afirma. “É uma barreira cultural que nós temos que vencer, pois nos impede de desenvolver em diversos aspectos um trabalho mais coletivo, mais colaborativo”.

Justamente em função dessas dificuldades que Patta afirma que um dos focos do Coletivo é trabalhar junto à cena local e às bandas da região. “O Festmalta é uma maneira de alavancar as bandas daqui e de fazer contato com o pessoal de outras regiões. E a ideia é chamar todo esse pessoal da nossa região aqui para trabalhar junto. Romper as barreiras que existem e tentar unir ao máximo”. Outra questão, também salientada por Atílio, é a importância das bandas investirem nas músicas próprias – que normalmente tem mais dificuldade de conseguir espaço e criar público – no Festmalta, para reforçar o caráter de festival independente. Sobre isso, Patta acredita que o caminho é o diálogo com as bandas locais. “A gente vem dialogando, conversando, para que eles também passem a compor e a realizar um trabalho independente. É devagar mesmo, é natural, e isso é um lado bom do Festival: as coisas vão naturalmente, nada é forçado. E é certo que ano que vem vai ser um festival bem maior e recheado de bandas autorais”.

Apresentação da banda Superfusa, no sábado. Foto: Nathália Schneider

A outra novidade do Festmalta ocorreu depois da primeira série de shows no sábado, quando se apresentaram as bandas Sobretudo Blues, de Santa Maria, Os The Freaks, de Guaíba, Chá das Cinco, de Santa Cruz, Ventores, de Santa Maria, e Superfusa, de Sobradinho. Foi o espaço Palco Fora do Eixo, em que o ator Ícaro Costa, da Cia. de Teatro Entrelinhas, apresentou a peça “Vocês viram o meu cachorro?”, adaptação da obra de Victor Sant’Anna.

Em meio ao público, que ainda não havia se acomodado totalmente nas cadeiras de plástico ou na grama, apareceu um mendigo de vestes esfarrapadas, perguntando por seu cão. Ao tomar o lugar do palco, manteve a plateia atenta à sua história de vida, enquanto tecia críticas diretas e implícitas que iam da repressão do sistema educacional ao oportunismo dos políticos e às contradições da sociedade de classes. Em momentos oportunos, provocava a reflexão sobre o quanto a ética humana é realmente mais humana do que a natureza canina.

A forma de dialogar com o público incentivava comentários e participações, e contribuiu para que nem uma rápida queda de luz fosse capaz de dispersar a plateia da primeira peça de teatro apresentada no Festmalta.

A banda Casa de Orates, no sábado. Foto: Nathália Schneider

A noite de sábado ainda contou com uma sequência de três dos mais esperados shows do festival. A banda Casa de Orates, de Itajaí, recomeçou a noite, com um show performático em que as artes cênicas se mesclavam à sonoridade progressiva e ambiental. O nome do CD da banda, Artesão de Sonhos, descreve com precisão a atmosfera lúdica que contagiou o show. Na sequência, a apresentação do trio instrumental Quarto Sensorial, que arrebatou o público pelo segundo ano no Festmalta, apresentando a mistura de vertentes que vão do jazz ao rock e até ao samba, no caso da inédita Samba Cafeinado. Além de composições próprias do EP já lançado e do CD que está no forno, um cover de Jimi Hendrix executado à perfeição extasiou a plateia. Na sequência, a santa-mariense Rinoceronte realizou um show eletrizante e fez com que o público cantasse junto algumas das composições do disco recém-lançado Nasceu. A noite ainda contou com as apresentações de Chapeleiro Maluco (Cachoeira Do Sul), Estação Elétrica (São Leopoldo) e Los Arcáides (Esteio).

