CONVERSAS DE ÔNIBUS

Um pequeno panorama da primeira semana de aulas em uma universidade federal.

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Ouvindo as conversas no ônibus, forma-se um breve panorama de uma universidade pública. Uma matéria sobre coisas que se veem, se ouvem e se observam no mundo da Universidade Federal de Santa Maria nesse início de ano letivo.

“Não, parece que não tem aula amanhã de tarde.”

“Ué, mas de novo?”

“Não tem professor… E já avisaram que na outra e na outra (semana) não tem também”.

“Vamos pesquisar isso. Não vou ir outra tarde pra ficar mofando no campus.”

Na quarta-feira, dia 16 de março de 2011, estudantes de matemática, em pé, conversam no ônibus. Estão esticados para alcançar a barra de metal presa ao teto. O objeto serve de segurança para os atrasados que não conseguiram chegar em primeiro lugar na fila de estudantes ansiosos. A correria, nos horários de pico, se forma mesmo antes dos ônibus abrirem as portas e, quando estas se abrem, a correria por um lugar nas cadeiras sempre gera uma polêmica ou outra. Alguém fura a fila, um tropeça no outro e o outro é xingado em pensamento pela vagarosidade ao subir os degraus. Os responsáveis são isentos da culpa nesses instantes quando a raiva é posta em cima de quem também sofre pelo mesmo serviço carente.

“Não vi nada de melhor no serviço agora. Porque se aumentou a passagem né…”

O sistema de transporte é constantemente alvo de questionamento entre os usuários. Depois do aumento do preço da passagem no ano passado, esperava-se ao menos uma melhoria na qualidade do serviço. Esperava-se, mas ao constatar o tamanho das filas para a confecção do cartão magnético que substitui as antigas carteirinhas e fichas de plástico, a demora anunciava mais do mesmo. São os mesmos poucos guichês de atendimento, os mesmos poucos horários das linhas de transporte mais requisitadas e os mesmos apertos que levam à comprovação da lei “dois corpos não ocupam o mesmo espaço”. Enquanto o Ministério Público investiga o porquê das licitações para as empresas de transporte urbano terem furado a periodicidade legal, os cabeças da Associação dos Transportes Urbanos usufruem do novo recorde de estudantes dentro da Universidade Federal de Santa Maria.

“Eii, ontém demorei 55 minutos pra chegar no campus.”

“Alô, alô. É… vou chegar atrasada, já começou a aula? Diz que logo eu chego, ainda tô no ônibus!”

O congestionamento nas faixas do sentido centro-campus e o congestionamento da entrada dos passageiros nos ônibus (que chega a demorar cinco minutos em cada parada) retardam a chegada do aluno na universidade. E são freqüentes. Na ida ao campus no dia 17 de março – o trajeto tem aproximadamente 10 quilômetros – , carros e ônibus enfileiravam-se sob a neblina forte da manhã. A UFSM cresce de acordo com as medidas requeridas pelo REUNI, a Reestruturação e Expansão das Universidades Federais. Estima-se que já cresceu cerca de 40% desde a criação do programa. Novos cursos são abertos a cada ano, mas a democracia de inserir mais estudantes no ensino superior é uma democracia falha. É suposta, pois a estrutura física das universidades e a contratação de professores não vêm acompanhando o mesmo ritmo do crescimento do número de acadêmicos. A qualidade do ensino cai e os serviços aos estudantes, como a alimentação boa e barata, congestionam-se.

As filas dos dois Restaurantes Universitários (RU’s) não cessam. Somente para entregar a bandeja, os talheres e o prato, um aluno gasta mais tempo do que para sentar e comer. Mesmo com a construção de um novo RU no campus, finalizada tardiamente no ano passado, o horário de almoço ainda é horário de apertos e filas. A comida é de excelente qualidade, mas o acesso a ela tem tornado apertada a rotina do intervalo de meio dia.

“Olha essa fila!!”

“Onde tá o início?”

“Senhor, posso entrar aqui? Obrigada!”. Dois estudantes, em um dia da semana, aceitam a boa vontade de um senhor, passando na frente dele e fugindo da fila em caracol. Cena típica.