O público no show da Quarto Sensorial, no sábado. Foto: Nathália Schneider

O domingo, para alegria geral, contrariou as previsões do tempo que anteviam pancadas de chuva durante a tarde. Aliás, os únicos pingos que ousaram cair o fizeram na noite de sábado, o que, em função da temperatura, não foi exatamente um problema. Os shows do último dia iniciaram com a banda Ato IV, de Júlio de Castilhos, e ainda contaram com o repertório de clássicos da sobradinhense Rock’n’Live, que animou os presentes, e as bandas Cinzeiro e Vinho Tinto, de Cachoeira, Doctor Flowers, de Sobradinho, Rodrigo Cidade, de Santa Maria, e Sálvia, também santa-mariense, que surpreendeu com músicas mais voltadas para o reggae e com forte marca da música negra.

Enquanto aguardava-se para o show de encerramento, a encargo de Wander Wildner, o sol baixava e o clima de despedida tomava conta. Barracas eram desmontadas e os ônibus que haviam vindo de Júlio de Castilhos, Santa Cruz, Santa Maria, Vera Cruz, Cachoeira do Sul, Porto Alegre e Esteio iam chegando e se posicionando para acomodar a bagagem.

A banda Sálvia, na tarde de domingo. Foto: Nathália Schneider

– Ibarama, definitivamente, é Fora do Eixo! – exclamara Paulo Noronha, guitarrista e vocalista da Rinoceronte, provocando a plateia na noite de sábado, para quem a afirmação soou como elogio. Atílio Alencar, que considera o Festmalta um marco, “por ser realizado onde é e da maneira como é”, vai além na afirmação. “O Fora do Eixo é conceitual, não geográfico, apenas. […] se define como práticas que, a princípio, não estão consagradas, reconhecidas, manifestações que a gente chamava de marginais algum tempo atrás, e que hoje, com essa ruptura de noção de centro e margem, estamos conseguindo deixar claro que o Brasil é muito mais amplo do que dois ou três pólos culturais e econômicos”.

O show de Wander Wildner. Foto: Nathália Schneider

O show de Wander Wildner, que executou clássicos seus – “composições minhas e de amigos meus”, nas suas palavras – e incluiu uma interpretação de À Palo Seco, clássico de Belchior, e uma versão balada de Amigo Punk, reuniu pessoas com mochilas nas costas, outras que vieram exclusivamente para seu show e outras, ainda, que transitavam entre o acampamento e os seus respectivos ônibus e paravam, eventualmente, no meio do caminho para curtir o som. Era possível ver, ainda, o sobradinhense Charlie Brown e sua esposa, que vendiam artesanato ao lado da lona durante todo o Festmalta, fazendo dreadlocks nos cabelos de um rapaz, observados vez que outra pela filha Violeta, de dois anos, que brincava com outra mocinha na areia enquanto Wander animava a plateia.

Último dia. Foto: Nathália Schneider

Entre os aprimoramentos realizados a cada ano e a importância de manter a identidade local e o espaço para as bandas da região, Patta demonstra dedicação. “O Festmalta é realizado ao longo do ano. Não para nunca: sempre tem uma coisinha para fazer, um contato a mais, cada vez recheando mais a programação, isso que é o bom. Cada ano cresce um pouquinho”, diz.

Tão importante quanto o aprimoramento técnico, como ressaltam Tuito e Fhio, da banda Xispa Divina, são as trocas interpessoais que eventos desse tipo propiciam. A motivação deles talvez ajude a sintetizar o espírito do Festmalta: “Nós sempre tocamos e fizemos nossa música para mostrar para nossos amigos. Para eles, um dia, nos convidarem, nos mostrarem alguma coisa, fazer uma troca. A melhor coisa que tem é estar num lugar em que tu és bem recebido, em que o pessoal tem alguma coisa para te oferecer. Nem que seja só a música, algo diferente para ver. E isso só os festivais fazem”.

O EIXO DO FESTMALTA, pelo viés de Tiago Miotto.

tiagomiotto@revistaovies.com

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  • http://www.indicoja.com @Fernahh

    “DAHORA” Tiago!

    Relatou bem o que foram os 3 dias de festival.
    E que em 2012 o Festmalta cresça mais, e que mais pessoas possam ter a possibilidade de interagir com tudo que o festival nos proporciona.

    Baita texto!