No sentido campus-centro, no mesmo dia 17 de março, um estudante tentava passar pela catraca. Passou uma, duas, três vezes o cartão no leitor magnético, até que conseguiu entrar, escapando de levar dezenas de olhares feios que se encontravam na fila atrás de si.

Um cartaz colado no interior do veículo exibe a lotação máxima. Em média, são 40 pessoas em pé e 40 pessoas sentadas. Na primeira parada já havia mais de 30 fora das cadeiras. Na segunda parada já se torna quase impossível contar alguma coisa. Vez ou outra, alguém não aguenta o bafo causado pelo ar denso e quente.

“Abre a janela aí! Abre tuudooo!”

Enquanto isso, um pessoal conversava, se distraindo das sensações do calor típico nas tardes santamarienses da época.

“ É… parece que a gente não tem aula por um mês. Os concursos pros professores substitutos recém estão acontecendo e até eles tomarem posse e iniciarem as aulas é pelo menos um mês.”

A falta de professores prolonga o início efetivo do ano letivo para muitos cursos. O corpo docente, em muitos deles, mostra rombos grandes, e tais rombos são tapados mediocremente. A mediocridade não se dá pela qualidade dos profissionais. Disso quase não há do que reclamar. Fora aqueles casos de acomodação diante da segurança do cargo público, a maioria dos professores estampa orgulhosamente um currículo com, ao menos, mestrado e bons trabalhos. Não é garantia de nada, claro, mas é um início.

A contratação insuficiente de professores sempre foi um problema, mas nesse ano outro ponto foi adicionado à discussão. A  Medida Provisória 525, lançada recentemente, muda os critérios de contratação dos professores substitutos. Agora o contrato é de um ano. Ou seja, o compromisso com o trabalho pode ser gravemente afetado, pois o período de dois semestres é pífio para uma familiarização com as didáticas e as turmas e é nada para a realização de projetos de pesquisa e extensão, bases da linha das universidades.

No primeiro dia letivo de 2011, 10 de março, muitos alunos foram ao campus e encontraram as salas fechadas e os professores ausentes. Alguns acharam desnecessário arriscar e nem deram o ar da graça por lá. O céu estava azul e o sol alto insinuava que pelo menos naquele dia, depois das folias de carnaval, não era tempo de iniciar a rotina de trabalho. Na segunda-feira, dia 14, as coisas foram entrando nos eixos. Mas até ontem, dia 18 de março, alguns eixos ainda estavam tortos. Além da falta de professores, outro assunto estourou na UFSM. A revolta com a Medida Provisória 520, além dos salários injustos, levou os servidores técnicos administrativos a realizarem paralisação. A MP 520 ameaça os Hospitais Federais, que virariam uma empresa metade pública e metade particular. A parte privada abriria as ações para quem desejasse comprar.

No Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM), localizado na entrada do campus, já ocorre uma terceirização de serviços dentro dos corredores. A empresa SulClean realizada os serviços de limpeza por um contrato que, em tese, não poderia existir. Com a MP, os funcionários não precisariam ser  pessoas com vínculo institucional, o que é um absurdo em um hospital escola. O Sistema Único de Saúde (SUS) estaria ameaçado pela a possível entrada de consultas e tratamentos particulares. O HUSM deixaria de ser o hospital que atende pessoas de dezenas de pequenos municípios ao redor de Santa Maria.

Na sexta-feira, dia 18 de março, a primeira semana de aulas terminava com um fecho de muitas dúvidas e pontos a serem esclarecidos e resolvidos. Entrar na universidade pública é o desejo da maioria dos adolescentes. Ensino superior gratuito e bons professores. Os “bixos” circulando pintados e cheios de orgulhos pelos gramados do campus da UFSM, nessas primeiras semanas de aula, nos fazem lembrar a toda hora que, sim, é uma felicidade estar ali dentro. Mas as paralisações, as faixas declarando indignação contra a privatização dos hospitais públicos e os serviços de média e ruim qualidade indicam que a idealização de um mundo universitário perfeito é um conto que exige grandes aperfeiçoamentos e olhos vivos nas pseudo-melhorias.

CONVERSAS DE ÔNIBUS, pelo viés de Liana Coll

lianacoll@revistaovies.com

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